Seleção alemã teve atuações decepcionantes em três Copas do Mundo consecutivas. Especialistas dizem que motivos não estão apenas ligados à qualidade do futebol, mas também a mudanças na sociedade alemã.O ex-capitão da seleção alemã Philipp Lahm afirmou que o maior problema do futebol alemão é a falta de identidade. O ex-jogador Toni Kroos acredita que a Alemanha não tem jogadores de nível mundial. Seu colega Mats Hummels falou sobre problemas sistêmicos. Há muitas opiniões e argumentos para se escolher quando se trata de explicar por que a Alemanha registrou seu terceiro fiasco consecutivo em Copas do Mundo, acabando novamente eliminada na primeira fase do torneio de 2026.
Frank Wormuth, que já foi jogador, treinador-educador da Federação Alemã de Futebol (DFB) e técnico da primeira divisão holandesa, acredita que o contexto da equipe importa.
“Não se trata da filosofia de jogo. Trata-se da qualidade dos jogadores dentro dessa filosofia de jogo”, disse Wormuth, que atualmente trabalha como coach mental.
“É preciso analisar isso separadamente. Nossos principais talentos ainda são talentos. [Florian] Wirtz teve uma temporada abaixo do ideal no Liverpool. [Jamal] Musiala ficou afastado por lesão durante um longo período. [Leroy] Sané parece ser uma eterna promessa. O que podemos esperar agora?
“Pequenos detalhes fazem toda a diferença”
“Então, logo de cara, você tem três jogadores muito importantes em campo, responsáveis pela criatividade, que não estavam no auge da forma. E isso não tem nada a ver com [o técnico, Julian] Nagelsmann. É uma questão de desempenho individual. [O atacante Kai] Havertz é simplesmente como é. Ele marca gols de vez em quando, mas se destaca nos passes. Aí Havertz, o único cobrador de pênaltis da equipe em quem se pode confiar, perde um pênalti. São todos pequenos detalhes, e eu diria que, neste nível, pequenos detalhes fazem toda a diferença. É por isso que não funcionou tão bem para nós no ataque, embora essa fosse justamente a nossa força.”
Wormuth também cita o exemplo do defensor Nico Schlotterbeck, cuja lesão no início da Copa foi vista como um golpe crucial para as chances da Alemanha.
“Ele se machuca e, de repente, tudo desmorona porque ficamos sem um jogador canhoto capaz de abrir o jogo com sua construção de jogadas. Essa é uma visão unidimensional da situação”, disse Wormuth.
“A questão é: será que somos realmente tão bons defensivamente? Basta olhar para as outras equipes e como elas usam seus corpos para desafiar os adversários. Nós não fazemos mais isso. Consigo ver claramente que temos problemas defensivos em situações de um contra um.”
Estrutura do sistema e mudanças sociais
Com as mudanças relativamente recentes feitas no sistema de base da Alemanha, parece inadequado sugerir que o futebol juvenil precise de uma reformulação completa. Afinal, o impacto das mudanças recentes não será sentido por muitos anos. No entanto, como o caráter é outra área questionada por aqueles que analisam a mais recente eliminação da Alemanha na Copa do Mundo, existem estudos de caso de outros países que podem inspirar reflexão em termos do desenvolvimento de jovens jogadores na Alemanha.
Mark O’Sullivan, professor associado de futebol na Escola Norueguesa de Ciências do Esporte em Oslo, destaca a abordagem do Bodo/Glimt. Na temporada que acaba de terminar, o clube sediado na pequena cidade ao norte do Círculo Polar Ártico chegou às oitavas de final da Liga dos Campeões da Uefa. Em seu blog, O’Sullivan explica de que forma o clube de futebol moldou seu ambiente, o que acabou impactando positivamente seu desempenho em campo.
“Um dos principais motivos para esse sucesso é a forte ênfase do clube em valores compartilhados, cultura e desenvolvimento de jogadores”, escreveu.
“O clube promove princípios como confiança, humildade, responsabilidade coletiva e melhoria contínua. Sob a liderança do treinador Kjetil Knutsen, o Bodo/Glimt desenvolveu um estilo de jogo distinto, caracterizado por uma forte ética de trabalho em equipe. Knutsen enfatizou um ambiente orientado para a aprendizagem, no qual os jogadores são incentivados a assumir responsabilidades, apoiar uns aos outros e buscar constantemente a melhoria.”
A Alemanha deixou de ser “durona”?
“No fim das contas, o motivo pelo qual a Alemanha não tem sucesso se resume à cultura, ao treinamento e ao desenvolvimento dos jovens”, disse Wormuth.
“O mais importante de tudo é a mentalidade, e isso mudou. Se você me perguntar como isso ocorreu, eu vou te dizer: sociedade. Escola. Educação. Pais. Cultura. As coisas mudaram. Quando [a seleção do] Equador pressiona de verdade a Alemanha, embora ainda de forma justa, e não conseguimos nos manter no jogo, então é uma questão cultural. Eles têm uma cultura de sobrevivência completamente diferente da nossa. É por isso que digo que é isso que nos falta. Não se trata de desenvolvimento de treinadores ou mesmo de treinamento nas categorias de base. Não, é a sociedade. E você não pode mudar isso da noite para o dia”, explicou.
“Desenvolvemos todos como os jogadores espanhóis, mas sem a mentalidade deles. É uma questão cultural. A sociedade sempre se reflete um pouco no futebol, ou vice-versa. Nos tornamos mais brandos em muitas situações sociais nos últimos anos.”
Essas avaliações são difíceis de quantificar, mas se a brandura for vista como uma pessoa, política ou objeto que perdeu sua força, firmeza ou disciplina originais, então seria justo dizer que o futebol alemão atualmente parece um exemplo disso.
Talvez a Alemanha possa se inspirar em um país próximo. O’Sullivan acredita que a importância do significado na oferta de instalações desempenhou um papel fundamental no sucesso da Noruega no esporte de elite.
Não basta investir em infraestrutura
“Um campo de futebol, ginásio poliesportivo, parque ou pista de esqui não gera participação simplesmente por existir, e a proximidade com as instalações não se traduz necessariamente em participação. Isso é o que poderia ser chamado de falácia espacial. Infelizmente, essa é uma suposição comum no planejamento, na saúde pública e nas políticas esportivas.”
Este ano, o governo alemão prometeu investir 333 milhões de euros (R$ 1,9 bilhão) na reforma de 314 instalações esportivas em todo o país, as deixando mais modernas e sustentáveis. Aqui, porém, é o ponto crucial da argumentação de O’Sullivan. Para ele, a modernização dessas instalações não pode ser vista como o único passo para criar uma conexão significativa dos jovens alemães com o esporte. Deve ser apenas o começo.
O mesmo vale para a esperada nomeação de Jürgen Klopp como o novo técnico da seleção masculina de futebol da Alemanha. O futebol alemão chegou a um momento decisivo. O que ele decidir fazer a seguir será lembrado por muitos anos.
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