Tal como uma seleção de futebol não pode viver indefinidamente do passado, Portugal não pode assentar excessivamente a sua economia no turismo e nos fundos europeus, escreve o economista Óscar Afonso.
- A eliminação da Seleção nacional no Campeonato do Mundo de Futebol pela Espanha expõe a falta de organização coletiva e liderança, refletindo um problema estrutural em Portugal.
- A gestão da Seleção, marcada pela dependência de Cristiano Ronaldo, revela a incapacidade das instituições em adaptar-se às necessidades do coletivo, prejudicando o desempenho da equipa.
- Se Portugal não promover reformas estruturais e uma renovação eficaz, tanto no futebol como na economia, continuará a perder oportunidades de sucesso e a ficar para trás em relação aos seus parceiros europeus.
A eliminação da Seleção nacional no Campeonato do Mundo de Futebol pela Espanha, que revelou uma qualidade de jogo coletivo incomparavelmente superior e manteve esse padrão até conquistar a prova, e a evolução recente da economia portuguesa parecem, à primeira vista, pertencer a universos distintos.
Contudo, ambas evidenciam um problema semelhante: A dificuldade em transformar talento individual e outros recursos disponíveis em resultados coletivos relevantes e duradouros. Não por falta de capacidade, mas porque, em Portugal, prevalece uma cultura de liderança que privilegia interesses predominantemente individuais e imediatos, evita decisões difíceis e adia as reformas necessárias para salvaguardar o interesse coletivo e preparar o futuro.
Terminado o Campeonato do Mundo de Futebol, importa refletir sobre esse paralelismo e outros associados.
Não foi por acaso que o Primeiro-ministro atribuiu um relevo político invulgar à participação da Seleção, deslocando-se propositadamente aos EUA, a expensas do Estado português, para assistir presencialmente a três jogos. Uma dedicação difícil de encontrar entre os líderes dos restantes países participantes, muitos deles mais desenvolvidos, com mais recursos e menos problemas por resolver, mas também dotados de sociedades mais exigentes quanto à transparência, à responsabilização dos governantes e ao uso rigoroso dos fundos públicos.
Nesses países, essas exigências funcionariam como um travão prévio. Dificilmente um Primeiro-ministro se atreveria sequer a adotar semelhante comportamento, sabendo de antemão os custos políticos que enfrentaria. No Portugal laxista, porém, mesmo depois de a operação ter corrido mal, Montenegro parece apostar na complacência dos portugueses e na rápida diluição da controvérsia.
O último desses jogos a que Montenegro assistiu, o da eliminação da Seleção, ocorreu, importa recordar, numa altura em que Portugal enfrentava uma vaga de calor extrema e incêndios de grande dimensão.
Confiando na complacência que caracteriza a vida pública portuguesa, Montenegro procurou associar-se ao entusiasmo que a Seleção desperta, esperando colher os dividendos políticos de uma eventual vitória. Mas quem se apropria politicamente dos sucessos deve também assumir os custos dos fracassos.
A estratégia subjacente não era nova. Confiando na complacência que caracteriza a vida pública portuguesa, Montenegro procurou associar-se ao entusiasmo que a Seleção desperta, esperando colher os dividendos políticos de uma eventual vitória. Mas quem se apropria politicamente dos sucessos deve também assumir os custos dos fracassos. Ao escolher expor-se dessa forma, acabou inevitavelmente associado a uma eliminação que revelou limitações na organização e na liderança da Seleção. Limitações às quais, infelizmente, o país também se habituou na governação, com o predomínio do curto prazo sobre a visão estratégica, dos interesses individuais e partidários sobre o interesse coletivo e da conveniência política sobre a meritocracia, a competência e a preparação do futuro.
Importa recordar que o Primeiro-ministro afirmara, antes do início da competição, que Portugal era um sério candidato à conquista do Mundial e que, já em solo norte-americano, reiterara uma “confiança inabalável” na vitória final, invocando a qualidade e o talento dos jogadores. Contudo, bastava um conhecimento elementar de futebol para perceber que os sinais evidenciados desde os primeiros jogos apontavam noutra direção. A Seleção revelava claras insuficiências de organização coletiva e um modelo de jogo incapaz de potenciar o talento individual, tornando pouco plausível uma campanha longa e, mais ainda, a conquista do título.
Uma parte relevante das limitações resulta da gestão, simultaneamente desportiva e mediática, de Cristiano Ronaldo por parte da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) e do selecionador que escolheu. Estamos perante um dos maiores jogadores da história do futebol e, provavelmente, o maior desportista português de todos os tempos. A sua carreira constitui um exemplo ímpar de mérito, disciplina, trabalho e superação. Um jovem oriundo de uma família humilde que, através do talento, mas sobretudo do esforço, da dedicação e de uma competitividade sem paralelo, alcançou o topo da modalidade mais competitiva do planeta. Por isso, representa uma referência extraordinária para milhões de crianças e jovens, demonstrando que o mérito e o trabalho podem vencer a adversidade.
Portugal deve-lhe uma gratidão que dificilmente poderá ser retribuída. Mas é precisamente por tudo o que representa que importa reconhecer que nem os maiores escapam ao tempo. Nenhum estatuto individual, por mais excecional que seja, pode prevalecer sobre aquilo que constitui a essência de qualquer equipa, a primazia do coletivo.
A utilização de Ronaldo durante praticamente todos os minutos da competição condicionou a gestão da equipa, limitou a renovação do onze e reduziu a margem do selecionador para adaptar o jogo às diferentes circunstâncias. O contraste com Messi, outro dos maiores jogadores da história do futebol, é elucidativo. Apesar de ser pouco mais novo que Ronaldo (39 e 41 anos, respetivamente), beneficiou de uma utilização muito mais criteriosa, preservando a sua influência positiva no rendimento coletivo da equipa, o que contribuiu para um desempenho bem superior da equipa da Argentina no Mundial, chegando à final e permitindo a Messi despedir-se dos Campeonatos do Mundo de forma muito mais consentânea com a dimensão da sua carreira.
O problema não reside, por isso, em Ronaldo. Reside na incapacidade das instituições e das lideranças para gerir adequadamente a fase final da carreira de um jogador absolutamente excecional. Roberto Martínez mostrou não conseguir fazê-lo, optando antes por um discurso cuidadosamente construído, frequentemente sustentado em estatísticas pouco esclarecedoras, algumas das quais nunca chegou sequer a divulgar, procurando justificar opções que os resultados acabaram por contrariar.
A eliminação acabou por suscitar críticas nacionais e internacionais não apenas ao rendimento coletivo da equipa, constituída por jogadores de inegável qualidade individual, mas também ao modelo de liderança adotado e à incapacidade de promover a renovação indispensável para manter Portugal entre os principais candidatos às grandes competições de forma sustentada.
Também na política estamos perante uma liderança que privilegia a gestão do imediato em detrimento da preparação do futuro. Por exemplo, o anúncio do fundo soberano, que analisei numa crónica anterior, ilustra essa lógica: procurar um efeito político imediato com uma proposta que suscita sérias dúvidas quanto à sua racionalidade económica, aos riscos para o erário público e até à sua própria concretização.
É precisamente neste ponto que o paralelismo com a governação do país se torna mais evidente. Também na política estamos perante uma liderança que privilegia a gestão do imediato em detrimento da preparação do futuro. Por exemplo, o anúncio do fundo soberano, que analisei numa crónica anterior, ilustra essa lógica: procurar um efeito político imediato com uma proposta que suscita sérias dúvidas quanto à sua racionalidade económica, aos riscos para o erário público e até à sua própria concretização.
