Ortega aposta em distração de Trump para consolidar sua dinastia autoritária na Nicarágua


A América do Sul se tornou de direita?

Eleições recentes pintaram o mapa da região de azul, indicando uma guinada à direita, mas o que está por trás disso?. Crédito: Edição: Ariel Liborio

O ditador da Nicarágua, Daniel Ortega, aproveitou as celebrações de aniversário da Revolução Sandinista, em 19 de julho, para anunciar o fim definitivo das eleições no país. A declaração foi amenizada logo em seguida por sua mulher e copresidente, Rosário Murillo, que disse que haverá sim eleições, mas vinculada a uma reforma uma reforma para barrar a oposição. O movimento, afirmam analistas nicaraguenses ouvidos no Estadão, visa consolidar a dinastia Ortega-Murillo no país, enquanto os Estados Unidos estão com seus objetivos voltados para o Oriente Médio e a Venezuela.

Ortega, que está no poder há quase 20 anos consecutivos, andava recluso nos últimos meses e mal se pronunciou depois da captura do ditador venezuelano, Nicolás Maduro, pelos EUA em 3 de janeiro. Dias depois, o sandinista prometeu libertar dezenas de prisioneiros políticos após pressão de Washington, embora o cumprimento tenha ficado muito aquém do prometido.

A manobra de Ortega causou espanto internacional por ocorrer em um momento que parece arriscado. Depois de tirar Maduro do poder, a Casa Branca passou a exercer maior pressão sobre Cuba.

Pela lógica, o próximo alvo poderia facilmente ser Manágua. Mas esta não parece ter sido a preocupação do ditador.

O ditador da Nicarágua, Daniel Ortega, e a copresidente Rosário Murillo Foto: CESAR PEREZ/AFP

“O que eles estão calculando é que a Nicarágua, por não ter o mesmo peso simbólico e econômico de Cuba ou da Venezuela, situa-se em um nível de prioridade diferente”, afirma Elvira Cuadra Lira, socióloga e diretora do Centro de Estudos Transdisciplinares da América Central (CETCAM).

Eles viram como o processo tem se desenrolado na Venezuela. É muito provável que estejam pensando em uma solução intermediária, no sentido de encontrar uma maneira de coexistir ou de conviver e manter sua estrutura de poder, da mesma forma que as coisas têm ocorrido na Venezuela, porque lá algo mudou, mas não muito.

Elvira Cuadra Lira, socióloga e diretora do Centro de Estudos Transdisciplinares da América Central (CETCAM)

“Apesar de, depois de 3 de janeiro, terem mantido um perfil bastante discreto. Eu acredito que eles sim têm medo”, avalia o nicaraguense Douglas Castro-Quezada, doutorando na Universidade de Oxford e ativista de direitos humanos. “Contudo, acreditam que ainda há tempo, que a situação na Venezuela não vai se resolver logo, nem a de Cuba, e que eles estão na terceira categoria de prioridade. Creem que talvez não haja tempo suficiente e o governo de Trump não tenha fôlego para chegar até esse momento.”

A advogada Wendy Flores, vice-presidente do coletivo “Nicarágua Nunca Más”, coincide na análise, acreditando que o regime está em modo de espera até que o poder mude nos EUA. “Eles preveem que os EUA foquem na Venezuela, Cuba ou talvez no Irã, permitindo assim que a Nicarágua tire proveito da situação para continuar agindo conforme sua vontade, tudo isso apostando no fato de que o país não representa um interesse estratégico relevante para os Estados Unidos.”

Uma sucessão dinástica

Diferentes teses tentam interpretar o movimento arriscado de Ortega. Castro-Quezada disse ter ouvido argumentos de que o ditador na verdade está blefando em uma manobra para negociar eleições em condições precárias. Em uma estratégia de apostar no extremo para negociar um meio termo. “Eu não acredito nisso, pois acho que eles estão dizendo o que pensam e querem preparar o terreno para uma sucessão dinástica”.

