Vi na televisão — já nem sei em que canal, porque nestas alturas todos se transformam no mesmo aquário de pânico — milhares de rapazes a sair do mar, a trepar rochas e a correr pela praia de Ceuta como se, do outro lado, estivesse não apenas Espanha, mas a vida inteira. No meio da multidão, um jovem marroquino, falando um espanhol razoável, disse uma frase mais lúcida do que quase tudo o que ouvi depois a ministros, comentadores e generais de sofá: “Isto foi uma estupidez. Já morreram várias pessoas. Nem sei bem porque estou aqui. Acho que vou voltar.” Ali estava a crise explicada em vinte segundos. O sonho, a manada, o medo, o arrependimento e o bilhete de regresso. E tudo sem comentários, artigos de opinião ou posts nas redes sociais.
Foi quase uma invasão. Podemos chamar-lhe isso sem distribuir archotes e panfletos do Vox ou repetir o palavreado ignorante dos seus amigos “cheganos” de Portugal. Uma invasão no sentido físico e territorial: dezenas de milhares de pessoas entraram de uma vez num território minúsculo, sem autorização e sem controlo efetivo da fronteira. Mas foi uma invasão sem exército, sem artilharia e, sobretudo, sem conquistadores. Ninguém chegou a cavalo, ninguém trazia uma bandeira para içar no município e nenhum rapaz parecia interessado em fundar um califado na secção dos congelados. Vieram com a roupa colada ao corpo, telemóveis embrulhados em plástico, pneus usados como boias e camisolas de clubes europeus. Os invasores queriam trabalho, comida e talvez um olheiro do Real Madrid.
A comparação com os Mouros é provocadora, mas exige História, não memes. Em 711, tropas muçulmanas, sobretudo berberes do Norte de África comandados por Tariq ibn Ziyad, atravessaram o Estreito, derrotaram o reino visigótico e iniciaram a conquista da Península. Foi uma invasão militar e nada pacífica. Mas, depois, al-Andalus tornou-se também um espaço de agricultura, comércio, medicina, matemática, filosofia e arquitetura, deixando marcas que ainda nós, em Portugal, pronunciamos quando dizemos Algarve, aldeia, alfândega ou almofada. Os que chegaram com armas também trouxeram conhecimento; os que agora chegam a Ceuta vêm de mãos vazias e trazem apenas a pobreza que preferimos não ver.
Os Mouros do século XXI trazem desespero
Entre 50 mil e 60 mil pessoas terão entrado em Ceuta em poucas horas, numa cidade com cerca de 84 mil habitantes. O balanço oficial mais recente elevou para 67 o número de mortos. Entretanto, a maioria ou quase todos, segundo as notícias de hoje, já regressaram rapidamente a Marrocos: até ao fim de sexta-feira, Espanha contabilizava cerca de 48.300 regressos voluntários. A grande invasão da Europa tornou-se uma procissão em sentido contrário. Muitos descobriram que Ceuta não era uma estação com ligação direta a Madrid, Paris e Berlim, mas uma cidade cercada e incapaz de alimentar uma multidão.
Isto não torna a entrada menos grave. Um Estado tem o direito e o dever de controlar quem entra. Uma fronteira que deixa de funcionar não se pode transformar num festival multicultural; transforma-se numa emergência de segurança, alojamento, alimentação e proteção de menores. Dizer isto não é xenofobia; pelo contrário, é proteger todos: eles e nós. Da mesma maneira que reconhecer a humanidade de quem atravessou o mar não é defender fronteiras abertas. Entre o “entrem todos” dos ingénuos profissionais e o “afundem os barcos” dos bárbaros de gravata existe uma coisa pouco fotogénica chamada política.
Pedro Sánchez apontou às redes de tráfico e à exploração de uma decisão recente do Supremo espanhol, interpretada nas redes como garantia de que quem chegasse pelo mar não poderia ser imediatamente devolvido. Mas as alegações de que Rabat abriu deliberadamente a fronteira, ou de que Washington e Israel organizaram a operação, continuam sem prova pública suficiente. Marrocos já usou a pressão migratória como instrumento diplomático e Ceuta é um ponto sensível; ainda assim, nem toda a catástrofe precisa de ser escrita pela CIA, revista pela Mossad e produzida pela Netflix.
As massas podem ser manipuladas sem um maestro atrás da cortina. Basta um rumor, um vídeo de alguém que conseguiu, uma mensagem num grupo — também ouvi um dos rapazes dizer que lhe tinham contado que as fronteiras estavam abertas, enfim —, a passividade momentânea da polícia e um acórdão mal explicado. Quando se vive sem horizonte, uma notícia falsa parece uma oportunidade; quando o futuro não oferece nada, até uma corrente marítima parece um caminho.