Tal como na Seleção o discurso de Martínez destoa imenso dos jogos a que os adeptos assistiram, também o discurso governamental revela inconsistência, desde logo na economia. Portugal continua a crescer muito menos do que prometido no programa eleitoral da AD e o alegado “milagre económico português” desmoronou-se com a divulgação dos novos dados da população, que evidenciaram o logro da suposta convergência do nível de vida português com a União Europeia (UE) no período mais recente, abrangendo governo do PS e desta AD.
Como mostrei em crónicas anteriores e venho alertando há pelo menos um ano, face aos dados revistos da população, Portugal ocupa hoje apenas a sexta pior posição da UE em rendimento por habitante ajustado ao poder de compra com a informação atualmente disponível, situação que a esperada revisão em alta do PIB pelo INE, em março de 2027, não deverá alterar significativamente.
O verdadeiro problema, tanto na Seleção como no país, não é a falta de talento. Portugal continua a produzir jogadores extraordinários, empresas competitivas, investigadores de excelência e profissionais altamente qualificados, mas cujo potencial não é suficientemente aproveitado pelo país, faltando ainda a capacidade de ampliar essa base de talento.
O problema central reside antes na degradação da qualidade das instituições e, consequentemente, das lideranças; em particular, na dificuldade:
(i) colocar o interesse coletivo acima dos interesses de poucos e das conveniências do momento,
(ii) preparar o futuro em vez de gerir apenas o presente,
(iii) transformar talento e potencial em resultados duradouros.
Se a Seleção não promover atempadamente a renovação de que necessita, dificilmente chegará ao Mundial de 2030, que Portugal co-organizará a par com Espanha e Marrocos, em condições efetivas para alcançar as fases mais avançadas da competição e ambicionar a conquista do título.
Se o país continuar a adiar as verdadeiras reformas estruturais indispensáveis, aquelas que melhoram de forma duradoura o funcionamento das instituições e da economia, e não meras mudanças cosméticas ou digitalizações que substituem processos eficientes por outros menos eficazes, continuará a perder terreno relativamente aos seus parceiros europeus, perpetuando um status quo que favorece quem nele encontrou o seu espaço em detrimento do interesse coletivo e do futuro do país.
Do mesmo modo, se o país continuar a adiar as verdadeiras reformas estruturais indispensáveis, aquelas que melhoram de forma duradoura o funcionamento das instituições e da economia, e não meras mudanças cosméticas ou digitalizações que substituem processos eficientes por outros menos eficazes, continuará a perder terreno relativamente aos seus parceiros europeus, perpetuando um status quo que favorece quem nele encontrou o seu espaço em detrimento do interesse coletivo e do futuro do país.
Enquanto persistirmos nesta cultura de gestão de curto prazo, continuaremos a celebrar pequenos sucessos como se fossem grandes vitórias, adiando decisões essenciais e comprometendo o futuro. Talvez seja precisamente esse o maior paralelo entre o exemplo concreto da Seleção de futebol e a política.
Em ambos os casos, o slogan “Vai dar Portugal” corre o risco de permanecer apenas uma declaração de intenções se nada mudar. Só com uma gestão capaz e transparente, seguindo uma estratégia clara que permita atingir objetivos ambiciosos a médio e longo prazo, é que poderá ‘dar’, efetivamente, Portugal.
Na Seleção foi escolhido, entretanto, um novo responsável, Jorge Jesus, que promete uma gestão muito diferente, incluindo de Ronaldo, para obter uma maior qualidade de jogo coletivo, com uma identidade clara. Se assim for, a Seleção estará mais perto de atingir títulos relevantes, mas só na prática se verá.
Quanto ao Governo desta AD, já com mais de dois anos, as promessas de reformas ou não saíram do papel, ou as medidas pioraram os resultados no imediato sem se anteverem benefícios a prazo, aspetos pouco debatidos no recente debate do Estado da Nação, que não me esclareceu sobre “As 48 perguntas a que o Governo deveria responder”, colocadas na crónica anterior, nem explicou as razões pelas quais a maioria dos portugueses sente que o país está pior numa sondagem recente.
O primeiro-ministro, Luís Montenegro (C), à chegada para o debate sobre o Estado da Nação, na Assembleia da República, em Lisboa, 16 de julho de 2026.
ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA
Veremos se o Governo ainda vai a tempo de ‘emendar a mão’ ou se, pelo contrário, confirmamos, como diz o povo, que “aquilo que nasce torto, tarde ou nunca se endireita”. Infelizmente, os sinais apontam mais para a segunda hipótese.
O mais irónico é que Montenegro, na sua mensagem de Natal de 2025, apelou a que os portugueses abandonassem a postura conformista do “deixa andar” e adquirissem uma “mentalidade Cristiano Ronaldo” de superação constante rumo à vitória. A ideia era fazer um paralelo com a distinção de Portugal como economia do ano pela revista The Economist, revelando uma alegada “solidez económica” assente “num modelo de salários mais altos” decorrente da “coragem reformista” do Governo. Essa narrativa caiu por terra após os dados revistos da população apontarem antes para que o país esteja perto da cauda da UE em nível de vida. Ou seja, “assim prega Frei Tomás, faz o que ele diz, não faças o que ele faz”.
Já nessa altura escrevi, numa crónica anterior, que “Crescer exige instituições fortes, não discursos motivacionais”, pois “a inspiração de que Portugal precisa não é a da exceção individual, por mais admirável que seja, mas a da construção coletiva de um rumo claro, exigente e mobilizador”, ideia que reitero nesta crónica. Se queremos uma sociedade mais próspera e desenvolvida, temos de exigir muito mais do nosso Governo.
Uma breve análise objetiva do mau desempenho da Seleção no Campeonato Mundial de futebol, por falta de coletivo e ideia de jogo: o talento não basta quando não há capacidade para o gerir bem
Antes de analisar o percurso da Seleção nacional neste Campeonato do Mundo, importa recordar um aspeto institucional que ajuda a compreender o desfecho da competição.
Quando o atual presidente da Federação, Pedro Proença, tomou posse, decidiu manter Martínez como selecionador, apesar de, como salientou, não ter sido a sua escolha. No entanto, ao fazê-lo, tornou-o também sua responsabilidade. Não há espaço para ‘sacudir a água do capote’. Quem confirma uma decisão alheia faz dela uma decisão própria e essa decisão revelou-se determinante.
Quando o atual presidente da Federação, Pedro Proença, tomou posse, decidiu manter Martínez como selecionador, apesar de, como salientou, não ter sido a sua escolha. No entanto, ao fazê-lo, tornou-o também sua responsabilidade. Não há espaço para ‘sacudir a água do capote’. Quem confirma uma decisão alheia faz dela uma decisão própria e essa decisão revelou-se determinante.
A conquista da Liga das Nações em 2025, que terá estado na base da decisão de Proença de manter Martínez, acabou por adiar um problema que já era visível: a Seleção nacional revelava enormes dificuldades na construção de um coletivo e de uma identidade de jogo, tendo vencido a competição com alguma sorte. Martínez entrou, por isso, no Mundial como um selecionador a prazo, como se veio a confirmar, situação que dificilmente favorecia a afirmação de uma liderança forte.
É certo que a vitória na Liga das Nações de 2025 foi motivo de enorme satisfação para os portugueses. Mas importa relevar que se trata de uma competição bem menos exigente do que um Campeonato da Europa e, sobretudo, um Campeonato do Mundo, o maior expoente do futebol de seleções.
