Futebol chinês: do fracasso milionário ao fenómeno amador que entusiasma o país
Enquanto o Mundial de futebol prende as atenções na América do Norte este verão, a China voltará a assistir de fora.
Mas uma história improvável está a ganhar força no país, à medida que adeptos chineses apoiam jogadores amadores improváveis – de estafetas a aldeões – que agora jogam em estádios cheios, num raro sinal de que, acreditam alguns, o “desporto-rei” pode finalmente estar a criar raízes no país.
Durante anos, a qualificação para a competição mais prestigiada do futebol foi um objetivo nacional para a segunda maior economia do mundo. É um dos “três desejos” que o presidente Xi Jinping definiu para a modalidade, juntamente com organizar e, eventualmente, vencer o torneio.
Em abril de 2016, a Associação Chinesa de Futebol revelou um plano histórico para alcançar a hegemonia mundial até meados do século. Entre os objetivos ambiciosos: 70 mil campos em todo o país e 30 milhões de crianças em idade escolar a praticar futebol até 2020.
Mas, uma década depois, os resultados são escassos.
A seleção masculina caiu do 82.º lugar do ranking mundial em 2016 para o 94.º entre 211 seleções nacionais. Mesmo com o Mundial a expandir-se de 32 para 48 equipas, as esperanças chinesas foram destruídas após uma derrota por 1-0 frente à Indonésia no passado mês de junho. A estreia em 2002, que terminou com uma eliminação na fase de grupos sem qualquer golo marcado, continua a ser a única participação do país.
Será possível fabricar uma cultura futebolística? Na China, a tentativa esbarrou em forças muito para além do relvado.
Marcar pontos políticos
Era o final de novembro de 2012 e Xi tinha assumido a liderança do partido apenas duas semanas antes. Durante uma visita a uma exposição, pronunciou duas palavras que viriam a definir a China moderna: o “sonho chinês”. Tratava-se de uma visão de “rejuvenescimento” nacional. A expressão tornou-se rapidamente um elemento central da retórica oficial.
O futebol não foi exceção. O plano histórico de 2016 prometia não apenas sucesso desportivo, mas também um sonho de “rejuvenescer a nação”.
O que se seguiu foi uma onda de contratações de estrelas estrangeiras para a Superliga Chinesa (CSL). Entre 2015 e 2017, os clubes da CSL gastaram 1,12 mil milhões de dólares [mais de 960 milhões de euros] no mercado de transferências, acumulando um défice líquido superior a 818 milhões de dólares [cerca de 700 milhões de euros], mostram dados do Transfermarkt. No início de 2016, o recorde nacional de transferências foi batido quatro vezes num único mês, com jogadores conhecidos como Oscar, Paulinho, Carlos Tévez e Hulk a trocarem a Europa pela China.
A financiar esta explosão estavam sobretudo promotores imobiliários; em 2018, os proprietários dos 16 clubes do principal escalão tinham interesses no mercado imobiliário.
“Nunca foi sobre futebol. Foi sempre sobre estabelecer uma relação mais próxima com o governo local”, diz à CNN Sports Tobias Ross, que entrevistou 200 figuras ligadas ao futebol chinês para um novo livro de que é coautor, “Football, Business and State Power in Contemporary China”.
Este sistema de favores refletia os conceitos de guanxi e renqing, redes informais de relações construídas com base em favores e obrigações na cultura chinesa. Para os conglomerados imobiliários, essas ligações davam acesso a dois recursos controlados pelo Estado: terrenos e empréstimos bancários. Já os responsáveis políticos, impossibilitados de gerir clubes diretamente, procuravam prestígio e promoções em troca, explica Ross.
A dinâmica alimentou gastos extravagantes em contratações mediáticas e projetos de estádios vistosos que “ficavam muito bem no papel”.
Mas, economicamente, fazia pouco sentido. Ross afirma que “é basicamente um negócio que dá prejuízo”. O Guangzhou Evergrande, por exemplo, bicampeão asiático e oito vezes vencedor da CSL, perdia entre 155 e 310 milhões de dólares [133 e 266 milhões de euros] por ano, noticiou a Bloomberg em 2021.
Os investidores, ainda assim, faziam grandes esforços para preservar essas relações, seguindo dirigentes partidários locais e mudando clubes de cidade quando os responsáveis políticos eram transferidos, conta Ross. À medida que os clubes subiam de divisão, os proprietários tentavam também alargar a sua influência “na hierarquia do guanxi” em direção aos níveis mais altos do governo.
Mas o modelo não foi concebido para durar. Muitas vezes, o dinheiro desaparecia assim que os investidores asseguravam ou concluíam os seus projetos, enquanto os responsáveis políticos privilegiavam conquistas rápidas durante os seus mandatos limitados. “Sinceramente, é uma piada”, considera Ross, sublinhando que até os principais clubes da CSL pouco fizeram para desenvolver merchandising, direitos televisivos ou outras fontes de receita, ao contrário dos clubes europeus.
