Israel Campos: um pensamento em diálogo permanente com Angola


1. Israel, a impressão que fica ao acompanhar o seu trabalho ao longo dos anos é que, mais do que narrar Angola, tenta compreender como Angola se lembra e pensa sobre si. A memória tornou-se uma ferramenta para ler o país?

Israel Campos: Primeiro, gostava de agradecer esta oportunidade de falar ao Novo Jornal, um jornal que leio muito e cujo trabalho acompanho. Em relação à memória, nos últimos anos passei a ter um interesse muito particular pela história, muito influenciado também pelo meu interesse enquanto leitor. Li muitos romances históricos, e também um bocado enquanto investigador, porque estou a trabalhar num projecto de doutoramento que é muito histórico em relação ao jornalismo angolano.

Creio que essas duas componentes me empurraram para esse lugar onde sinto que é a história que oferece perspectivas muito interessantes para compreender a contemporaneidade. Vou recorrendo com muita regularidade à memória como esse ponto de partida que sempre me tenta ajudar a ler os dias, os problemas e os conflitos do nosso País, mas também os dias, os problemas e os conflitos internos que tenho comigo mesmo.

Em parte, isso vem das leituras que faço, tanto no campo literário como académico, mas também de uma dimensão pessoal: o facto de ter crescido como um miúdo muito atento às conversas que ouvia entre os meus tios, as minhas tias e as minhas avós.

Cresci num ambiente familiar onde se falava muito das marcas do passado e de acontecimentos que tinham ocorrido há muito tempo. Hoje, isso leva-me a pensar que a memória é sempre um lugar de descoberta. É essa grande Caixa de Pandora que tem tanta coisa para nos explicar. E isso influencia também o meu trabalho de escrita.

2. Há pouco referiu que está a desenvolver um projecto de doutoramento ligado à história do jornalismo angolano. O que mais o fascina nesta investigação?

Israel Campos: Bem, esta minha pesquisa já leva três anos. Uma das grandes alegrias que essa pesquisa me proporcionou foi, de facto, essa possibilidade de trabalhar com muita intensidade na questão dos arquivos. Há até algumas pessoas que já me chamam “rato de arquivo”, porque passei os últimos dois anos a trabalhar muito nos arquivos. E o que estou a tentar fazer é reconstruir a memória sobre a prática do jornalismo em Angola no Pós-Independência, sobretudo aqueles anos imediatamente posteriores à Independência, em especial o final da década de 1970 e os anos 80.

Uma das coisas que mais me surpreende de facto é como a prática de jornalismo daquela altura contraria muito a de hoje porque era uma realidade onde não existiam órgãos privados, só imprensa pública, num contexto de partido único, em que a imprensa era efectivamente muito controlada e em que havia todo um conjunto de orientações ideológicas para o trabalho de imprensa.

O que me fascina mais, não sei se é uma grande descoberta, é a forma como os jornalistas desse período conseguiam encontrar caminhos alternativos para lidar com essa censura, com esse controlo excessivo que vem sobretudo do Partido-Estado. Portanto, este engenho e essa capacidade que os jornalistas da imprensa pública conseguem encontrar para, meio que diria, driblar ou negociar a sua autonomia dentro daquele contexto é fascinante!

Acho que faria muito bem a todos nós, sobretudo os jornalistas ou estudantes de jornalismo, olhar para essas gerações dos anos 70 e 80 como um grande recurso, até de inspiração, porque nos ensina muita coisa sobre autonomia jornalística que é um grande desafio para os jornalistas hoje em Angola.

3. A propósito de falarmos sobre arquivos, conte-nos um pouco sobre o episódio com o Arquivo Nacional que gerou debate público e uma resposta do Ministério da Cultura. Depois dessa experiência, como tem sido pesquisar em jornais e documentos históricos em Angola e noutros países?