Mais importante ainda, essa vitória não dissipou as dúvidas sobre a qualidade do futebol praticado. A maioria dos comentadores e especialistas reconhecia que Portugal continuava a jogar muito abaixo do potencial do seu plantel. A final foi vencida apenas nas grandes penalidades frente à Espanha, precisamente a Seleção que agora nos eliminou, e voltou a evidenciar uma realidade que se tornaria ainda mais clara neste Mundial: Portugal sobrevivia graças ao talento individual dos seus jogadores.
Tal pode bastar para vencer pontualmente uma competição, mas não para conquistar regularmente grandes títulos, o que exige algo bem mais difícil de conseguir: qualidade de jogo coletivo, assente numa boa organização da equipa em torno de uma ideia de jogo clara, capaz de conferir uma identidade própria e eficaz. É isso que ajuda a explicar o sucesso da Seleção espanhola. A mesma matriz de jogo acompanha os jogadores desde as seleções jovens até à Seleção A, assegurando uma continuidade de princípios e de processos. Não surpreende, assim, que o atual selecionador espanhol tenha origem nas seleções jovens.
Em Portugal verifica-se o inverso. As seleções jovens apresentam, há vários anos, uma identidade de jogo consistente, mas essa cultura futebolística perde-se na transição para a Seleção A.
Ganhar e perder, ultrapassar ou não uma eliminatória, são resultados possíveis que devem ser sempre encarados com desportivismo. Só que no desporto, como na vida, devemos aprender com os erros para no futuro fazer melhor e aumentar as probabilidades de vencer, nunca tomando nada por adquirido e procurando sempre alcançar o sucesso com mérito, sem expedientes, que é como sabe melhor. Ora a gestão de Martínez falhou precisamente aí.
Numa perspetiva pedagógica, sublinho que ganhar e perder, ultrapassar ou não uma eliminatória, são resultados possíveis que devem ser sempre encarados com desportivismo. Só que no desporto, como na vida, devemos aprender com os erros para no futuro fazer melhor e aumentar as probabilidades de vencer, nunca tomando nada por adquirido e procurando sempre alcançar o sucesso com mérito, sem expedientes, que é como sabe melhor. Ora a gestão de Martínez falhou precisamente aí. Não só não aprendeu com os erros, mas tomou por adquirido que bastaria o talento individual (e alguma sorte) para ganhar uma competição exigente como um Campeonato do Mundo, como sucedera na Liga das Nações.
Segundo a maioria dos especialistas de futebol, no jogo em que foi eliminado deste Mundial de 2026, Portugal não era inferior à Espanha em qualidade individual, alguns sustentavam mesmo o contrário. A diferença residia no coletivo, cuja construção cabe ao selecionador, tal como a decisão de o manter no cargo cabe ao presidente da FPF. Há decisões que não se delegam nem se herdam, assumem-se.
Não surpreende, assim, que a identidade e consistência de jogo de Espanha lhe tenha permitido conquistar dois Campeonatos do Mundo (2010 e 2026) e dois Campeonatos da Europa (2008 e 2012) neste milénio, enquanto a Seleção A de Portugal continua a depender de momentos excecionais de inspiração individual, como sucedeu no Europeu de 2016, a única grande competição que venceu.
O percurso de Portugal neste Mundial, ilustrado na Tabela 1, confirmou precisamente esse diagnóstico. Sem qualidade de jogo coletivo, de forma consistente ao longo do tempo, as reais hipóteses de Portugal vencer o Mundial eram pequenas, à partida. Ainda se esperava que a qualidade de jogo pudesse melhorar durante a competição, mas mesmo isso dificilmente bastaria, porque a consistência já deveria vir de trás.
A Seleção portuguesa, que ocupava o 5º lugar do ranking da FIFA à entrada do Mundial, refletindo a referida vitória na Liga das Nações, iniciou a competição com um inesperado empate diante da República Democrática do Congo, 46ª classificada. Os sinais eram preocupantes, instalando-se nessa altura um grande pessimismo, pois, a jogar assim, Portugal nem sequer passaria da fase de grupos. A goleada seguinte frente ao Uzbequistão devolveu algum entusiasmo, mas dizia pouco sobre o verdadeiro valor competitivo da equipa, tratando-se de um adversário ainda mais modesto (50º no ranking FIFA).
Foi então que regressou o discurso triunfalista. Pedro Proença voltou a insistir no slogan “Vai dar Portugal” e rapidamente se instalou uma onda de entusiasmo amplificada pelos meios de comunicação social. Trata-se de uma característica muito portuguesa: passamos facilmente do pessimismo absoluto ao entusiasmo desmedido, do “8 ao 80”, raramente preservando a objetividade necessária para avaliar a realidade.
O jogo seguinte devolveu essa realidade. Portugal só não perdeu com a Colômbia graças às extraordinárias intervenções do guarda-redes português Diogo Costa e a alguma felicidade, beneficiando inclusivamente de um golo adversário anulado por escassos centímetros em fora de jogo. A Colômbia, apenas 13ª do ranking FIFA e posteriormente eliminada pela Suíça, dominou grande parte do encontro. Tornava-se evidente que Portugal teria enormes dificuldades perante seleções verdadeiramente candidatas ao título.
Esse resultado significava ainda que Portugal ficava em 2º lugar da fase de Grupos, abaixo da Colômbia, e teria, pelo menos em teoria, de enfrentar seleções mais competitivas logo a seguir, algo que Martínez desvalorizou, considerando que tal teria de ocorrer em algum momento. Esta postura revela falta de ambição de Martínez, pois não apenas Portugal terminava essa fase abaixo de uma seleção teoricamente inferior, como é possível que Portugal tivesse conseguido avançar um pouco mais na competição se tivesse terminado em primeiro no Grupo.
O apuramento frente à Croácia (11º no ranking à entrada no Mundial) foi conseguido com alguma fortuna. Apesar de uma primeira parte mais conseguida, a Seleção sofreu bastante após o intervalo. Novamente, Diogo Costa revelou-se decisivo e a sorte voltou a sorrir a Portugal. O golo da vitória surgiu apenas depois da entrada do avançado centro suplente Gonçalo Ramos, que acabaria por marcar poucos minutos depois.
Seria natural esperar que o bom desempenho de Ramos fosse recompensado com minutos de jogo no encontro seguinte frente à Espanha, mas tal não aconteceu. Portugal conseguiu equilibrar parcialmente a primeira parte, mas nunca controlou verdadeiramente o encontro. Após o intervalo, a superioridade coletiva da Espanha tornou-se bastante mais evidente. A pressão portuguesa desapareceu, vários jogadores acusavam desgaste físico e Diogo Costa voltou a impedir uma derrota mais pesada.
Também as substituições evidenciaram falta de critério estratégico. Martínez esgotou as cinco alterações regulamentares, mas a prestação da equipa, em vez de melhorar, acabou por piorar, ao retirar jogadores com bom desempenho e manter outros em sub-rendimento. Tudo indicava que o objetivo era conservar o empate e empurrar a decisão para prolongamento, uma estratégia excessivamente conservadora.
Enquanto Martínez procurava conservar o empate, o Selecionador de Espanha procurava vencer o jogo no tempo regulamentar, revelando uma maior ambição que foi decisiva para eliminar Portugal. Os dois avançados lançados por Espanha perto do final construíram precisamente a jogada que originou o golo decisivo, expondo as fragilidades coletivas da defesa portuguesa.
Nos minutos finais, Portugal ainda reagiu, mas de forma pouco organizada. Os dois principais lances de perigo surgiram através de cruzamentos para serem cabeceados pelos dois jogadores mais baixos em campo. Gonçalo Ramos, provavelmente o melhor cabeceador da Seleção, permanecia no banco porque Martínez já tinha esgotado todas as substituições.
