Depois das dúvidas levantadas frente à República Democrática do Congo, a Seleção portuguesa deixou uma imagem substancialmente mais convincente. A goleada não apagou todas as interrogações, mas foi suficiente para transformar críticas em elogios e devolver Portugal ao grupo de equipas que a imprensa internacional continua a apontar como uma das mais talentosas deste Mundial. E, uma vez mais, Cristiano Ronaldo acabou por estar no centro da mudança de narrativa
Há apenas quatro dias, a imprensa internacional questionava se Cristiano Ronaldo ainda deveria ser titular de Portugal. Falava-se de um avançado “desorientado”, de uma Seleção presa à necessidade de o servir e até de uma equipa mergulhada na “depressão mais profunda” após o empate com a República Democrática do Congo. No entanto, Houston voltou a assistir a uma das histórias mais repetidas das últimas duas décadas. Sempre que surgem dúvidas, Cristiano Ronaldo responde da mesma forma: com golos.
No The Independent chegaram mesmo a apelidar Cristiano Ronaldo de estátua, diferenciando-o de 10 homens que estiveram em campo na estreia. Agora veio a resposta.
A goleada de Portugal frente ao Uzbequistão (5-0) não serviu apenas para colocar a Seleção nacional com um pé nos 16 avos de final. Serviu também para alterar radicalmente o discurso da imprensa internacional, que poucos dias antes questionava o papel do capitão português na equipa.
De Espanha a Inglaterra, passando por França, as manchetes desta terça-feira têm um denominador comum: Cristiano Ronaldo voltou a calar os críticos.
“Bicho até quando ele quiser”
Para o jornal espanhol AS, os dois golos marcados aos 41 anos representam muito mais do que uma exibição conseguida. São mais um capítulo de uma carreira construída sobre a capacidade de responder às dúvidas.
“Tudo o que lhe correu mal na carreira ou deu origem a piadas foi sempre imediatamente transformado no contrário. Ninguém fechou mais bocas no futebol do que Cristiano Ronaldo”, escreve o diário madrileno, que considera que, para o capitão português, “a pressão serve como gasolina contra o fogo”.
O AS diz ainda que Portugal foi “outra equipa” relativamente à estreia e considera que o Uzbequistão ofereceu espaços que a seleção soube “finalmente” aproveitar.
“Nada pode fazer melhor a este grupo do que abraçar-se ao caráter competitivo do seu líder”, acrescentam.
Se o AS optou pela admiração, o francês L’Équipe escolheu uma manchete carregada de ironia: “Não o devíamos ter incomodado”.
O jornal francês considera que Cristiano Ronaldo e Portugal “acertaram os relógios” depois do empate frente à RD Congo e destaca a facilidade com que a equipa de Roberto Martínez ultrapassou um adversário que praticamente nunca conseguiu discutir o resultado.
“Portugal esmagou o Uzbequistão”, resume o jornal, que fala num “grande passo” rumo aos 16 avos de final.
Para os franceses, a noite pertenceu naturalmente a Cristiano, autor de dois golos, mas também a uma equipa que apresentou uma versão muito mais convincente da mostrada na estreia.
“Cristiano não admite debates”
Ainda em Espanha, a Marca vê o jogo como uma resposta direta às dúvidas levantadas nos últimos dias.
“O ruído gerado em torno da figura de Cristiano Ronaldo desapareceu à força de golos”, escreve a publicação, acrescentando que o capitão português recordou aos críticos que continua a ser “o melhor recurso possível para o ataque de Portugal”.
“O tempo passa, mas o instinto mantém-se intacto”, resumem.
A publicação destaca igualmente a melhoria coletiva da equipa e sugere que os mais pessimistas poderão ter sido precipitados ao retirar Portugal da lista de candidatos ao título mundial.
Já o Sport interpreta a goleada sobretudo como uma libertação depois dos dias turbulentos que se seguiram ao empate frente à República Democrática do Congo.
“Ar para Portugal. Necessário depois de dias complicados”, escreve o jornal catalão, que considera que a seleção de Roberto Martínez deixou para trás os “fantasmas” da estreia.
O The Independent escreve que Ronaldo “silenciou os críticos do Mundial” e considera que Portugal respondeu de forma “enfática” às dúvidas levantadas após a exibição frente à RD Congo.
Para os ingleses, Portugal demonstrou porque continua a ser encarado como um dos conjuntos mais talentosos da competição. “Portugal respondeu de forma enfática às críticas que se seguiram a um arranque pouco convincente da campanha”, escrevem.
Não foi só Ronaldo
Apesar de o capitão português monopolizar grande parte das manchetes, a imprensa internacional encontrou outros protagonistas na exibição portuguesa.
A Marca colocou Bruno Fernandes entre os melhores jogadores em campo e destacou igualmente Vitinha pela influência na circulação de bola da seleção nacional.
Nuno Mendes também mereceu referências positivas depois do livre direto que resultou no segundo golo português, enquanto João Félix foi descrito pelo jornal espanhol como um jogador “reivindicativo”, que aproveitou a oportunidade para mostrar argumentos num ataque repleto de opções.
Já o AS prefere destacar a melhoria coletiva da equipa e considera que Portugal corrigiu vários dos problemas que tinha evidenciado frente à República Democrática do Congo, apresentando-se mais eficaz, mais agressivo e mais confortável com bola.
Apesar de destacar o bis de Cristiano Ronaldo e o recorde alcançado pelo capitão português, o Sport sublinha também o papel de Bruno Fernandes, Vitinha, João Cancelo e João Félix na melhoria da equipa portuguesa.
A publicação admite, contudo, que o Uzbequistão confirmou ser “uma das equipas mais fracas deste Mundial” e descreve a formação orientada por Fabio Cannavaro como “o adversário perfeito para a seleção voltar a ganhar confiança para o que aí vem no Mundial”.











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