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Não foram precisos 10 anos para o Benfica regressar a casa, mas há semanas que se parecem arrastar por 10 anos. A Suíça não é sequer semelhante a Tróia na geografia ou na brutalidade dos seus habitantes. Neste período, não houve sereias, ciclopes ou jogadores do Benfica transformados em porcos para fazer equivaler a jornada de Ulisses, de regresso a Ítaca, à encarnada, no regresso às vitórias, uma estreia esta temporada. Como um bom filme, a uma quinta-feira. Como o que Christopher Nolan (e Homero, justiça seja feita), com um grego a desafiar os deuses, num estatuto de invencível que quase o coloca no mesmo patamar. Não foi no IMAX do Colombo, mas foi no outro lado da rua, com nota máxima e, superiorizando-se a qualquer tecnologia, em 5D. A Odisseia do Benfica foi escrita e resultou numa vitória incontestável e numa goleada que, noutras condições, seria óbvia. Pela primeira mão, tornou-se necessária e imperativa.
A exibição de Vangelis Pavlidis é daquelas para emoldurar e colocar na parede, não de casa, não de um museu, mas do Olimpo. Os golos, quatro, a cair que nem cerejas, são apenas a ponta de um icebergue bem mais profundo. Antes deles, vieram as constantes ligações em apoio. Que o avançado grego sabe ligar e associar-se aos companheiros é verdade, mas poucas vezes se viu tamanho esclarecimento e acerto na definição. Joga a dois ritmos diferentes. Ou vem cá atrás, qual Harry Kane na ligação, para atrair a marcação (fundamental diante marcações individuais tão agressivas como a do St. Gallen), ligar e meter alguém de frente com espaço nas costas para a bola entrar, ou funciona como opção para jogar na área, procurando os intervalos para receber e estar de frente com a baliza. Nem sempre é o mais eficaz, mas até Ulisses teve problemas em lidar com o canto das sereias.
A partir da exibição de Pavlidis, o Benfica desenvolveu o seu ataque. Aí, já há méritos na forma como Marco Silva, o realizador deste filme, percebeu os complementos de Vangelis Pavlidis. Ainda não há padrões reconhecíveis a olho nu nem aulas de futebol, mas tal também não seria possível. Há uma semana, havia gente já com a cabeça do treinador a prémio. Não há muitos fenómenos tão instantâneos como o futebol. Ainda assim, dos jogos de pré-época e desta exibição, há algumas linhas definidoras na forma como o Benfica procurará criar perigo ao adversário.


A grande dificuldade na generalização, curiosamente, até está no adversário. Em Portugal, não é assim tão comum ver uma equipa a marcar HxH a campo inteiro, levando o jogo para um embate de microduelos e de superioridades individuais. Tomar este jogo, com características tão específicas, como a norma da temporada é um exercício difícil de fazer. Ninguém espera que, numa noite de segunda-feira algures em Portugal, o adversário encarnado decida lançar-se numa pressão de tal maneira. Ainda assim, e sendo esta a base para a análise, há três pilares definidores da ideia ofensiva do Benfica.
O primeiro é Vangelis Pavlidis. Não tem uma réplica no plantel e, do banco, onde se sentaram Jhon Durán, Franjo Ivanovic e Anísio Cabral em simultâneo, virá sempre uma solução diferente. Ainda assim, a possibilidade de ter no grego um avançado para ligar de forma mais ou menos direta, contando com os seus recuos, para criar espaço na frente e fazer o jogo fluir é basilar.
A aposta em Kaminski e Rafa Silva em simultâneo permite aproveitar estas ligações e espaços criados. Contra blocos mais baixos, é difícil pensar nos dois extremos como titulares, mas neste cenário conseguiram criar perigo, ambos partindo de fora para dentro, para, rapidamente, se meterem no corredor central que seria de Pavlidis. À direita, Alexander Bah projetava-se e Rafa, o mais acertado na definição e no gesto técnico, lá andava a circular por dentro, muitas vezes até para a esquerda, para acelerar e definir.


À esquerda, com Samuel Dahl mais baixo, Sudakov muitas vezes abria posição e era Kaminski a aparecer por dentro. Não esteve sempre muito limpo na definição – é essa a grande incógnita – mas conseguiu acelerar, romper no espaço e acrescentar bem mais ao jogo. Estas permutas entre o ucraniano e o polaco, vizinhos geograficamente e em campo, permitem colocar os jogadores, donos de um perfil específico, em situações mais confortáveis.
Partindo do centro para a esquerda, Sudakov tem espaço para ver o jogo de frente e decidir. Enquanto não ganha confiança, pode jogar simples, sem tanta pressão. Marco Silva faz bem em não desistir do ucraniano. Não é o inútil que muitos querem fazer parecer, embora seja claro que está longe do nível desejado e que o próprio já mostrou. Já Kaminski é um caso diferente. O perfil do polaco é claro: tecnicamente tem lacunas claras no drible, na receção em espaços curtos e no trabalho mais fino com bola; a nível de velocidade, de arrancada, de compromisso no trabalho defensivo, tem mais-valias evidentes. O grande desafio passa por enquadrar estas características numa equipa que se quer pausada e dominadora. Está no plantel como segunda opção, para vir do banco e garantir maior solidez ou poder de fogo, aproveitando o cansaço que as outras pernas forem acumulando. Neste cenário, poderá ser mais interessante.
Por fim, a forma como Marco Silva pensa o meio-campo é clara. Raramente se viu os médios alinhados. Enzo Barrenechea foi completamente posicional, variando o posicionamento para jogar entre os centrais ou à sua frente e conservando o jogo. À direita, Leandro Barreiro como médio total. Tanto lateralizava posição, para chamar a pressão e abrir espaços por dentro, como se projetava e ocupava a área quando a bola já andava do lado contrário de campo. A fiabilidade e regularidade dão-lhe o protagonismo que poucos imaginariam que tivesse. Sudakov, entre a esquerda e o jogo de costas, a uma terceira altura, provocando as escadinhas em campo (com Pavlidis, claro, a dar andamento) para a bola circular e chegar ao homem livre. Num jogo onde defensivamente pouco foi preciso, ainda que o Benfica não se tenha livrado de um susto ou outro na primeira parte, o futebol ofensivo foi destaque. E o barco de Pavlidis, lá chegou a Ítaca. Pode ser que, na Escócia, onde se joga a próxima eliminatória, haja tempo para uma visita a um dos cenários da Odisseia. Quiçá se perceba que as barbas brancas servem a Pavlidis e que as epopeias também estão ao alcance do Benfica.


Bola na Rede na Conferência de Imprensa
Bola na Rede: Quais foram as maiores diferenças e, principalmente, dificuldades sentidas do primeiro para o segundo jogo?
Enrico Maassen: Primeiro, quero elogiar a minha equipa. Contra este adversário tão forte como o Benfica, acho que os momentos chave correram contra nós. Temos de estar sempre ligados, a recuperar a bola. Tivemos duas boas oportunidades, mas não conseguimos marcar nem aproveitar. Na segunda parte, queríamos estar presentes no jogo como na primeira parte. O Benfica esteve num bom momento, os momentos chaves não permitiram a reviravolta no resultado. O Benfica criou muitas oportunidades, mostrou um nível diferente. Depois do vermelho, não criámos mais oportunidades. Foi uma boa experiência, muito válida. Conseguimos ganhar o primeiro jogo e mostra o nosso mérito.











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