Todos os analistas utilizam o termo dinastia para descrever o poder nicaraguense. Isso, segundo eles, é o que diferencia o regime de Ortega e Murillo do chavismo na Venezuela e dos Castros em Cuba, aproximando-o, talvez, da Coreia do Norte.

Congresso da Nicarágua votará em agosto reforma para excluir opositores das eleições

A Nicarágua avança rumo à aprovação, no início de agosto, de uma reforma para impedir que partidos de oposição concorram em eleições. Crédito: LUIS SEQUEIRA / various sources / AFP

Ortega chegou ao poder depois de liderar a Revolução Sandinista que derrubou a ditadura da família Somoza em 1979. Ele, contudo, perdeu a disputa eleitoral de 1990, quando foi eleita Violeta Barrios de Chamorro. O sandinista retornou ao poder em 2007, pela via democrática, de onde nunca mais saiu, ganhando eleições contestadas e estendendo o tempo de seu mandato por meio de reformas igualmente controvertidas.

Rosário Murillo, até então primeira-dama da Nicarágua, concorreu como vice-presidente de Ortega nas eleições de 2016. Depois, seu cargo foi transformado em “copresidência” em um sentido de que ela compartilha o poder com o marido. Conforme Ortega avança na idade, Murillo ganha mais poder. Agora, aos 80 anos, o ditador tem estado mais recluso e ela assumiu a frente em muitas decisões.

Depois que Ortega afirmou que “aqui não haverá mais eleições”, Murillo tentou colocar panos quentes: “Haverá eleições, sim, mas eleições próprias, do nosso povo abençoado, concebidas e organizadas a partir da nossa soberania nacional e da nossa dignidade”, disse ao conduzir uma reforma eleitoral para impedir a participação de opositores.

“Há alguns anos, eles vêm trabalhando para transferir o poder político, simbólico e econômico, entre outras formas, de Daniel Ortega para outros membros da família Ortega-Murillo”, afirma Elvira Cuadra, que escreveu diversos artigos sobre a sucessão de poder na Nicarágua.

Os oito filhos do casal são assessores especiais do governo e conduzem estratégias importantes sem estarem oficialmente ligados a um cargo. É o caso de Laureano Facundo Ortega Murillo, que cuida da sucessão presidencial; Camila Antonia Ortega Murillo, que controla canais de televisão, e Juan Carlos Ortega Murillo, que controla as comunicações da Frente Sandinista.

A única exceção é Zoilamérica Ortega Murillo, filha de Rosário Murillo e enteada de Ortega que, em 1998, denunciou o padrasto por abuso sexual. Hoje, ela vive exilada na Costa Rica. Para Elvira Cuadra, foi este o episódio que transformou a ditadura em uma dinastia, pois Murillo saiu em defesa de Ortega em detrimento da filha, consolidando-se assim como a mulher de confiança do ditador.

“Essa estrutura de poder vem encolhendo, pois a desconfiança prevalece sobre a confiança entre eles, resultando em uma estrutura muito reduzida, razão pela qual Rosario Murillo já não confia em ninguém além de seus próprios filhos e sua própria família”, afirma a socióloga.

Barreira à oposição

A Nicarágua deveria passar por novas eleições presidenciais este ano, depois que uma reforma constitucional contestada mudou as regras. Contudo, emendas alargaram o mandato presidencial e jogaram as eleições para 2027. Nas celebrações do dia 19, Ortega cancelou o pleito sob a justificativa de conter uma suposta tentativa da oposição de “tomar o poder” com auxílio dos Estados Unidos.

“Eles vêm conspirando, buscando como organizar partidos para que, em uma eleição que eles presumem, esses partidos ganhem as eleições”, afirmou Ortega. “No entanto, aqui acabou a história de que os partidos colocados pelos ianques (referência aos EUA) voltarão a chegar ao governo, jamais, jamais, jamais”.