A eliminação acabou por confirmar aquilo que o torneio vinha sucessivamente revelando. Portugal possuía uma das seleções com maior talento individual, mas não uma verdadeira equipa. Faltou um coletivo, uma identidade de jogo e uma liderança capaz de transformar o enorme talento individual num coletivo forte com rendimento consistente.
Tabela 1. Jogos da Seleção A de Portugal no Mundial de Futebol de 2026: resultados e rankings dos adversários a 11 de junho

Fonte: FIFA (Last official ranking from June 11, FIFA World Cup 2026 fixtures and results). Nota: Portugal ocupava o 5º lugar do ranking da FIFA a 11 de junho de 2026, dia de início do Mundial.
As declarações de Martínez no final do jogo confirmaram que estava a prazo quando se iniciou a competição, ao afirmar que o seu contrato terminara e aquele tinha sido o último jogo por Portugal. Não sem antes fazer um balanço globalmente positivo do Mundial e do seu mandato, justificando-se com estatísticas de vitórias e golos marcados, e atribuindo a eliminação frente à Espanha a “detalhes” e à falta de sorte. Como sempre, Martínez viu um jogo totalmente diferente de toda a gente e considerou que a Seleção jogou muito bem, procurando desviar a atenção das insuficiências evidentes: falta de ambição e reduzida qualidade do futebol coletivo praticado, devido à ausência de uma ideia de jogo clara.
Depois de não ter conseguido conquistar qualquer título com uma das melhores gerações da história do futebol belga, Martínez desperdiçou também uma das melhores gerações do futebol português, ao não conseguir sequer chegar às meias finais nas duas principais competições em que esteve à frente da equipa, eliminada nos quartos de final no Europeu de 2024 e nos oitavos de final neste Mundial, demonstrando uma manifesta incapacidade para maximizar o potencial desse talento. Uma Liga das Nações é um resultado muito insuficiente para a qualidade do atual lote de jogadores, que poderá ser difícil de repetir.
Importa reconhecer, contudo, que Martínez é claramente um cavalheiro e um diplomata, tendo sempre respondido de forma cordata às perguntas dos jornalistas, por mais incómodas que fossem. O problema é que parece mesmo ter acreditado no seu discurso tranquilizador, impedindo-o de reconhecer e ultrapassar com frontalidade os problemas de jogo da Seleção.
No final, tornou-se igualmente evidente que a convivência institucional entre Martínez e Pedro Proença estava longe de ser pacífica. O contraste entre a prudência do selecionador e o otimismo quase triunfalista do slogan “Vai dar Portugal” revelava uma dissonância crescente que apenas foi sendo (mal) disfarçada perante a opinião pública para ‘manter as aparências’ de um bom relacionamento institucional.
O verdadeiro erro de Pedro Proença ocorreu logo no início do mandato. Se entendia que a Seleção precisava de um novo rumo, deveria tê-lo iniciado com a escolha do seu selecionador. Preferiu manter a solução existente e adiar a decisão. O desaire no Mundial tornou inevitável a conclusão de que a principal responsabilidade política dessa opção lhe pertence.
O “caso Ronaldo”: quando uma instituição deixa de conseguir gerir o seu maior ativo
A conferência de imprensa de Martínez após a eliminação frente à Espanha acabou por ilustrar um dos principais problemas da Seleção. Questionado sobre a utilização praticamente permanente de Ronaldo, que, aos 41 anos, voltou a jogar quase todos os minutos da competição, o selecionador respondeu, uma vez mais, recorrendo a estatísticas sobre a condição física do jogador e ao argumento de que continua a ser o melhor marcador da Seleção Nacional.
Nenhum destes argumentos responde verdadeiramente à questão essencial.
A capacidade física de um avançado não se mede apenas pela aptidão para sprintar ou finalizar. No futebol moderno mede-se também pela intensidade da pressão, pela recuperação defensiva, pela distância percorrida e pela capacidade para permitir que a equipa defenda mais subida e recupere a bola em zonas adiantadas, aproximando-se da baliza adversária. Estes indicadores influenciam hoje profundamente o rendimento coletivo e nunca foram mencionados por Martínez.
Ronaldo continua a ser um exemplo extraordinário de profissionalismo e de preservação física. Muito poucos atletas conseguiram manter-se ao mais alto nível durante tanto tempo. O seu percurso é irrepetível e constitui o maior exemplo português de mérito, disciplina, trabalho e superação. Mas a idade impõe limites inevitáveis, mesmo aos maiores. Para continuar a competir ao mais alto nível, gere hoje naturalmente o esforço, concentrando a sua energia nos momentos ofensivos em que pode ser mais decisivo. O problema surge quando a equipa não adapta a sua forma de jogar a essa realidade.
O problema nunca foi Ronaldo. Continua a ser um ativo extraordinário da Seleção Nacional, bem como do país, tratando-se do português mais famoso a nível mundial, e permanecerá, muito provavelmente, o maior futebolista português de todos os tempos. O verdadeiro problema foi a incapacidade da estrutura da Seleção para gerir, com lucidez e coragem, a fase da carreira de um jogador excecional.
É precisamente aqui que começa o verdadeiro debate. O problema nunca foi Ronaldo. Continua a ser um ativo extraordinário da Seleção Nacional, bem como do país, tratando-se do português mais famoso a nível mundial, e permanecerá, muito provavelmente, o maior futebolista português de todos os tempos. O verdadeiro problema foi a incapacidade da estrutura da Seleção para gerir, com lucidez e coragem, a fase da carreira de um jogador excecional. Essa responsabilidade não pertence ao atleta, mas a quem decide.
Martínez justificou a titularidade permanente de Ronaldo com o facto de este continuar a ser o melhor marcador da Seleção. O argumento, porém, é circular. Seria surpreendente que o avançado que jogou de forma sistemática não fosse também o principal marcador da equipa. O que verdadeiramente ficou, pois, demonstrado foi a ausência de uma estratégia para preparar, de forma gradual e inteligente, a sucessão de um jogador que, sendo único, também é humano.
Essa inaptidão tornou-se ainda mais evidente na conferência de imprensa após o jogo com a Espanha. Martínez revelou que Gonçalo Ramos apenas entraria no prolongamento, aproveitando a substituição adicional permitida nessa fase. A declaração expôs uma opção estratégica difícil de compreender.
Em vez de procurar vencer o jogo nos noventa minutos, tornava-se claro que privilegiou a possibilidade de decidir a eliminatória nas grandes penalidades, até porque Martínez tende a ser também conservador nos prolongamentos, apostando nas capacidades do guarda-redes nacional e dos marcadores de penalidades e, claro, na sorte, procurando repetir a fórmula com que conquistara a Liga das Nações.
Foi uma decisão de quem procurava não perder, não de quem queria ganhar, revelando uma falta de ambição sem correspondência na qualidade dos jogadores portugueses que Martínez tanto gabava. No fundo, uma confissão implícita da incapacidade de transformar esse talento num jogo coletivo vencedor.
epa11402718 Cristiano Ronaldo of Portugal attends a training session in Oeiras, Portugal, 10 June 2024. Portugal will play a friendly match against Ireland on 11 June in preparation for the upcoming Euro 2024 held in Germany. EPA/ANTONIO COTRIM
EPA/ANTONIO COTRIM
Ninguém derrota o tempo, nem mesmo os maiores. O papel do selecionador consiste precisamente em adaptar a equipa às diferentes fases da carreira dos seus jogadores e maximizar aquilo que cada um ainda pode oferecer. No caso de Ronaldo, isso significaria utilizá-lo de forma mais criteriosa, preservando a sua ainda impressionante capacidade para marcar golos na área adversária e tornando-o, porventura, ainda mais decisivo na última meia hora dos encontros, perante adversários já desgastados.
