Aproveite que o Campeonato Brasileiro foi retomado e experimente fazer o teste. É infalível. Vale a primeira ou a segunda divisão, dá no mesmo. Ligue a TV no meio de um jogo qualquer sem atentar ao placar exposto no canto da tela. Em questão de minutos, às vezes, em segundos até, é muito provável que verá um jogador pedindo atendimento médico sem nenhum trauma aparente para causar o problema, ou um goleiro demorando uma eternidade para uma simples reposição de bola em jogo, artimanha que também pode ser recurso de um atleta de linha numa cobrança de lateral. A partir dessas cenas, fica fácil arriscar que a equipe que está retardando a partida, coincidentemente, é aquela em vantagem no marcador.
O antijogo, com seu amplo espectro de artifícios, virou uma erva daninha nos gramados brasileiros e sul-americanos. Sejamos justos: ele floresce também em outros terrenos mais distantes, tanto que a Fifa, no começo do ano, anunciou um pacote de medidas que visavam a conter a cera e dar mais fluidez às partidas na Copa do Mundo. Com esse objetivo, a autoridade maior do futebol global estabeleceu tempo máximo para execução de tiro de meta, lateral, falta e substituição, além de impor restrições ao atendimento médico dentro de campo. Mudanças simples, mas que contribuíram muito para a dinâmica do jogo, num Mundial cujo nível foi elogiado, com partidas que deram prazer de ver, algumas antológicas.
As estatísticas mostram também que o tempo de bola rolando ficou acima da média global. Uma confluência de fatores que possibilitou 15 viradas em toda a competição, um recorde na história dos Mundiais (ainda que este estivesse inflado), mas algo difícil de imaginar num torneio como a Copa Libertadores, em que é comum o time à frente do placar adotar a tática de “furar a bola”, estratagema plenamente aceito pelos torcedores (e não só por eles) quando uma equipe faz uso de qualquer recurso indecoroso — para não dizer desonesto —, com a finalidade de estreitar o máximo possível o cronômetro até o apito final, em detrimento do espetáculo. A fragmentação busca não só ganhar tempo como também quebrar o ritmo do adversário e impedir que ele adquira volume, um jeito de anulá-lo não necessariamente por mérito da marcação. A própria parada para hidratação, outra novidade, foi questionada, e vaiada nos estádios, por interromper o andamento de uma partida.
A Copa do Mundo expôs também que o problema da tão criticada arbitragem brasileira diz menos sobre formação ou qualidade pessoal e mais sobre o ambiente em que ela é realizada. Tudo aqui é feito para boicotar o trabalho do juiz. Há pressões externas, que miram a obtenção de benesses futuras, e internas, com objetivos imediatos. Dentro de campo, o que mais se vê são tentativas de ludibriar o árbitro com simulações de faltas e cotoveladas e, outra praxe danosa, o fatídico arrastão de jogadores sobre o juiz a cada marcação de infração mais que evidente. Livres desse ecossistema, árbitros brasileiros tiveram bom desempenho e foram até cotados para apitar a decisão.
Era de supor que orientações bem-sucedidas na Copa, fáceis de implantar, sem custos, seriam transportadas de imediato para o futebol brasileiro. A CBF marcou com os clubes uma reunião no dia 10 de agosto para debater essas novas determinações, e a expectativa é que elas cheguem à Série A na 23ª rodada. É importante que a ressaca do Mundial não deixe esfriar essa ideia. O futebol brasileiro pede por uma mudança de comportamento, extirpar as trapaças que campeiam e intoxicam o jogo. Uma cruzada que deve unir dirigentes, jogadores, torcedores, jornalistas e influencers. É preciso zero tolerância contra qualquer expediente sujo.
*Sérgio Garcia é jornalista











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