O sonho Europeu veste uma camisola de futebol
Curiosamente, muitos daqueles rapazes falam do futebol como se fosse não apenas uma profissão, mas um visto de residência. Querem jogar em Espanha, ganhar dinheiro, ajudar a mãe, salvar a família. As televisões transmitem a Liga espanhola, a Premier League, a Champions e agora o extraordinário desempenho das seleções de Marrocos, Cabo Verde e de outros países africanos; as redes mostram mansões, carros e relógios. Depois, ficamos surpreendidos quando um adolescente africano conclui que a Europa começa depois de umas centenas de metros de água.
O futebol é, de facto, a publicidade mais eficaz do sonho europeu. Exportamos uma Europa rica, onde qualquer rapaz pode ser um Cristiano Ronaldo ou um Lamine Yamal — que, por acaso, tem ascendência marroquina —, e omitimos que quase todos acabarão numa obra, numa cozinha, numa estufa ou numa plataforma de entregas, a fazer os trabalhos que recusamos pelos salários que aceitamos pagar aos outros. Precisamos de imigrantes, dizemos. Mas preferimo-los invisíveis, baratos e agradecidos. Queremos a mão-de-obra, não queremos as pessoas. A riqueza atravessa a fronteira em primeira classe; a pobreza deve preencher um formulário.
É desonesto atribuir tudo a um “efeito de chamada” provocado pelas regularizações espanholas. A medida exige residência anterior comprovada e não transforma quem chegou ontem num cidadão europeu amanhã. Mesmo assim, o universo MAGA já usou as imagens para atacar Pedro Sánchez, a esquerda e a imigração. A realidade era uma emergência localizada; a propaganda converteu-a na “invasão do Ocidente”. Filma-se um plano apertado, retira-se o contexto e acrescenta-se música de fim do mundo.
Muros mais altos, problemas mais fundos
A resposta de Espanha foi previsível: exército, polícia, drones e uma barreira flutuante de 500 metros junto ao Tarajal. É compreensível. Quando a água entra em casa, primeiro fecha-se a torneira; depois discutem-se a canalização e as infiltrações. Mas a Europa confunde a emergência com a política. Reage depois das imagens, convoca reuniões, instala boias e anuncia firmeza. Depois regressa aos almoços com os regimes que utiliza como porteiros externos, pagando-lhes para segurarem, do outro lado, as pessoas que não quer ver deste. Vinte e dois governos europeus pediram uma reunião de emergência. A União Europeia descobriu agora que a fronteira de Ceuta também é sua, estranhamente apenas cinco minutos depois de ela rebentar.
Os muros são feios e servem para impedir entradas desordenadas. O que não fazem é eliminar a razão pela qual alguém aceita morrer para os atravessar. Podemos levantar uma parede de dez metros; aparecerá uma escada de onze. Podemos instalar uma boia de quinhentos metros; haverá quem tente contorná-la. A fronteira é necessária, mas não é uma política migratória. É a última linha de uma política que falhou antes.
A alternativa não cabe num soundbite: canais legais ajustados ao mercado de trabalho; acordos transparentes com os países de origem; combate às redes de tráfico; vistos com direitos; cooperação que não acabe nos bolsos das elites locais africanas, corruptas e formadas na Europa; investimento local que permita a um jovem ficar sem sentir que ficar é desistir; e, sobretudo, pressão sobre regimes autocráticos que administram populações jovens como reservatórios de mão-de-obra e descontentamento.
A imigração deve ser uma opção, não uma necessidade. E deve ser regular, não uma lotaria mortal em que o prémio é lavar pratos em Madrid e a derrota aparece numa praia. A Europa precisa de trabalhadores; África e o Norte de África precisam de empregos, instituições, mobilidade e futuro. Entre estas necessidades poderia existir uma política. Em vez disso, existe um mercado clandestino, uma rede social, um barco pneumático, um pneu e um rapaz a nadar desesperadamente, sem colete de salvação, para chegar ao sonho europeu.
Volto ao jovem da televisão. “Nem sei bem porque estou aqui. Acho que vou voltar.” Aquele rapaz não era Tariq ibn Ziyad. Não vinha conquistar a Península. Vinha conquistar uma possibilidade. E descobriu, demasiado tarde, que também as possibilidades podem ser falsas ou meras ilusões.
Os novos Mouros não chegaram para nos roubar a civilização. Chegaram porque acreditaram que a nossa ainda funcionava. O verdadeiro escândalo de Ceuta não é apenas terem entrado tantos. É terem, coitados, acreditado que bastava entrar.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.









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