O erro, por isso, não foi de Ronaldo. Foi de quem confundiu respeito pela sua dimensão histórica com incapacidade para tomar as decisões que o interesse coletivo exigia. Essa responsabilidade pertence, pois, ao selecionador e, em última instância, ao presidente da Federação, que decidiu mantê-lo no cargo e validou essa gestão.
O contraste com a Argentina, anterior detentora do troféu, é elucidativo. Também Messi já não possui a disponibilidade física de há alguns anos, mas voltou a ser decisivo neste Mundial ao sagrar-se o segundo melhor marcador da prova, com oito golos e quatro assistências. A diferença reside na forma como a Seleção argentina adaptou o seu modelo coletivo a essa realidade e na gestão do tempo de jogo da sua principal estrela.
Ao contrário de Ronaldo, que jogou todos os minutos da fase de grupos, Messi foi poupado para estar mais fresco nas eliminatórias. Ambos poupam energias para momentos de aceleração e decisão na zona de finalização, contudo, o modelo argentino foi mais bem desenhado para maximizar o rendimento do seu capitão face às suas características atuais. Messi continua a ser um jogador híbrido, que tanto assiste como finaliza, enquanto Ronaldo é, hoje, essencialmente um homem de área. Esta adaptação permitiu à Argentina chegar à final, ainda que com limitações, acabando por ser superada por uma seleção espanhola com um coletivo muito mais forte e menos dependente das suas individualidades.
Em Portugal, a gestão da Seleção parece, assim, ter estado condicionada pela manutenção de Ronaldo em campo durante praticamente todos os minutos. É difícil acreditar que uma decisão desta dimensão fosse exclusivamente técnica.
Ronaldo é um fenómeno global cujo impacto desportivo, mediático e económico transcende o futebol e não tem paralelo na história do país. Milhões de pessoas em todo o mundo acompanham a Seleção sobretudo para o ver jogar, enchendo estádios, aumentando audiências e potenciando receitas comerciais muito relevantes para a FPF.
É legítimo que um atleta da dimensão de Ronaldo queira continuar a competir, marcar golos e bater recordes. O que já é mais difícil de compreender é que a FPF pareça ter privilegiado os benefícios mediáticos e económicos de curto prazo associados à sua permanência em campo, adiando uma transição que, mais cedo ou mais tarde, é inevitável.
É legítimo que um atleta da dimensão de Ronaldo queira continuar a competir, marcar golos e bater recordes. O que já é mais difícil de compreender é que a FPF pareça ter privilegiado os benefícios mediáticos e económicos de curto prazo associados à sua permanência em campo, adiando uma transição que, mais cedo ou mais tarde, é inevitável.
O problema deixa, assim, de ser desportivo para passar a ser institucional. Uma federação não pode permitir que o peso mediático, económico ou simbólico de qualquer atleta, por maior que seja, se sobreponha ao interesse coletivo, nem permitir que o imediatismo prevaleça sobre a construção sustentada de uma equipa mais forte. Quando isso acontece, perde-se a visão estratégica e adiam-se decisões que acabam inevitavelmente por se impor.
Paradoxalmente, essa dependência acaba por prejudicar todos. A equipa, porque perde qualidade coletiva. O selecionador, porque vê reduzida a sua margem de decisão. A FPF, porque sacrifica o futuro em troca de benefícios imediatos. Ronaldo, porque corre o risco de terminar a carreira associado mais às limitações naturais da idade do que ao legado absolutamente extraordinário que construiu.
Fernando Santos demonstrou, no Mundial de 2022, que existia uma alternativa. Ao retirar Ronaldo da equipa titular frente à Suíça e lançar Gonçalo Ramos, viu este responder com três golos numa das melhores exibições de Portugal nessa competição. Ronaldo entrou apenas a cerca de vinte minutos do fim e chegou mesmo a marcar, embora o golo tenha sido anulado por fora de jogo. Apesar da eliminação no jogo seguinte, essa decisão mostrou que era possível iniciar uma renovação gradual sem deixar de respeitar a dimensão histórica do capitão.
Martínez preferiu o caminho inverso. A consequência foi a Seleção ficar muito dependente de um jogador que, apesar da sua grandeza, já não responde durante noventa minutos às exigências do futebol moderno.
A melhor forma de preservar o legado de Ronaldo será gerir a sua utilização de forma mais criteriosa, colocando a sua experiência e capacidade de finalização ao serviço de uma equipa mais forte e mais competitiva. Foi nesse sentido que Jorge Jesus, o novo selecionador nacional, entretanto se pronunciou sobre a continuidade de Ronaldo na Seleção, mas retornarei abaixo às suas declarações a esse respeito.
No fundo, esta nunca foi uma história sobre Ronaldo, mas sim uma história sobre liderança. Os maiores atletas também envelhecem. A diferença entre instituições de maior e menor qualidade mede-se pela capacidade de gerir esse momento com coragem, inteligência e sentido do interesse coletivo.
A Seleção A de Portugal falhou precisamente aí, em quem a dirige. Não por causa de Ronaldo, mas por causa de quem tinha a responsabilidade de decidir e preferiu privilegiar os ganhos imediatos em vez da construção de uma seleção mais forte para o futuro.
O preço do curto prazo: a dependência financeira de Ronaldo e o futuro da Seleção
Entro agora na parte mais económica da análise, pois estamos perante um problema institucional que, a meu ver, se reflete numa gestão deficiente da Seleção, na deterioração da sua imagem internacional e na frustração dos portugueses perante o desperdício de uma das mais talentosas gerações de futebolistas.
Gostaria que os portugueses manifestassem a mesma exigência relativamente ao desempenho da economia, fazendo escolhas eleitorais mais informadas. Voltarei a esse paralelo mais à frente.
A dependência que a FPF terá criado relativamente ao valor mediático e comercial de Ronaldo pode ajudar a explicar a dificuldade em subordinar a sua utilização ao interesse coletivo da Seleção e em preparar a transição para o período posterior à sua saída com a antecedência necessária.
A dependência que a FPF terá criado relativamente ao valor mediático e comercial de Ronaldo pode ajudar a explicar a dificuldade em subordinar a sua utilização ao interesse coletivo da Seleção e em preparar a transição para o período posterior à sua saída com a antecedência necessária. Essa dependência merece ser analisada com particular atenção, desde logo porque a FPF é uma entidade com estatuto de utilidade pública. Embora seja financiada sobretudo por receitas próprias e apresente uma situação de clara autonomia financeira, beneficia também, direta ou indiretamente, de recursos de origem pública.
A FPF recebe, designadamente, uma parcela do Imposto Especial de Jogo Online, associada às receitas geradas pelas apostas realizadas sobre competições de futebol. Beneficia ainda, embora em montantes de menor expressão, de contratos-programa celebrados com o Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ) para o desenvolvimento de projetos específicos de interesse público, nomeadamente nas áreas do desporto adaptado, da inclusão social e do futebol feminino.
Estes apoios devem, contudo, ser colocados em perspetiva. O orçamento da FPF ultrapassou, na presente época, os 160 milhões de euros e é financiado maioritariamente por receitas próprias. A Federação é, portanto, uma instituição financeiramente autossustentável e pode até constituir um contribuinte líquido para o Estado, considerando os impostos gerados pela sua atividade.