Uma pessoa agitando uma bandeira da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) durante celebração do 47º aniversário da Revolução Nicaraguense em Manágua, em 19 de julho de 2026 Foto: CESAR PEREZ/AFP

Com isso, o governo colocou em tramitação no Congresso – que é controlado pelo partido governista – uma reforma que busca proibir o que chamou de “golpistas” e “entreguistas” de concorrer a eleições. O texto também prevê estender o mandato atual de Ortega para sete anos.

“Ortega quer reduzir ao máximo a incerteza”, avalia Douglas Castro-Quezada. “Acredito que ele esteja ainda mais ciente do que é a oposição, de que seu regime é muito vulnerável, pois, mesmo controlando a disputa eleitoral, a situação pode sair do controle por onde ele menos espera ou pode surgir uma surpresa”.

Segundo os analistas, é irrealista pensar que há uma oposição organizada dentro da Nicarágua que coloque em risco o regime, pois praticamente toda contestação ou dissidência foi solapada no país. “Muitos dos líderes opositores estão espalhados em diferentes países e os líderes que se encontram dentro do território nicaraguense precisam tentar permanecer em silêncio por medo da perseguição e das prisões”, relata Wendy Flores, sendo ela própria uma advogada em exílio nos EUA.

Entretanto, o regime pode estar com medo de possivelmente perder a eleição mesmo que seja para partidos colaboracionistas que se mascaram de opositores. “Se fosse uma disputa minimamente transparente – o que na Nicarágua não é –, o voto do povo se voltaria para o candidato da oposição para punir Ortega e sua família, o que foi um pouco o que aconteceu em 1990. Ele já sabe disso porque já passou por essa experiência e não está disposto a que isso se repita.”, explica Elvira Cuadra.

Ele faz isso para eliminar também futuras disputas, inclusive dentro do próprio regime, o que, na minha opinião, talvez seja a principal ameaça que eles enfrentam. Por isso as purgas que vimos nos últimos anos, pois hoje tem sido mais perigoso ser simpatizante sandinista ou ter alguma dissidência interna do que até mesmo ser da oposição, já que os opositores não estão se manifestando no país.

Douglas Castro-Quezada, doutorando na Universidade de Oxford e ativista de direitos humanos

Um totalitarismo redobrado

O anúncio de Ortega também causa surpresa por ir na contramão de outros regimes totalitários do mundo. Mesmo Venezuela, El Salvador, China e Rússia, por exemplo, realizam eleições para dar um falso caráter democrático ao regime. Os pleitos também podem servir de avaliação de popularidade da ditadura. Esta é outra característica para cientistas políticos tratarem a Nicarágua como uma dinastia tal qual a norte-coreana, onde também não há eleições.

Mas mesmo esta aparência de democracia já não parece interessar ao regime sandinista. “Isso não importa para ele, porque ele está isolado da comunidade internacional”, afirma Wendy Flores. “Já é um regime que está desmascarado perante a comunidade internacional e que não tem nenhum remorso ou vergonha de admitir isso publicamente.”

Como sabem que, internamente, os nicaraguenses os desprezam, então simplesmente decidem admitir que não haverá eleições e causam essa comoção internacional porque ninguém esperava que eles verbalizassem isso abertamente.

Wendy Flores, advogada e vice-presidente do coletivo “Nicarágua Nunca Más”

A decisão provocou reações dos mais diversos líderes internacionais. No Brasil, o governo Lula – que já foi um aliado de primeira hora de Ortega, mas rompeu contato – publicou uma nota em que disse que “recebeu com preocupação” o fim das eleições. Já Marco Rubio, que é quem lidera as políticas de pressão dos EUA sobre a América Latina, condenou a decisão. “Isso demonstra sua verdadeira natureza autoritária”, disse.

“Isso é exatamente o que ele pensa, aquilo em que sempre acreditou, já que ele não acredita na democracia liberal. Ele foi muito honesto, mas cometeu o erro de dizer isso publicamente”, aponta Castro-Quezada.



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