“Quem? Quem é esse?”: Lula ridiculariza Milei enquanto China entra na crise entre Brasil e Argentina


“Quem? Quem é esse cara?” Foi com uma resposta carregada de ironia que o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, reagiu esta segunda-feira às novas críticas do homólogo argentino, Javier Milei, numa altura em que a crise diplomática entre os dois países continua a agravar-se e já é considerada a mais grave das últimas décadas.

Segundo o ‘El Mundo’, Lula foi questionado pelos jornalistas sobre os mais recentes ataques de Milei quando seguia para uma receção oficial ao presidente da Coreia do Sul, Lee Jae-myung, em Brasília. Sorridente, de chapéu e com o polegar levantado, limitou-se a responder: “Quem? Quem é esse cara?”

A troca de acusações entre os dois líderes intensificou-se depois de Milei ter viajado ao Brasil no fim de semana para participar num evento de apoio à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, sem informar previamente o Governo brasileiro.

Durante o discurso, o presidente argentino chamou Lula de “ladrão” e “presidiário” e insultou também o juiz do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, a quem apelidou de “careca lixo”. Além disso, voltou a acusar o Foro de São Paulo de promover o comunismo na América Latina e declarou apoio total à direita brasileira nas eleições presidenciais de outubro.

Esta segunda-feira, Milei voltou a subir o tom ao partilhar nas redes sociais várias publicações contra Lula. Numa delas escreveu estar “enojado com todos estes idiotas e hipócritas que pediram desculpa”. Noutras mensagens republicadas, voltou a chamar “ex-presidiário” ao presidente brasileiro e acusou-o de interferir na política do país vizinho.

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Brasília reage e convoca embaixadores

A resposta brasileira não se ficou pelas palavras.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros do Brasil classificou como “sem precedentes” o facto de um chefe de Estado estrangeiro insultar, em território brasileiro, o presidente, as instituições democráticas e o povo do país.

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Em reação, Brasília convocou o embaixador argentino para prestar esclarecimentos e chamou também o seu embaixador em Buenos Aires para consultas. Segundo o ‘El Mundo’, é a primeira vez que uma situação deste género ocorre desde o regresso da democracia aos dois países, na década de 1980.

O ministro brasileiro dos Negócios Estrangeiros, Mauro Vieira, reuniu-se entretanto com o embaixador Júlio Bitelli para avaliar o estado das relações bilaterais e preparar os próximos passos diplomáticos.

China apoia Lula e Mercosul entra na equação

A crise acabou por ganhar dimensão internacional.

O presidente chinês, Xi Jinping, transmitiu apoio a Lula e reiterou o respaldo de Pequim ao Brasil na defesa da sua soberania e contra interferências externas, numa mensagem interpretada como uma resposta indireta às críticas de Milei e às recentes tensões comerciais com os Estados Unidos.

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Lula e Xi defenderam ainda um futuro acordo comercial entre a China e o Mercosul, enquanto Milei continua a privilegiar um entendimento bilateral entre a Argentina e os Estados Unidos.

Apesar da escalada verbal, o Governo argentino recusou comentar as medidas adotadas por Brasília, limitando-se a afirmar, segundo o ‘El Mundo’, que se tratam de decisões exclusivas das autoridades brasileiras.

A deterioração das relações acontece precisamente quando Brasil e Argentina assinalam 40 anos dos acordos de integração assinados por Raúl Alfonsín e José Sarney, considerados o ponto de partida da aproximação política e económica que viria a dar origem ao Mercosul. Hoje, os dois maiores parceiros do bloco enfrentam a mais séria crise diplomática desde o fim das ditaduras militares.



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