Israel Campos: É interessante este episódio que aconteceu no Arquivo Histórico Nacional. Considerei que foi uma coisa muito simples, o facto de ter utilizado as minhas redes sociais, não sei se era tanto para fazer uma denúncia, mas para relatar um bocado como é que tinha sido a minha experiência lá no Arquivo, e acabei por receber aquela resposta que até hoje considero um bocado estranha do Ministério da Cultura.

Acho que o que existe e não é um caso isolado de Angola, também senti isso noutras realidades do nosso continente, é que existe um grande receio pelo desconhecido. Os arquivos são sempre instituições geridas com muito cuidado e isso não é só em Angola, isso é em várias partes do mundo. Quer-se saber o que as pessoas vão lá procurar, temos geralmente de ter um registo feito, porque se entende que o Arquivo conserva material muito sensível que deve ser muito bem preservado por questões até históricas e da memória colectiva.

Mas o que senti no caso do nosso Arquivo é que nem sequer tive a possibilidade de articular e entender o que existia lá porque existem algumas barreiras burocráticas que impedem que esse diálogo aconteça com fluidez.

Não estou a dizer que não existe um diálogo, existem alguns pesquisadores que vão ao Arquivo e conseguem fazer coisas, mas há muita gente que se queixa dessa burocracia excessiva e que de alguma forma limita.

Alternativamente ao Arquivo Histórico, consegui trabalhar na Biblioteca Nacional, onde tive uma experiência completamente diferente, há lá uma equipa muito, muito aberta e disponível também a ajudar os pesquisadores.

Também estive no Arquivo do Jornal de Angola e visitei outros arquivos, na Inglaterra, em Portugal, inclusive na Suíça, onde consegui encontrar, não só cópias de jornais desse período, que também me interessavam, mas sobretudo depoimentos, livros históricos e de outras disciplinas sobre esse período do socialismo em Angola.

Essas foram fontes interessantes que me ajudaram a compreender como era feito o trabalho, não só o trabalho dos jornalistas, mas como era a sociedade nessa altura e sobre como é que as classes de profissionais interagiam umas com as outras.

E, portanto, nessa dimensão, tanto ler o jornal, o próprio Jornal de Angola, mas não só, ler o Diário de Luanda, o Província de Angola, o título que antecede o Jornal de Angola, ajudou-me a compreender melhor esse período. Depois, tive de combinar essas leituras e investigações com entrevistas.

Tive a felicidade de entrevistar alguns dos jornalistas que estiveram no Jornal de Angola, mas também na ANGOP durante os anos 70. Falei com muita gente, posso pensar no José Mena Abrantes, por exemplo, que esteve muitos anos na ANGOP.

No Jornal de Angola, falei com o Ramiro Aleixo, com o João Melo, que esteve tanto na ANGOP como no Jornal de Angola, e que a certa altura até acumulou funções de Director nos dois órgãos no final dos anos 70.

Falei com a Josefa Lamberga, com a Sara Fialho, com o Reginaldo Silva, que também é um jornalista muito influente desse período.
É uma longa lista de jornalistas, mas eles realmente ajudaram-me depois a complementar toda essa pesquisa que fiz nos arquivos com os depoimentos, subsídios que eles tinham a dar.

Então, a ideia é um bocado reconstruir, nunca conseguimos reconstruir na totalidade, já passaram alguns anos, infelizmente nem tudo está documentado, nem tudo está escrito, mas existem realmente aquelas experiências que fazem muito sentido documentar. E esse trabalho surge como um contributo que vem dar sequência a trabalhos que já foram começados por outras pessoas.

O próprio João Melo já tinha feito uma tese de Mestrado nos anos 80 sobre o Jornal de Angola, o Albino Carlos tem uma tese de doutoramento sobre o Jornalismo. A própria Marissa Moorman tem um trabalho sobre a história da Rádio Nacional. Não é propriamente sobre o jornal, mas a história sobre rádio, e também tem subsídios interessantes sobre os jornalistas.

Então, penso que um doutoramento é sempre uma forma de acrescentar um bocadinho mais naquilo que existe e é um bocado a minha intenção com esse trabalho que tenho feito.