Segundo especialistas em marketing desportivo, o enorme impacto comercial de Ronaldo no orçamento da FPF manifesta-se nos patrocínios de marcas globais, na venda de equipamentos, nos direitos de transmissão, na bilheteira e na projeção internacional da própria Seleção. Muitas pessoas acompanham os jogos, compram camisolas ou deslocam-se aos estádios pela possibilidade de ver um dos maiores jogadores da história do futebol.
Esse fenómeno produz um valor económico extraordinário, mas cria igualmente um risco. Quando Ronaldo abandonar definitivamente a Seleção, a FPF poderá enfrentar uma quebra relevante das receitas comerciais e da atenção internacional de que atualmente beneficia.
A instituição deveria, também por isso, estar já a preparar essa transição, reduzindo progressivamente a dependência de um único atleta e procurando construir o principal ativo que permanecerá depois dele: uma seleção competitiva, com identidade própria e capaz de alcançar bons resultados desportivos de forma consistente.
Se a Seleção nacional alcançar desempenhos importantes nas grandes competições, chegando às fases mais avançadas, a FPF conseguirá receitas expressivas provenientes da UEFA e da FIFA, ao mesmo tempo que valoriza os direitos comerciais e mantém o interesse dos adeptos. Esse deverá tornar-se o principal modelo de geração de receitas próprias da FPF quando Ronaldo deixar de representar a Seleção.
Se a Seleção nacional alcançar desempenhos importantes nas grandes competições, chegando às fases mais avançadas, a FPF conseguirá receitas expressivas provenientes da UEFA e da FIFA, ao mesmo tempo que valoriza os direitos comerciais e mantém o interesse dos adeptos. Esse deverá tornar-se o principal modelo de geração de receitas próprias da FPF quando Ronaldo deixar de representar a Seleção. Ou seja, a construção de um coletivo forte é simultaneamente uma exigência desportiva e uma estratégia economicamente mais racional que deve ser promovida o quanto antes para assegurar a sustentabilidade financeira da FPF no período pós-Ronaldo.
Para que não haja dúvidas, a eliminação nos oitavos de final penalizará em vários milhões de euros as contas da FPF, que tinha orçamentado uma receita mais alta, contando que a Seleção chegasse mais longe na competição.
A preparação desse futuro deveria ter começado de forma mais clara neste Mundial. Sendo um dos países organizadores do Campeonato do Mundo de 2030, Portugal deve aspirar a apresentar-se nessa competição como candidato ao título. Para isso, seria necessário iniciar desde já a renovação da equipa, consolidar novos protagonistas e construir um modelo de jogo menos dependente de um jogador.
Não foi isso que aconteceu. Apesar de alguns jovens já terem sido utilizados em competições anteriores, não houve neste Mundial uma aposta suficientemente consistente na geração que deverá assumir a liderança da Seleção nos próximos anos. Também não se verificou uma gestão do tempo de jogo de Ronaldo que permitisse conciliar a sua enorme importância com a afirmação gradual de outras soluções.
A impressão que fica é, portanto, desconfortável. Para preservar no curto prazo o retorno mediático e financeiro associado a Ronaldo, e permitir-lhe continuar a perseguir marcas individuais, poderá ter-se sacrificado parte da qualidade coletiva da equipa e adiado a preparação do futuro. É precisamente aqui que o paralelismo com a governação económica se torna mais evidente.
Também na política se têm privilegiado os benefícios eleitorais ou financeiros imediatos, adiando as verdadeiras reformas estruturais, aquelas que alteram de forma profunda e duradoura o funcionamento das instituições e da economia, aumentando a sua eficiência, competitividade e sustentabilidade. Em contrapartida, apresentam-se frequentemente como “reformas” mudanças administrativas ou tecnológicas, como digitalizar processos que já funcionavam bem, substituindo-os por soluções digitais menos eficientes. Isso não constitui uma reforma estrutural. É apenas mudar o instrumento sem melhorar o resultado, é evitar a transformação de que o país necessita.
A escolha de Jesus para suceder a Martínez poderá representar uma oportunidade para alterar este padrão. Jesus promete uma gestão diferente, incluindo uma utilização de Ronaldo mais em linha com o que considera ser o interesse da Seleção, isto caso o atual capitão possa e pretenda continuar a representar o país, visando uma maior qualidade de jogo coletivo, com uma identidade clara, precisamente algumas das qualidades que faltaram durante o anterior ciclo. Se assim for, e há vários especialistas que mostram algum otimismo, a Seleção estará mais perto de atingir títulos relevantes.
Contudo, será preciso confirmar, na prática, se os resultados melhoram e se a utilização de Ronaldo será feita de modo a não prejudicar a preparação de um futuro sem a sua presença, permitindo maximizar as hipóteses de Portugal vencer as três próximas competições, conforme prometido por Jesus: Liga das Nações de 2027, Campeonato da Europa de 2028 e, em particular, o Campeonato do Mundo de 2030.
O novo treinador do futebol português, Jorge Jesus (E), e o presidente da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), Pedro Proença (D), posam a segurar uma camisola de Portugal durante a apresentação depois de terem assinado contrato até 2030, na Cidade de Futebol, em Oeiras, Portugal, a 10 de julho de 2026. Jorge Jesus, de 71 anos, sucede ao espanhol Roberto Martinez.
MANUEL DE ALMEIDA/LUSA
A principal incógnita reside na sua capacidade para gerir Ronaldo com sucesso, como o fez na última época ao serviço do clube saudita onde ainda joga, o Al Nassr, em que ganharam juntos o campeonato. Ronaldo não jogou todos os jogos e foi substituído 16 vezes, salientou Jesus, procurando mostrar que não terá problemas nessa gestão. Só que esta acaba por ser mais fácil ao longo de uma época e em competições longas. Pelo contrário, as fases finais das competições de seleções são provas curtas, de exigência crescente após uma época desgastante, o que poderá requerer colocá-lo a jogar apenas parte do tempo em prol do coletivo. Essa é a real questão, ainda por responder.
Acresce que, quando assumiu o comando do Al Nassr, Jesus e a sua equipa técnica terão delineado uma estratégia destinada a poupar Ronaldo em parte dos jogos e a gerir cuidadosamente os seus minutos, tendo em conta a idade do jogador. Na prática, porém, essa redução terá sido muito menor, tendo Ronaldo continuado a ser utilizado durante a maior parte do tempo de jogo dos encontros em que participou, em particular nos mais importantes, nas fases decisivas das competições.
Ronaldo já anunciou que este terá sido o seu último Mundial, uma decisão natural, considerando que teria 45 anos em 2030. Não excluiu, porém, nesta altura, continuar a representar Portugal na Liga das Nações ou no Campeonato da Europa de 2028.
Se a sua participação se limitar à próxima Liga das Nações, será provavelmente possível compatibilizar a continuidade do capitão com a renovação da equipa. A situação tornar-se-á mais complexa se pretender prolongar a carreira internacional até ao Campeonato da Europa de 2028, o que significaria voltar atrás com o que tinha dito após o Europeu de 2024, pois na altura indicou ter sido o último da sua carreira. E, embora pareça altamente improvável, a experiência aconselha prudência antes de excluir completamente uma eventual ambição de participar no Mundial de 2030.
