O incidente dos últimos dias levantou dúvidas sobre a segurança e a fiabilidade das comunicações em Angola. A UNITEL garante que os serviços começaram a ser repostos de forma gradual.
Apesar da interrupção, as ações da UNITEL, que detém cerca de 76% do mercado de telecomunicações em Angola, chegaram a valorizar na estreia em bolsa. Especialistas alertam, no entanto, para os prejuízos económicos imediatos e para os riscos reputacionais que o episódio poderá ter para a empresa e para o Estado.
Em entrevista à DW, o economista Carlos Rosado de Carvalho analisa as consequências do ataque para as famílias, as empresas e a economia angolana e considera que o episódio evidenciou a dependência do país da UNITEL.
DW África: Que impacto imediato teve este apagão na vida das famílias?
Carlos Rosado de Carvalho (CRC): O primeiro impacto foi que as pessoas ficaram sem comunicações. O facto de a UNITEL ter uma grande cota de mercado significa que muita gente foi afetada, sobretudo nas províncias. Na capital, alguns utilizadores ainda tinham a alternativa da Africell, que está presente em cinco ou seis províncias. Já nas zonas mais remotas do país, onde as opções são mais limitadas, a interrupção dos serviços teve um impacto ainda maior.
Ficámos todos sem comunicação, as famílias, as empresas. Esse foi, naturalmente, o primeiro e grande impacto do apagão da UNITEL. Naturalmente que isto também prejudicou a mobilidade das pessoas, teve um impacto enorme na produtividade, porque, imaginemos, nós vivemos num mundo digital, estamos todos conectados, o nosso trabalho, em geral, depende das comunicações e, portanto, ficar sem comunicações é uma situação que causa muitos prejuízos, quer às famílias quer às empresas.
DW África: E qual é que foi o impacto na atividade das empresas em Angola?
CRC: Ainda não há dados concretos sobre isso. Mas há um dado que podemos analisar: Angola tem uma empresa que assegura os pagamentos automáticos, que se chama EMIS. E a EMIS diz que, no dia 29, as transações caíram 50%, sobretudo nos Terminais de Pagamento Automático (TPAs,), que estão nos estabelecimentos comerciais. Esses TPAs funcionam com um chip e 70% têm um chip da UNITEL. Portanto, isto diz bem da dificuldade que foi para as pessoas e as empresas fazerem pagamentos.
DW África: Este ataque informático pode ter consequências duradouras para a economia angolana ou será apenas um impacto temporário?
CRC: Depende do tempo que demorar. O serviço, diz a UNITEL, começou a ser reposto na quarta-feira (29.07). Eu acredito que isto, naturalmente, tem um grande impacto de médio e longo prazo, que é um impacto na reputação da UNITEL e também na reputação do próprio Governo. As pessoas fizeram memes porque 50% das ações da UNITEL foram nacionalizadas – as ações que pertenciam a Isabel dos Santos, filha do antigo Presidente. Outros 25%, que também pertenciam a um general do círculo próximo do Presidente, foram nacionalizadas.
Portanto, as pessoas estão a brincar, dizendo “volta, Isabel”, porque o Estado não sabe gerir a empresa. Portanto, o risco reputacional também foi grande. Agora, em termos de médio e longo prazo, depende de nós corrigirmos os erros e tentarmos transmitir ao mercado que as telecomunicações em Angola são seguras.
DW África: Acredita que este episódio vai levar empresas, bancos e consumidores a diversificarem os serviços de telecomunicações para reduzir a dependência de uma única operadora?
CRC: Uma das lições deste apagão é percebermos que dependemos muito da UNITEL e que, eventualmente, vale a pena diversificar. A questão é saber se haverá alguém interessado em entrar no mercado angolano, que é um mercado onde a população tem relativamente pouco poder de compra. Portanto, estamos conscientes da dependência que temos da UNITEL, estamos conscientes da necessidade de reduzir essa dependência, mas não sabemos se existem efetivamente condições para a reduzir, já que o mercado angolano não é tão apetecível como isso, porque as pessoas têm um poder de compra relativamente baixo.
DW África: Apesar do ataque informático e da interrupção dos serviços, as ações da UNITEL valorizaram na estreia em bolsa. O que explica esta reação dos investidores?
CRC: Nada explica. A subida de quarta-feira é exatamente o oposto daquilo que se esperava, e por razões muito simples. Segundo os meus cálculos e as comparações que fiz, a UNITEL já entrou cara, relativamente a duas empresas de telecomunicações africanas: a MTN, na Nigéria, e a queniana Safaricom. Segundo os meus cálculos, a capitalização bolsista da UNITEL, com o preço de entrada em bolsa, os tais 40.040 kwanzas, era à volta de 12 vezes o EBITDA – um indicador financeiro que diz quais são os meios que uma empresa consegue libertar anualmente.
Por exemplo, o da MTN é à volta de seis e o da Safaricom era de sete. Portanto, a UNITEL já entrou, do meu ponto de vista, cara em bolsa. Com este episódio, que tem consequências naturalmente sobre a UNITEL, toda a gente esperaria que a UNITEL, na entrada em bolsa, pudesse fazer um preço inferior ao da privatização. Aconteceu o contrário, mas, aparentemente, já corrigiu. Agora vamos ver o que vai acontecer… o mercado acionista angolano é muito jovem, muito volátil, muito imprevisível. Os investidores é que mandam e costuma dizer-se que, no longo prazo, estão sempre certos. No curto prazo, não sabemos.









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