4. Quais são as características que observa nesses jornalistas das décadas de 1970 e 1980 que considera mais marcantes? Fazendo um paralelo com o jornalismo actual, como interpreta a diferença entre uma geração que trabalhou num contexto de partido único, com um forte pendor literário, menos recursos e maior controlo, e uma geração que hoje dispõe de mais formação e ferramentas?

Israel Campos: Um ponto importante para entender esta primeira geração, e que também é um dos capítulos do meu trabalho, é que ela não vem de uma tradição nem de uma educação formal em relação ao jornalismo. O primeiro curso de Jornalismo surge em 1982. Portanto, todos os que entram no jornalismo após a Independência, entre 1975 e o início dos anos 80, primeiro são muito jovens e depois são pessoas que não têm uma formação propriamente como jornalistas. Uns vêm já com o Ensino Médio feito e outros estavam a fazer o Ensino Médio, mas vão efectivamente aprender a profissão na prática.

Nessa altura, há um conceito muito popular que é o de “on-the-job training”, em que aqueles jornalistas mais experientes, que fazem a transição do período colonial para o período pós-colonial e permanecem nas redacções em Angola, ajudam esses jovens que entram em 1975 a aprender a profissão.

Entretanto, muitos deles vão-se formar, nessa altura há uma grande cooperação com os países socialistas. Alguns têm possibilidade de ir para países socialistas fazerem formação. Outros vão fazer formação neste primeiro curso de Jornalismo que surge em 82. Uma das grandes diferenças que noto é a audácia.

Para além de não existir uma licenciatura, que só vai surgir muito mais tarde, nos anos 90, havia uma preparação intelectual muito forte, são jovens que já leram várias coisas, que têm um grande interesse por literatura, muitos deles são autodidactas, muitos deles têm alguma forma de engajamento político. Toda essa bagagem intelectual que têm permite que pratiquem um jornalismo muito audaz. Há uma audácia na escrita desta geração que nos falta muito hoje.

Apesar de todo aquele controlo, toda aquela conjuntura do Partido Único, em que o partido produzia até documentos orientadores que diziam orientar a actividade dos jornalistas, são jornalistas muito ousados, que vão fazer muitas reportagens muito para além da expectativa do Partido-Estado, tanto é que alguns deles acabam por ter problemas e são punidos.

Qual é o tipo de punição? Às vezes, era ser transferido de um órgão para outro, porque todos os órgãos eram do Estado. Há outros que têm outro tipo de punição, exactamente por serem muito audazes.

Hoje, lendo o Jornal de Angola, o meu caso de estudo em particular, sinto muito essa diferença. Haja a crítica, haja a denúncia, a questão da crónica é muito presente e é um elemento muito interessante.

Não estou a dizer que são reportagens que visam propriamente derrubar o partido único, há limites, mas mesmo dentro desses limites há uma audácia dessa pena jornalística, própria desta primeira geração, que infelizmente não nos acompanha até aos dias de hoje.

Não vou generalizar, porque acho que ainda existem jornais que continuam a ter penas interessantes, como é o caso do NJ, mas, no cômputo geral, são coisas que fazem muita falta hoje.

5. Considera que existe um fosso geracional que pode estar a dificultar a transmissão de conhecimento e experiência na formação dos jornalistas?

Israel Campos: Bem, tenho sempre muitas reticências em falar dessa questão da transição geracional. Acho que, de uma maneira ou de outra, a transição foi acontecendo.

Por exemplo, no meu próprio caso, lembro-me de ter entrado para a Rádio Nacional em 2012 ou 2014 de ter aprendido com pessoas no jornalismo como o Africano Neto e o Amílcar Xavier, que vêm dessas gerações dos anos 80 e início dos anos 90.

Essa transição vai ocorrendo, sobretudo para quem chega aos órgãos públicos. Agora, estamos a operar em contextos completamente diferentes e não sei em que medida essa alteração do contexto tem impacto também na nossa produção jornalística de hoje.

