“Estamos à procura de novas oportunidades”. Brico Depôt quer abrir mais lojas em Portugal


Num investimento de 9,3 milhões de euros, a Brico Depôt abriu a sua quarta loja em Portugal, a primeira em dez anos. E para os próximos anos a estratégia passar por estar em mais regiões do país. Chris Bargate, CEO da Brico Depôt para Portugal e Espanha explica ao JE o que mudou na estratégia do retalhista que é parte do grupo britânico Kingfisher.

A vossa empresa esteve 10 anos sem abrir nenhuma loja em Portugal, porque decidiram avançar agora? É o mercado que está a mudar, é a empresa que mudou a estratégia?
Houve dois períodos fundamentais e bastante desafiantes na história da Brico Depôt. Em primeiro lugar, o processo de venda, que aconteceu em 2019, e que colocou a empresa num estado de incerteza durante algum tempo. Felizmente, quando Thierry Garnier se juntou à Kingfisher como CEO, tomou a decisão de retirar a Ibéria do mercado, para a manter como um activo estratégico. Mas depois, muito rapidamente, veio a covid-19. Portanto, se juntarmos esses dois períodos há uma janela bastante longa em que não estávamos a pensar em abrir. Nos últimos dois a três anos, temos nos concentrado verdadeiramente nas fundações do negócio, tanto em Espanha como em Portugal. Por isso, pensámos em como reformular a nossa proposta de valor para o cliente, de forma a ter muito claro qual é o nosso propósito para os clientes e como o concretizamos. E também em reengenharia a nossa estrutura de custos para sermos mais rentáveis. Tenho o prazer de dizer que ambos foram relativamente bem-sucedidos. Por isso, temos agora um negócio que está a crescer, sendo mais rentável do que foi no passado. E ver o mercado ibérico e a economia ibérica de forma muito positiva. E digo especificamente ibérico porque penso que tanto Espanha como Portugal são economias atrativas, certamente quando as comparamos com o resto da Europa Ocidental na maioria dos principais indicadores económicos, seja o crescimento do PIB, seja a taxa de transações imobiliárias, seja a inflação, etc. Penso que vemos ambos os mercados como perspetivas de crescimento muito interessantes. Temos todo o apoio da Kingfisher para recomeçar a investir e estamos muito satisfeitos por estar a abrir a nossa quarta loja no Seixal esta semana.

E porquê uma nova loja no Seixal?

Quando se abrem lojas é um pouco como as relações amorosas, não é? Tem de se encontrar a pessoa certa no momento certo (risos). Estaria a mentir se dissesse que tínhamos um objetivo estratégico muito claro de que o Seixal seria o próximo local. Mas encontrámos o espaço que sentimos ser perfeitamente adequado para uma Brico Depôt num ótimo mercado, onde na realidade não temos cobertura a partir de outras lojas em Lisboa porque estão do outro lado do rio e demasiado longe. Por isso, queríamos algo no lado sul de Lisboa. E sentimos ser um ótimo ponto de partida.

É um investimento de nove milhões de euros. E quantos empregos vão criar com esta nova loja?
Sim, nove milhões de euros. E temos 74 colaboradores a trabalhar nesta loja. A loja tem pouco menos de seis mil metros quadrados, por isso é uma unidade grande. Cobrimos muitas categorias. A oferta é ampla.

Com esta abertura a Brico Depôt passa a ter quatro lojas em Portugal. E há planos para novas aberturas no futuro próximo?
Vale a pena dizer, claramente, que olhamos para Portugal como uma economia em crescimento. É um lugar onde queremos estar. Queremos alavancar a nossa marca de forma mais significativa e isso significa ser acessível a mais clientes. Sabemos que há grandes partes do país onde neste momento não temos cobertura e temos a ambição de ser considerados uma marca nacional em Portugal ao longo do tempo. Por isso, isso significa com certeza que precisamos de abrir mais lojas. Não vou colocar um número em quantas e quando, a não ser para dizer que temos um elevado nível de ambição e já estamos a procurar novas oportunidades.

Mas vai haver mais aberturas no decorrer deste ano?
Esta oportunidade do Seixal é um projeto que concretizámos em menos de dois anos desde que encontrámos o espaço até à abertura da loja. Mas isso é bastante atípico. Normalmente, os projetos têm um prazo de preparação mais longo. Por isso, penso que é muito improvável que abramos outra loja em Portugal este ano, mas estamos certamente à procura de oportunidades para abrir no futuro.

O vosso modelo de negócio é construir lojas de raiz ou comprar lojas que já existem?
Depende. Temos a sorte de fazer parte da Kingfisher, o que significa que temos um apoio financeiro significativo da empresa-mãe, o que significa que estamos abertos a diferentes tipos de espaços. Se olhar para a nossa carteira hoje, é uma mistura de espaços próprios e arrendados e estamos abertos a diferentes tipos de modelo económico consoante a localização.