Jesus afirmou que será o próprio Ronaldo a decidir quando termina o seu percurso na Seleção, desde que continue em condições de ser convocado. Uma grande equipa não se limita a acomodar um jogador excecional, sabe integrá-lo em função das necessidades do coletivo. A melhor forma de honrar o seu legado não passa por prolongar artificialmente a centralidade que teve no passado, mas por gerir a sua utilização, colocando a sua experiência e capacidade de decisão ao serviço de uma transição que proteja, simultaneamente, o jogador, a Seleção e o futuro do futebol português.
Resta saber qual será a posição definitiva de Ronaldo, embora o mais provável seja que queira continuar na Seleção até ao final da carreira. Jesus afirmou que será o próprio Ronaldo a decidir quando termina o seu percurso na Seleção, desde que continue em condições de ser convocado. Uma grande equipa não se limita a acomodar um jogador excecional, sabe integrá-lo em função das necessidades do coletivo. A melhor forma de honrar o seu legado não passa por prolongar artificialmente a centralidade que teve no passado, mas por gerir a sua utilização, colocando a sua experiência e capacidade de decisão ao serviço de uma transição que proteja, simultaneamente, o jogador, a Seleção e o futuro do futebol português.
A verdadeira responsabilidade institucional da FPF consiste, portanto, em preparar desde já o período pós-Ronaldo. Adiar essa decisão poderá preservar receitas e popularidade durante mais algum tempo, mas trará um custo desportivo, financeiro e reputacional muito maior quando a transição for inevitável.
A comparação com a governação: do logro do slogan “Vai dar Portugal” ao da convergência com a UE
A comparação entre a gestão da Seleção nacional e a governação económica do país não pretende, obviamente, equiparar responsabilidades ou contextos. Uma seleção de futebol é uma equipa desportiva. Um país é uma sociedade complexa, com instituições democráticas, múltiplos interesses e condicionantes externas. Ainda assim, existe um denominador comum que merece reflexão: a diferença entre ter talento e conseguir transformá-lo em resultados.
Portugal tem, de facto, uma geração extraordinária de futebolistas e foram colocadas à disposição da equipa técnica condições desportivas de topo, que Martínez fez questão de agradecer à FPF na sua despedida, pelo que não foi pela sua falta que Portugal foi eliminado prematuramente.
A nível económico, o país dispõe igualmente de recursos humanos e outras condições favoráveis, como, por exemplo, localização, estabilidade política e integração europeia, que permitiriam apontar a um desempenho muito superior ao exíguo crescimento do PIB registado neste milénio, muito abaixo da UE e, em particular, das economias de leste, a maior parte das quais nos ultrapassou em nível de vida.
O problema é que vantagens potenciais não se transformam automaticamente em sucesso. Exigem liderança, visão estratégica, capacidade de decisão e um compromisso inabalável com o interesse coletivo. Foi isso que faltou à Seleção. E é isso que continua a faltar ao país, como revelam os problemas persistentes na saúde, na justiça, na administração pública, na fiscalidade, na habitação e nos transportes.
No futebol, a Seleção está recheada de jogadores de enorme qualidade individual, mas o coletivo não é suficientemente forte, por falta de uma identidade de jogo clara e uma gestão adequada dos recursos disponíveis, segundo a maioria dos especialistas.
Na economia, Portugal enfrenta um problema semelhante. Há talento, há empresas competitivas e há setores de excelência, mas infelizmente são a minoria, continuando a faltar uma estratégia para melhorar o perfil produtivo da economia e aproximar o nível de vida da média da UE, como venho a apontar.
Existe ainda um paralelismo adicional que considero particularmente relevante, o défice de meritocracia.
Uma seleção só consegue renovar-se quando os jogadores com melhor rendimento conquistam espaço, independentemente do seu estatuto. O mesmo sucede numa economia. Quando as instituições deixam de premiar o mérito, a inovação, a competência e a capacidade de criar valor, acabam por desperdiçar talento e reduzir o potencial de crescimento.
Tal como Gonçalo Ramos viu limitada a oportunidade de se afirmar apesar do mérito demonstrado e houve jogadores da Seleção sem qualquer minuto de jogo na prova, também em Portugal geralmente os incentivos não favorecem suficientemente quem mais investe, inova, trabalha e cria riqueza.
Tal como Gonçalo Ramos viu limitada a oportunidade de se afirmar apesar do mérito demonstrado e houve jogadores da Seleção sem qualquer minuto de jogo na prova, também em Portugal geralmente os incentivos não favorecem suficientemente quem mais investe, inova, trabalha e cria riqueza.
Assim como a Seleção não pode depender indefinidamente do talento de Ronaldo, também a economia portuguesa não pode continuar dependente de fatores externos ou de circunstâncias favoráveis. Durante anos, os fundos europeus e o turismo têm funcionado como uma espécie de ‘Ronaldo económico’. Deram capacidade financeira adicional ao país e permitiram esconder algumas fragilidades estruturais.
No turismo, o próprio Ronaldo foi, muito provavelmente, uma das maiores externalidades positivas de que Portugal beneficiou. A projeção mundial do seu nome valorizou a marca Portugal e terá contribuído para despertar em muitos turistas o desejo de conhecer o país de um dos maiores futebolistas da sua geração, um contributo pelo qual Portugal lhe deve também gratidão.
Mas, tal como nenhuma equipa pode construir uma estratégia de futuro apenas em torno de um jogador na fase final da carreira, Portugal não pode continuar a adiar as verdadeiras reformas estruturais, esperando que novos ciclos de fundos europeus resolvam os seus problemas. Uma reforma estrutural não é mudar por mudar, nem vestir de modernidade uma administração que continua a funcionar pior; é eliminar entraves, alterar incentivos, reforçar instituições e tornar o país mais eficiente, competitivo e preparado para o futuro. Tudo o resto são mudanças de fachada frequentemente apresentadas como reformas. Acresce que, após o fim do PRR, perspetiva-se uma redução dos fundos europeus já a partir de 2027.
O próprio debate em torno dos fundos europeus revela uma tendência preocupante. Valoriza-se mais a capacidade de captar recursos, tratada como um objetivo em si mesmo, do que a capacidade de os transformar em crescimento económico sustentado. O verdadeiro desafio não pode ser receber fundos, mas criar as condições para que esses recursos aumentem a produtividade, promovam a inovação, reforcem o capital humano e permitam às empresas competir com sucesso nos mercados internacionais.
No turismo, o paralelo com Ronaldo é ainda mais evidente, pois um país não deve concentrar excessivamente a sua estratégia de crescimento num setor que, embora importante e gerador de riqueza, tem uma produtividade média e uma capacidade de arrastamento relativamente baixas, sobretudo face a atividades mais intensivas em conhecimento e tecnologia, que importa expandir.
Assim como a Seleção não pode apostar num só jogador, cuja produtividade tem vindo a baixar devido à idade, também uma economia saudável requer um conjunto diversificado e equilibrado de setores, com múltiplas fontes de geração de valor, desde as indústrias tradicionais potenciadas por novas abordagens (de novo o paralelo com Ronaldo) às novas tecnologias de enorme potencial.
O problema dos incentivos de curto prazo é igualmente visível.
Na Seleção, tem-se privilegiado a maximização do rendimento financeiro e mediático associado à presença de Ronaldo no presente, mesmo que limite a preparação do futuro coletivo da Seleção.
Na governação são priorizadas medidas populares de impacto imediato, adiando reformas estruturais cujo retorno apenas se torna visível no médio e longo prazo. As instituições políticas nacionais premeiam decisões com benefícios imediatos e facilmente percetíveis, relegando para segundo plano mudanças mais profundas, cujos resultados podem apenas surgir anos depois e acabar por ser colhidos por governos posteriores.
