Fifa quer vender ações da Copa do Mundo para investidores privados
Pouco mais de uma semana após o fim da Copa do Mundo, a Fifa anunciou a criação de uma empresa para administrar suas atividades comerciais, atrair investidores. Crédito: AFP
A Uefa anunciou a retirada de seus 55 países membros das competições globais em resposta ao plano da Fifa de vender parte dos negócios a investidores. A proposta de Gianni Infantino enfrenta resistência, com a Uefa rejeitando-a unanimemente. A Concacaf e a AFC também expressaram preocupações, enquanto a Conmebol e a CAF tendem a apoiar Infantino. A disputa política entre Fifa e Uefa reflete interesses divergentes sobre o controle e a comercialização do futebol global.
A reação mais extrema ao plano de Gianni Infantino, a venda de parte dos negócios da Fifa a investidores, partiu da Uefa. Nesta quinta-feira (30), a confederação anunciou a retirada de todos os 55 países filiados a ela das competições globais até que plano de venda de ações seja revogado.
“Rejeitamos, de forma unânime e inequívoca, a proposta da Fifa de transferir participações na propriedade da Copa do Mundo e de outras competições para investidores privados”, escreveu a entidade europeia em comunicado.
O posicionamento desta quinta escala em relação à primeira resposta dada pela Uefa ao caso. Na quarta (29), a entidade afirmou que havia “grande oposição” aos planos e criticou o prazo que Infantino deu às federações para votar a proposta.

Aleksander Ceferin, presidente da Uefa, se opõe a novo plano de Gianni Infantino. Foto: Divulgação/Uefa
O presidente da Fifa estabeleceu um prazo de 53 dias, até 19 de setembro, para que todos os países filiados a ela decidam se aceitam ou rejeitam a oferta da Thrive Capital, sob o risco de perder a oportunidade de embolsar US$ 10 bilhões imediatos.
“Isso diz tudo o que você precisa saber sobre esse plano”, debochou a Uefa.
No contexto, existe uma disputa política e comercial entre Fifa e Uefa. A Copa do Mundo de Clubes ameaça de certa forma o domínio da Liga dos Campeões, como produto global de futebol, e também aperta o calendário para as competições.
Aleksander Ceferin, presidente da Uefa, não esteve na final da Copa do Mundo, ainda que a Espanha fosse finalista, como forma de marcar posição contra o rival.
Ceferin também se manifestou contra a decisão de anular a suspensão do atacante Folarin Balogun, dos Estados Unidos, após pressão do presidente Donald Trump — episódio que a Uefa classificou como uma “linha vermelha” cruzada pela Fifa.
A Europa está unida?
Apesar de a Uefa declarar que a posição contrária à Fifa é “unânime e inequívoca”, um dos membros da confederação já deixou claro que é a favor: a Tchéquia.
David Trunda, presidente da federação tcheca, afirmou à Sky News que apoia a iniciativa de Infantino. Ele citou “os benefícios pragmáticos para o futebol tcheco” de uma cooperação próxima entre o dirigente da federação global e a equipe dele.
Como está o mapa político
As reações manifestadas até o momento demonstram que não há unanimidade contra, nem a favor. Principalmente, há posições que ainda não foram declaradas.
O mapa deve levar em consideração os interesses de cada federação nacional, pois são elas que votam efetivamente, mas também das confederações continentais. É comum que posicionamentos dessa natureza sejam negociados em bloco por elas.
A Concacaf, que comanda a América do Norte, Central e Caribe, recusou a proposta e afirmou que “o futebol deve ser manter nas mãos do futebol”. O canadense Victor Montagliani, que preside a entidade, é um dos vice-presidentes da Fifa. Ele é visto como candidato potencial à presidência da federação em um futuro próximo.
Já a AFC, da Ásia, se disse “desapontada” pelo assunto ter entrado no debate público antes de qualquer discussão entre as confederações, Shaikh Salman bin Ibrahim Al Khalifa, do Bahrein, preside a AFC e também é vice-presidente da Fifa.
Tanto Concacaf quanto AFC tiveram o cuidado de questionar mais o processo do que a proposta em si. Ambas têm membros pequenos do ponto de vista financeiro, que tendem a se beneficiar mais do dinheiro colocado à mesa pelos investidores.
A Conmebol não se manifestou sobre o plano. A tendência, porém, é de apoio em algum nível. A confederação já havia endossado formalmente a reeleição de Infantino para o mandato de 2027 a 2031, antes de a polêmica vir à tona.
Alejandro Domínguez, presidente da confederação sul-americana, também defende publicamente a expansão da Copa do Mundo de 2030 para 64 seleções. Isso abriria a chance para que Argentina, Uruguai e Paraguai, que receberão partidas inaugurais da competição, consigam sediar alguns jogos a mais — uma vitória política para ele.
A CAF, da África, é parceira histórica de Infantino e também endossou formalmente a reeleição dele em 2027 — outro sinal de que deve apoiar a proposta.
Patrice Motsepe, presidente da entidade e natural da África do Sul, sonha em suceder Infantino na Fifa em 2031, quando o dirigente suíço-italiano não poderá mais concorrer. É lógico que ele queira evitar o confronto político aberto agora.
O apoio da confederação da África é estratégica para qualquer decisão tomada no âmbito da Fifa, pois é a segunda entidade regional com mais países-membros. São necessários 106 votos para aprovação. A Europa tem 55, a África tem 54, enquanto a Ásia tem 46, e a América do Norte, 35.
A América do Sul tem apenas dez membros, o que a torna menos valiosa do ponto de vista numérico, mas possui o peso simbólico Brasil e Argentina. Já a Oceania, com apenas 11 países e pouca relevância futebolística, tem impacto menor no jogo.











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