Depois, a pandemia de covid-19 deu o golpe final. Eliminou a almofada financeira que sustentava os gastos dos clubes. A vasta campanha de Pequim contra os elevados níveis de dívida e o excesso de oferta no setor imobiliário atingiu brutalmente os proprietários. Clubes com dificuldades financeiras chegaram a ter problemas para pagar serviços básicos, quanto mais os salários milionários dos jogadores. Mais de 40 equipas desapareceram desde 2021.
E a linha ténue entre guanxi e ilegalidade pura alimentou uma corrupção generalizada. A cumprir uma pena de 14 anos de prisão, o antigo vice-presidente da Associação Chinesa de Futebol, Du Zhaocai, disse à televisão estatal CCTV num documentário de 2024: “Dinheiro e presentes são frequentemente usados para facilitar processos oficiais, ao ponto de se ter tornado uma prática informal enraizada.”
Noutra revelação chocante, o antigo médio do Everton Li Tie admitiu ter pago a equipas rivais para ajudar dois clubes a subir à Superliga Chinesa durante períodos em que foi treinador entre 2015 e 2019. Mais tarde, pagou 440 mil dólares [378,5 mil euros] para se tornar selecionador nacional. Só no mês passado, a federação acrescentou mais 17 pessoas à lista de banidos para toda a vida por manipulação de resultados e apostas ilegais.
Uma economia em desaceleração, o declínio demográfico e a intensificação da competição tecnológica entre os Estados Unidos e a China também empurraram o futebol para segundo plano na agenda política do governo.
“O futebol já não aparece a um nível político central. Não faz parte do plano quinquenal, Xi já não fala publicamente sobre isso”, afirma Ross. “E especialmente depois da covid, os governos locais não têm dinheiro. Precisam dele para questões mais urgentes.”
À medida que a corrida ao ouro terminava e os incentivos políticos desapareciam, ficaram expostas falhas estruturais profundas – problemas que o dinheiro, por si só, não conseguia resolver.
Construir uma cultura
Por mais campos que Pequim tenha prometido construir – e construiu – pode simplesmente não existir uma tradição futebolística para os preencher. Poucos sabem isso melhor do que Rowan Simons, britânico que se mudou para a China nos anos 80 para estudar a língua e que mais tarde se tornou um conhecido comentador.
“Descobri que a China não tinha clubes de futebol na altura. Tudo era organizado pelo governo”, diz Simons à CNN Sports sobre a sua procura por uma equipa. “Achei isso muito estranho. O futebol é uma cultura. É organizado ao nível das bases através de clubes, que são, na prática, clubes sociais.”
No Reino Unido, sublinha, os clubes amadores assentam em voluntários – desde a manutenção dos relvados à gestão dos bares ou à condução dos autocarros – com “valores comunitários incorporados no futebol desde o início”. A China só terá hipótese num Mundial, argumenta, se construir o jogo de baixo para cima.
A lógica é simples: quanto mais pessoas jogarem, mais clubes não profissionais existirão e maiores serão as probabilidades de identificar e desenvolver talento local. Muitos adeptos chineses, acrescenta, seguem gigantes europeus como Liverpool e Arsenal sem perceber que esses clubes também começaram como equipas amadoras há mais de um século.
Com isso em mente, Simons fundou em 2001 o segundo clube de futebol registado na China com investimento estrangeiro, sete anos depois de o país lançar de raiz a sua primeira liga profissional.
Hoje, a China tem cerca de 980 mil jogadores registados e 40 mil equipas ao nível amador. Inglaterra, com uma população equivalente a apenas 4,2% da chinesa, tem mais jogadores registados e três vezes mais equipas. Um relatório oficial divulgado em dezembro concluiu que o futebol não está entre os seis desportos mais populares da China, ficando atrás de modalidades como badminton e ciclismo.
À medida que o clube de Simons apresentava o futebol a milhares de alunos ao longo dos anos, ele viu outros obstáculos a travarem o crescimento da modalidade.
O principal é aquilo a que Simons e Ross chamam “o precipício” – o momento em que os estudantes abandonam o desporto para se prepararem para o exigente exame nacional de acesso à universidade da China, descrito pelos meios estatais como “o mais difícil do mundo”.
“As crianças começam a jogar, e muito, na escola primária… Mas quando chegam ao ensino intermédio, a pressão académica aumenta e muitos pais sentem que não podem perder tempo com os filhos a jogar”, explica Simons, acrescentando que existe uma taxa de abandono “muito significativa” entre os jovens de 12 anos no seu clube.
De facto, os alunos enfrentam excesso de trabalho e de testes, sendo muitos encaminhados para explicações privadas após as aulas e durante as férias. A pressão tornou-se tão intensa que Pequim teve de tentar controlar o setor, apenas para este ressurgir clandestinamente.
“No futebol, tem de haver uma ênfase muito maior na competência humana e no desenvolvimento das capacidades humanas. E talvez isso signifique ser individualmente criativo da mesma forma que Messi e Ronaldo foram”, observa Simon Chadwick, professor de Desporto Afro-Eurasiático na escola de negócios francesa Emlyon, à CNN Sports. “Mas não acho que a sociedade chinesa incentive necessariamente isso.”