Estou a pensar que esta geração com a qual tenho trabalhado, e por força da minha pesquisa, parece-me uma geração que toma o jornalismo como a sua principal e única actividade.

Não sinto que, naquela altura, houvesse algum tipo de aspiração em que as pessoas utilizassem o jornalismo para ter maior exposição. Essa geração parecia fazer jornalismo e ver-se apenas como jornalista.

Ao passo que me parece que hoje já existem outras aspirações ligadas à prática jornalística na nossa geração e, portanto, creio que isso efectivamente também tem algum impacto no nosso comportamento e na forma como esta nova geração, da qual faço parte, actua.

6. Chegou à Residência Jan Michalski depois de ter sido seleccionado de entre 67 autores para integrar o programa, onde ficará até 7 de Setembro. Como tem sido esta experiência e o que espera colher deste período dedicado à escrita? Está a trabalhar num novo projecto ou será uma continuidade de E o céu mudou de cor?

Israel Campos: Fui muito bem recebido. A equipa da residência é extraordinária. Eles realmente preparam todas as condições para que o escritor em residência possa ter tempo, espaço e todas as condições necessárias para escrever. Isso é fantástico.

O princípio da residência é compreender que muitos escritores não têm a possibilidade de trabalhar apenas como escritores, fazem simultaneamente outras actividades. Portanto, a ideia da residência é trazer os escritores para uma zona aqui da Suíça, que é uma espécie de countryside (zona campestre), para que, durante aquele período, a pessoa possa estar dedicada exclusivamente à escrita.

O processo de selecção também teve como base um projecto. Então, vim tentar desenvolver este novo projecto. Não será uma continuidade de “E o céu mudou de cor”. Será algo diferente, muito influenciado, de alguma maneira, pelo meu interesse pela memória e pela infância. Acho que será uma obra voltada para essa articulação entre a memória e a infância em Angola.

A perspectiva é conseguir escrever alguma coisa de jeito até ao final da residência. Também estou feliz porque estou acompanhado por escritores da Inglaterra, da Alemanha, da Itália e da Suíça. Pretendo descansar um bocado, desligar um pouco a ficha dos outros compromissos que tenho, para tentar produzir alguma coisa e ver no que é que dá.

Nunca começo um projecto a saber se vai ser um livro de contos ou um romance. Deixo um pouco a escrita guiar o caminho e mostrar para onde quer ir.

7. Falou sobre deixar que a escrita o guie. Aos 18 anos, disse ao Jornal de Angola que “sonhava com uma Angola que dignificasse os angolanos”. Hoje, olhando para esse sonho com a experiência que foi acumulando entre o jornalismo e a literatura, sente que o País está a trilhar esse caminho à velocidade que imaginava?

Israel Campos: Eu não me lembrava que tinha dito isso ao Jornal de Angola. Na verdade, o que estava a fazer aí era reproduzir um sonho colectivo e que me parece que vem até desde antes da Independência. Acho que também uma das grandes motivações da Independência era essa, a de dar dignidade às pessoas.

E claramente, se olharmos hoje para a nossa realidade, existem muitos desafios que concorrem para a concretização disso, da dignidade. Nem precisamos de olhar para estudos, nem fazer grandes análises políticas; basta andarmos pelas cidades do nosso País e conseguimos identificar muito facilmente que ainda existem muitos angolanos em condições que até podemos classificar como desumanas e entender que temos muitos desafios.

Então considero que esse sonho colectivo nos persegue, e vai-nos perseguindo. Perseguiu a geração dos meus bisavós, dos meus avós, dos meus pais e continua aqui nesta, a nossa geração, em que não sabemos, e essa é a grande incógnita das nossas vidas, enquanto angolanos, quando é que efectivamente conseguiremos edificar um País de maior inclusão.

Não de inclusão discursiva, mas de maior inclusão, na prática. Então, nesse sentido, sim, acho que estamos todos um bocado num estado de desilusão em relação ao estado de coisas.



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