No Top 100, 58% são dos Estados Unidos face a 23% e 16% da Ásia e Europa, duas são canadianas e uma australiana. Mas a que se deve a disparidade entre estes continentes? Inovação, financiamento, regulação, e composição setorial são alguns dos fatores que explicam as diferenças.
As empresas norte-americanas dominam o ranking das cotadas mais valiosas do mundo. No Top 100, 58% são dos Estados Unidos face a 23% e 16% da Ásia e Europa, duas são canadianas e uma australiana. Mas a que se deve a disparidade entre estes continentes? Inovação, financiamento, regulação e composição setorial são alguns dos fatores que explicam as diferenças.
O head of trading do Banco Carregosa, João Queiroz, diz que a atual distribuição de valor nos mercados acionistas resulta da “interação” entre sistemas de financiamento, capacidade de inovação, alocação de poupança, enquadramento regulatório e dinâmica demográfica, criando vantagens competitivas distintas entre regiões. “Ainda assim, esta realidade deve ser interpretada como o retrato de uma determinada fase do ciclo económico e financeiro, e não como uma hierarquia permanente”, salienta.
“Mas a diferença não está apenas no número de empresas. Segundo a [consultora] PwC, a capitalização bolsista agregada do Global Top 100 atingiu 51,8 biliões de dólares em março de 2026, um aumento de 22% face ao ano anterior. Dentro desse universo, as empresas norte-americanas representavam cerca de 75% da capitalização bolsista total, o que mostra que, além de terem mais empresas no ranking, estas também tendem a ter uma dimensão média superior”, refere o analista da XTB João Cruz.
João Cruz defende que esta dominância norte-americana, quer no número de cotadas como na concentração de capital, está muito ligada à liderança dos Estados Unidos em setores como inteligência artificial, semicondutores, cloud, software e plataformas digitais. “A própria tecnologia representava cerca de 36% da capitalização bolsista total do Global Top 100, com uma valorização agregada de aproximadamente 18,7 biliões de dólares. Ou seja, o mercado tem atribuído prémios de avaliação muito elevados às empresas com maior exposição à digitalização, IA e capacidade de escala global”, acrescenta.
“Para os investidores de retalho, isto significa que investir em grandes índices globais é, na prática, assumir uma exposição muito relevante aos Estados Unidos e, em particular, às grandes tecnológicas. Esta concentração tem sido positiva enquanto o setor tecnológico lidera o mercado, mas também aumenta a dependência das carteiras globais relativamente a um número reduzido de empresas e setores”, alerta o analista da XTB.
A membro da equipa de investimento do Allianz European Autonomy da Allianz Global Investors (AllianzGI), Virginie Dubois, considera que este forte domínio dos Estados Unidos “está claramente” ligado à predominância do setor tecnológico no seu mercado, tendo em conta que este setor cresceu o dobro do [índice] MSCI World Index (34% face a 17% no período entre março de 2025 e março de 2026).
“O peso relativo das “7 magníficas” (Apple, Microsoft, Nvidia, Alphabet, Amazon, Meta e Tesla) no mercado norte-americano atingiu um nível de concentração bolsista sem precedentes. De facto, representam um terço do S&P 500 em termos de capitalização, bem como 47% da capitalização bolsista total das 100 maiores empresas mundiais”, assinala Virginie Dubois.
Virginie Dubois salienta que é possível identificar três fatores que favoreceram os Estados Unidos e levou o país a dominar o ranking das cotadas mais valiosas. Um deles é por os Estados Unidos terem um ecossistema “muito forte” de investigação universitária e industrial, em particular em torno de Stanford, Berkeley e das empresas de Silicon Valley. A isto junta-se um enquadramento económico e regulatório “especialmente favorável” ao capital de risco, que abriu “um ciclo de inovação acelerado” propício ao surgimento das ‘big-tech’.
“Por fim, estas desenvolveram-se num amplo mercado doméstico com mais de 330 milhões de habitantes, o que permitiu alcançar rapidamente efeitos de escala e de rede significativos, segundo a lógica de “winner takes most (vencedor leva a maioria)”, em que alguns líderes estruturam toda a economia digital e reforçam as barreiras à entrada nos seus mercados”, referiu.
O head of trading do Banco Carregosa considera que um dos elementos mais relevantes, que justifica este peso norte-americano, reside também na organização dos mercados de capitais. “Nos Estados Unidos, as empresas recorrem predominantemente aos mercados acionistas e obrigacionistas para financiar o crescimento (75% versus 25% em crédito e financiamento bancário, o inverso da Europa), beneficiando de uma elevada liquidez, profundidade de mercado e acesso eficiente ao capital”, explica.