Ao nível de consumo, o mercado português e espanhol é muito diferente?
A primeira forma de responder a isso é dizer que, em qualquer mercado que se observe, os consumidores valorizam as suas casas. Portanto, quer estejamos a falar de Espanha ou Portugal, quer estejamos a falar dos outros países dentro onde a Kingfisher está, sabemos que as casas são mais que uma coisa material para os consumidores. Por isso, com o nosso propósito, sendo dar melhores casas e melhores vidas a todos, pensamos que isso se aplica em todos os mercados. Penso que se depois se começar a entrar nos detalhes de como os clientes compram, diria que há duas diferenças principais entre os diferentes países onde operamos. A primeira é a gama de produtos e precisamos de garantir que há adaptação suficiente na nossa gama de produtos para se adequar ao consumidor português, e já temos um número significativo de produtos locais na oferta. E depois a segunda é garantir que temos as soluções certas para ajudar os clientes a comprar produtos, e isso pode significar onde e como disponibilizamos serviço, pode significar as soluções de pagamento que disponibilizamos — coisas como o Multibanco, por exemplo, que seria fundamental aqui em Portugal, mas algo que não veríamos noutros locais. Por isso, garantimos que adaptamos a oferta para ir ao encontro das necessidades do mercado local e continuaremos a fazê-lo.

Dentro da vossa gama vendem produtos fabricados em Portugal?
Na Kingfisher, temos uma oferta significativa de marcas próprias e exclusivas da Kingfisher e que formam a base da proposta da Brico Depôt. Depois complementamos isso com uma mistura de marcas internacionais. E depois, para além disso, complementaríamos com marcas locais, particularmente em categorias onde há mais necessidade. Por isso, se pensar no mercado português, pensando em produtos de construção, muitas vezes há requisitos locais específicos — mesmo dentro de Portugal há diferenças entre o Sul e o Norte. Por isso, precisamos de conseguir adaptar para isso. E depois em algumas categorias como a pintura, sabemos que marcas como a Dyrup são muito importantes para o consumidor português, mas não são particularmente conhecidas em Espanha. Por isso, tomamos decisões locais com base nas categorias específicas.

Ainda sobre o consumo dos portugueses, há uma mudança com a nova geração que vai às vossas lojas — o consumidor está a mudar. É mais conectado com as redes sociais, com a Inteligência Artificial, etc. Como estão a trabalhar essas alterações?
Tenho uma perspetiva talvez ligeiramente diferente sobre isto. A maioria dos nossos clientes são proprietários de habitação ou senhorios. Por isso, isso significa imediatamente que o consumidor médio — e diria que isso é verdade para a maioria dos negócios no nosso sector — o consumidor médio é tipicamente um pouco mais velho do que a média de outros retalhistas. E certamente há trabalho a fazer na economia para facilitar para os consumidores mais jovens comprar casas ou comprar a sua primeira habitação, porque esse é o ponto de entrada crítico para entrar na Brico Depot. Em segundo lugar é que sabemos que precisamos estar no radar desses consumidores agora, porque quando vierem a comprar a sua própria casa, provavelmente vão pensar sobre isso de formas muito diferentes. Por isso, temos um programa sólido utilizando as redes sociais para criar conteúdo mais envolvente, que fala com os consumidores de uma forma ligeiramente diferente. Por isso, isso é muito importante.

Em termos de resultados financeiros, como correu o ano passado [2025]?
Não desagregamos o nosso desempenho entre Espanha e Portugal. Por isso, todos os nossos números são apresentados ao nível da Ibéria. Mas no último ano financeiro, que terminou a 31 de Janeiro de 2026, registámos 425 milhões de libras em vendas (29,9 milhões de euros). E é importante dizer que são libras porque somos uma empresa cotada no FTSE 100, e tudo o que indicamos são em libras esterlinas. E isso foi mais 8,8% face ao ano anterior [2024] em vendas. E  registámos um crescimento do lucro de 86% face ao ano anterior.

E 2026, como correu a primeira metade do ano?

No primeiro trimestre, estávamos a crescer 6,6%. Por isso, pode ver que a história continuou de alguma forma. Quando revelarmos os resultados, em setembro, teremos os números do primeiro semestre.

E como a evolução do Brico Depôt nos próximos anos?
Esta manhã estava no aeroporto a ouvir Elon Musk a falar sobre como vê o mundo daqui a cinco anos. E se ele tiver razão, preciso de ajustar a minha resposta (risos), mas vamos esquecer isso.Gostaria de pensar que daqui a cinco anos, e falando do mercado português,  sejamos considerados uma marca nacional em Portugal, no qual os consumidores vêem-nos como o lugar a que recorrer para as melhores soluções de valor para os seus projctos de melhoria habitacional.





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