Aspetos da vida social e comunitária chinesa, diz Chadwick, podem ser altamente estruturados e coletivos, com rotinas muitas vezes partilhadas entre família, escola e trabalho. Isso deixa pouco espaço para a espontaneidade que ajuda os talentos a emergir e o futebol de rua a prosperar.
Por outro lado, o modelo centralizado ajudou a transformar o país numa potência desportiva, formando atletas como o velocista e barreirista Liu Xiang ou o craque do badminton Lin Dan. Nos Jogos Olímpicos de Paris 2024, a China terminou em segundo lugar no quadro de medalhas, apenas atrás dos Estados Unidos. Mas o futebol, como sublinha Chadwick, é um desporto “muito arrogante”. Exige outra mentalidade e, acima de tudo, tempo para que uma cultura se enraíze.
“O sistema desportivo chinês esteve sempre mais orientado para modalidades olímpicas e o critério de sucesso sempre foi muito claro”, acrescenta. “Mas ganhar os 100 metros ou os 110 metros barreiras é muito diferente de criar uma equipa de 22 jogadores que vai a um torneio durante um mês e tem de vencer os melhores do mundo.”
Sinais de esperança
Trocas de provocações apaixonadas que só os locais entendem, desempates por penáltis emocionantes, pontapés de bicicleta e truques técnicos, um estádio com mais de 62 mil adeptos a assistir à final – tudo isto numa época que acumulou 2,2 mil milhões de visualizações em transmissões online.
Mas não se trata da CSL, nem de jogadores profissionais. É uma liga amadora viral na província de Jiangsu, conhecida localmente como Suchao, que reúne professores, programadores, estafetas e estudantes. Treze cidades apresentam equipas num torneio de sete meses e 85 jogos, em que Taizhou acabou por ser campeã na época inaugural em novembro passado.
Jogadores disputam a final da Suchao entre Taizhou e Nantong em novembro. (Liu Jianmin/VCG/Getty Images)
Inspirada numa liga rural caótica onde o prémio pode ser gado, a Suchao tornou-se tão popular que outras províncias estão agora a copiar o modelo. Embora os bilhetes custem no máximo três dólares [cerca de 2,5 euros], a liga ajudou a gerar 2,2 mil milhões de dólares [1,89 mil milhões de euros] em consumo ligado a viagens, hotelaria e comércio local.
Para o futebol, porém, o que importa é o renascimento do sonho e do entusiasmo no país. O adepto de Taizhou Cai Liang disse à Reuters que não sabia se deveria incentivar o filho a seguir o desporto. Mas depois de assistir a um jogo e se interessar mais, o rapaz de 14 anos disse: “Vou jogar futebol mais vezes.”
Na verdade, os pais podem ser decisivos para o futuro da modalidade. Sun Jihai, antigo jogador do Manchester City, fez história em 2002 ao tornar-se o primeiro jogador do Leste Asiático a marcar na Premier League inglesa e representou a China na única participação do país num Mundial nesse mesmo ano. Em declarações à CNN Sports, diz que a atitude dos pais teve certamente impacto no desenvolvimento de talento.
Ainda enquanto jogava, Sun conta que já esperava dedicar-se à formação de jovens após a reforma, considerando-a “a forma mais direta e rápida de reparar o futebol chinês”.
Em 2024, liderou uma iniciativa destinada a identificar jovens promissores em todo o país e oferecer-lhes vagas totalmente financiadas no seu centro de treinos. Dos mais de 10 mil jovens que participaram até agora nas seleções, cerca de 90 foram escolhidos.
O programa organizou testes em zonas menos desenvolvidas e dá grande importância ao desempenho académico em paralelo com o futebol, contratando professores para ajudar os estudantes com os trabalhos de casa depois das aulas. “Também sou pai”, nota Sun, defendendo esforços para eliminar barreiras económicas e sociais e alargar o acesso.
Também Simons descreve os pais como “a principal esperança”, dizendo que cada vez mais encaram o desporto não como uma distração dos estudos, mas como parte deles, promovendo condição física, amizades e competências sociais. Recorda uma visita a um treino do seu clube em que pensou que algo tinha corrido mal ao ver pais a chorar junto ao campo. Mas eles disseram-lhe: “Nunca vimos o nosso filho tão feliz.”
Com mais campos e oportunidades para jogar, adolescentes talentosos começam a destacar-se. Este mês, quatro jogadores da Suchao foram convocados para a seleção sub-19.
Há outros sinais promissores: a China chegou à final da Taça Asiática AFC sub-23 pela primeira vez em janeiro passado, perdendo apenas para o Japão, potência regional, enquanto o número de jogadores amadores registados quase duplicou no último ano. Mais campos nas comunidades estão a dar a uma nova geração o primeiro contacto com o “desporto-rei”.
Enquanto a nova época da Suchao prossegue e o Mundial decorre ao longe, resta saber se se trata apenas de um fenómeno passageiro. Mas, para lá do pessimismo, o futuro do futebol chinês pode já não depender apenas de ambições impostas de cima para baixo.











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