Na governação são priorizadas medidas populares de impacto imediato, adiando reformas estruturais cujo retorno apenas se torna visível no médio e longo prazo. As instituições políticas nacionais premeiam decisões com benefícios imediatos e facilmente percetíveis, relegando para segundo plano mudanças mais profundas, cujos resultados podem apenas surgir anos depois e acabar por ser colhidos por governos posteriores. Essa lógica acaba por favorecer a sobrevivência política dos governos em funções em detrimento do interesse coletivo de médio e longo prazo do país.
Existe ainda outro problema comum. A tendência para preservar aparências em vez de enfrentar atempadamente os problemas. Na Seleção, a manutenção de um ambiente de aparente harmonia entre o Presidente da FPF e o selecionador, apesar das diferenças evidentes, que se confirmaram após a eliminação do Mundial, acabou por adiar decisões que poderiam ter sido tomadas antes da competição.
Também na governação esta cultura de evitar conflitos e adiar escolhas difíceis contribui frequentemente para a acumulação de problemas, pois reformas necessárias são sucessivamente adiadas para preservar equilíbrios de curto prazo. É assim:
- na fiscalidade, onde reduções pontuais de impostos podem gerar benefícios políticos imediatos, mas não substituem uma reforma abrangente que torne o sistema mais simples, mais competitivo, mais justo e mais favorável ao investimento.
- na Administração pública, onde aumentos de despesa corrente são mais fáceis de anunciar do que reformas que melhorem a eficiência do Estado.
- na habitação, onde estímulos à procura são politicamente mais apelativos do que medidas difíceis destinadas a aumentar estruturalmente a disponibilidade de casas no mercado.
- na Justiça, onde sucessivas promessas de reforma continuam a não resolver a morosidade que penaliza famílias e empresas.
Esta lógica ajuda a explicar por que razão Portugal continua a crescer muito pouco face aos recursos que tem e às condições excecionais de que tem beneficiado, acabando por se aproximar da cauda da UE em nível de vida em vez de alcançar a metade dos países mais ricos num horizonte razoável, uma ambição que deveria constituir um desígnio nacional, como tenho defendido nas minhas crónicas.
A tendência para passar rapidamente do pessimismo absoluto ao entusiasmo desmedido, o conhecido “ir do 8 ao 80”, é outro traço comum e relacionado que merece reflexão. No futebol, um empate inicial com um adversário teoricamente mais fraco quase transformou a Seleção numa equipa sem futuro aos olhos dos adeptos. Pouco depois, uma vitória expressiva contra um adversário ainda mais fraco alimentou a convicção de que o título estava ao alcance.
Na governação sucede algo semelhante. Uma boa notícia conjuntural é frequentemente apresentada como prova de uma mudança estrutural, enquanto dificuldades pontuais podem gerar avaliações excessivamente negativas, geralmente por parte dos comentadores ou da oposição.
Em ambos os casos, o que temos visto por parte das lideranças é esconder os aspetos negativos e enaltecer os positivos, por mais pequenos que sejam. Assim, uma vitória ocasional, como uma Liga das Nações no futebol ou um ano de crescimento acima do esperado na economia, pode gerar entusiasmo e alimentar narrativas de sucesso, só que uma vitória isolada não altera, por si só, a qualidade estrutural de uma equipa de futebol ou da economia.
Uma análise séria exige distinguir resultados conjunturais de tendências estruturais, evitando que a emoção substitua a objetividade.
As grandes seleções, com histórico de títulos importantes, não são aquelas que vencem pontualmente um torneio, mas as que desenvolvem, ao longo dos anos, uma cultura, um modelo de jogo e uma capacidade de renovação permanente. O mesmo acontece com as economias mais prósperas, que não dependem de momentos conjunturais favoráveis, mas de instituições, empresas e pessoas organizadas em torno de uma estratégia coletiva de longo prazo.
O verdadeiro teste está na capacidade de manter resultados elevados de forma consistente. As grandes seleções, com histórico de títulos importantes, não são aquelas que vencem pontualmente um torneio, mas as que desenvolvem, ao longo dos anos, uma cultura, um modelo de jogo e uma capacidade de renovação permanente. O mesmo acontece com as economias mais prósperas, que não dependem de momentos conjunturais favoráveis, mas de instituições, empresas e pessoas organizadas em torno de uma estratégia coletiva de longo prazo.
A obsessão com os resultados imediatos tem ainda outro efeito perverso: reduz o espaço para a renovação. No futebol, a permanência excessiva de uma referência histórica pode atrasar a integração dos talentos seguintes. Na economia, quando a meritocracia é enfraquecida e as reformas são sucessivamente adiadas, são sobretudo os mais jovens quem suporta os custos, herdando um país com menor produtividade, salários mais baixos, maiores dificuldades de acesso à habitação e menor capacidade de competir globalmente.
O ano de 2030 deveria funcionar como um momento de mobilização nacional não apenas para o futebol, devido à realização do Mundial no nosso país, como co-organizador, mas também para a economia. Tal como a Seleção precisa de preparar uma nova era sem Ronaldo, Portugal precisa de preparar uma nova fase económica menos dependente de fatores extraordinários e mais assente em produtividade, inovação, investimento e capital humano.
Para isso, é necessário substituir a cultura de satisfação com resultados fracos por uma cultura de exigência. Não basta celebrar talento nem vitórias ocasionais, muitas vezes alcançadas com alguma felicidade. É necessário criar instituições que promovam a meritocracia, preparem atempadamente a renovação e sejam capazes de transformar o talento disponível em resultados duradouros.
Tanto na Seleção como na governação, mais importante do que gerir o presente é construir o futuro.
Conclusão
O percurso de Portugal no Mundial de futebol mostrou que o talento, por si só, não basta. Sem ambição, uma estratégia consistente, um coletivo forte, uma gestão exigente e uma renovação assente na meritocracia, até uma das melhores gerações de futebolistas portugueses pode ficar muito aquém do seu potencial e ver reduzidas as suas hipóteses de conquistar grandes títulos pelo país.
Infelizmente, a economia portuguesa revela fragilidades semelhantes. Também aqui não faltam talento nem condições favoráveis. Faltam, isso sim, verdadeiras reformas estruturais, i.e., mudanças profundas e duradouras que alterem incentivos, eliminem bloqueios e melhorem o funcionamento das instituições, um sistema que recompense efetivamente o mérito e uma visão de longo prazo capaz de converter vantagens potenciais em produtividade, competitividade e prosperidade duradoura.
o futuro constrói-se preparando atempadamente a renovação e colocando o interesse coletivo acima dos interesses individuais. Só assim, com mais ambição, melhor gestão e maior exigência coletiva, o talento deixa de ser uma promessa e passa a transformar-se em resultados.
Tal como uma seleção de futebol não pode viver indefinidamente do passado nem depender excessivamente de um único jogador, Portugal não pode assentar excessivamente a sua economia no turismo e nos fundos europeus, adiando as mudanças de que necessita e confiando que fatores externos ou conjunturas favoráveis resolverão problemas que são essencialmente internos e estruturais.
A principal lição deste Mundial talvez seja precisamente essa, o futuro constrói-se preparando atempadamente a renovação e colocando o interesse coletivo acima dos interesses individuais. Só assim, com mais ambição, melhor gestão e maior exigência coletiva, o talento deixa de ser uma promessa e passa a transformar-se em resultados. Se conseguirmos aplicar esta lição não apenas ao futebol, mas também à governação do país, talvez um dia possamos dizer, com verdadeiro fundamento, “Vai dar Portugal”.











Leave a Reply