Além de decidir uma vaga na semifinal da Copa do Mundo de 2026, o confronto de hoje entre Argentina e Suíça, em Kansas City, colocará frente a frente duas seleções acostumadas a se envolverem em questões políticas que extrapolam o âmbito das quatro linhas. Isto se reflete diretamente em alguns dos principais nomes em campo de ambas as seleções.
Na Suíça, por exemplo, ficou famoso o caso de Granit Xhaka, camisa 10 da seleção desde o Mundial de 2014 e confirmado como titular logo mais. Na edição de 2018, em partida contra a Sérvia, o meio-campista comemorou o gol que marcou na vitória por 2 a 1 com uma manifestação política em homenagem às suas origens. Com as mãos, imitou o símbolo da bandeira da Albânia, uma águia negra de duas cabeças.
O gesto foi visto como uma provocação à Sérvia. Desde 2008, o país trava uma luta contra a independência do Kosovo, que se separou do território sérvio de forma unilateral há 18 anos. A maioria da população da região tem origem albanesa. Xhaka, por sua vez, nasceu na Suíça, mas, além dos pais terem origem kosovar, o pai foi um preso político depois de participar de manifestações contra o governo da Sérvia.
De primeira, a ação espantou por contrastar com a identidade histórica de neutralidade por parte da Suíça. O país tem a tradição de não se envolver em questões internacionais complexas. Posteriormente, porém, os próprios torcedores suíços se engajaram nas redes sociais para levantar quantia equivalente aos 10 mil dólares definidos pela Fifa como multa para Xhaka e dois companheiros que repetiram a comemoração.
Já em 2022, a seleção suíça tentou repetir a dose com mais um protesto político durante a Copa do Mundo. Dessa vez, a ideia era usar, em movimento conjunto com outros países, a braçadeira de capitão com as cores do arco-íris e a inscrição “one love”. O objetivo era apoiar a causa LGBTQIA+, que segue criminalizada no Catar, sede daquela edição do Mundial.
— Discutimos isso com os jogadores. Estamos tristes por não podermos usar. Nosso capitão teria gostado de usá-lo. No entanto, as sanções esportivas garantiram que não pudéssemos expor nossos jogadores. Mas isso não muda o fato de que nosso capitão defenderia valores como a solidariedade – disse o chefe de imprensa suíço na época.
Os jogadores argentinos, por sua vez, têm mais costume de levantar bandeiras locais. É comum, por exemplo, ver atletas e torcedores cantarem músicas de apoio à seleção que lembram a Guerra das Malvinas, período em 1982 em que Argentina e Inglaterra disputaram o controle da ilha que fica a cerca de 480km da costa da Patagônia. O conflito durou 74 dias e terminou com as tropas argentinas rendidas e a manutenção do controle por parte da brigada britânica.
Em 2022, quando a Argentina conquistou o tri, a música “Muchachos”, que embalou o título, tinha referência à guerra. Já para o Mundial nos Estados Unidos, “La Cuarta Estrella” pede a conquista do tetra “para as Ilhas Malvinas, para Diego (Maradona) e para o último de Leo (Messi, que encerra sua carreira em Copas do Mundo nesta edição)”.
Um exemplo da força que permanece no entorno deste contexto político é a restrição da Fifa de que árbitros ingleses não apitem partidas da Argentina em Copas do Mundo. Entoadas pelos atletas no vestiário após as classificações contra Cabo Verde e Egito, as canções podem ter tons ainda mais emotivos em caso de um possível confronto entre a seleção sul-americana e a Inglaterra na semifinal.











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