“Em contraste, grande parte da Europa continental continua assente num modelo demasiadamente dependente do financiamento bancário que estimula os depósitos com Fundos de Garantia nacionais. Consequentemente, uma parcela significativa do valor económico gerado pelas empresas europeias não se traduz necessariamente em capitalização bolsista. A isto acresce a fragmentação institucional europeia, caracterizada por diferentes regimes fiscais, regulatórios e jurídicos, que limita a criação de um mercado de capitais verdadeiramente integrado e reduz a capacidade de concentração de liquidez observada nos Estados Unidos”, adianta João Queiroz.
O head of trading do Banco Carregosa diz ainda que a transformação tecnológica das últimas duas décadas favoreceu o ecossistema norte-americano. “A liderança global em áreas como software, computação em cloud (ou nuvem), semicondutores avançados, inteligência artificial, computação quântica e engenharia aeroespacial permitiu o surgimento de empresas com modelos de negócio altamente escaláveis e fortes efeitos de capilaridade na economia. Estes fatores explicam a concentração de valor em torno das chamadas mega-capitalizações tecnológicas”, explica.
“Por contraste, a Europa mantém uma especialização mais significativa em setores como indústria, saúde, luxo, energia e serviços financeiros, segmentos geralmente mais maduros e com ritmos de crescimento estrutural menos acelerados e que absorvem a camada mais jovem da sociedade com formação em ciência. Tal não significa uma menor qualidade empresarial, mas antes uma composição setorial diferente, que tende a gerar múltiplos de avaliação mais moderados”, diz João Queiroz.
A cultura de investimento e de afetação de capital, do ponto de vista do head of trading do Banco Carregosa, é outro fator que é “frequentemente subestimado” e prende-se com a cultura de investimento e de afetação de capital.
Nos Estados Unidos, salienta João Queiroz, a cultura financeira e a participação das famílias nos mercados acionistas é “significativamente superior”, apoiada por sistemas de poupança para a reforma fortemente expostos a ações. “Esta procura estrutural contribui para uma valorização sustentada dos ativos financeiros. Em simultâneo, a utilização recorrente de programas de recompra de ações reforça o crescimento do lucro por ação e tende a apoiar as avaliações de mercado. Na Europa, a poupança das famílias continua mais concentrada em depósitos, obrigações e imobiliário, reduzindo o financiamento e a procura doméstica por ações e contribuindo para o chamado “desconto europeu” frequentemente identificado pelos investidores internacionais”, refere.
“A posição internacional do dólar dos Estados Unidos constitui igualmente um elemento diferenciador muitas vezes destacado. Enquanto principal moeda de reserva mundial, o dólar beneficia de fluxos globais de capital que procuram liquidez, segurança e profundidade de mercado. Este estatuto gera uma procura estrutural por ativos financeiros norte-americanos, incluindo ações, proporcionando um suporte adicional às avaliações bolsistas. Embora o euro desempenhe um papel relevante no sistema financeiro internacional, a sua influência permanece substancialmente inferior à da moeda norte-americana”, adianta João Queiroz.
Europa fica para trás nos hyperscalers
Relativamente ao menor peso da Europa no ranking das cotadas face aos Estados Unidos, a membro da equipa de investimento do Allianz European Autonomy da Allianz Global Investors (AllianzGI), Virginie Dubois, salienta que na Europa, não dispomos de verdadeiros ‘hyperscalers’ (hiperescaladoras) equivalentes aos do mercado norte-americano.
“O peso do setor tecnológico no mercado europeu (tendo como referência o MSCI Europe) ronda os 10% e, se nos centrarmos no grupo das maiores capitalizações bolsistas — as GRANOLAS (GSK, Roche, ASML, Nestlé, Novartis, Novo Nordisk, L’Oréal, LVMH, AstraZeneca, SAP, Sanofi), cujo acrónimo foi proposto pela Goldman Sachs há alguns anos — estas 11 empresas representam um quarto do mercado acionista europeu, com uma dispersão setorial muito maior”, explica Virginia Dubois.
Contudo, sublinha Virginia Dubois, a Europa é competitiva à escala global, mas é competitiva sobretudo em setores como o luxo, a automatização industrial, a farmacêutica ou a aeronáutica. “Estas indústrias geram um valor económico considerável, mas costumam apresentar ritmos de crescimento e múltiplos de valorização inferiores aos observados nas tecnologias digitais e na IA. Assim, a Europa cria valor, mas este traduz-se, em menor medida, em capitalização bolsista”, explica.
“Além do domínio bolsista, a revolução digital em curso coloca um enorme desafio estratégico à Europa, que enfrenta uma dependência crescente de infraestruturas digitais desenvolvidas fora das suas fronteiras: computação na nuvem, semicondutores avançados, modelos de IA, plataformas digitais ou soluções de cibersegurança”, sublinha.
Virginia Dubois refere que este é precisamente um dos diagnósticos apresentados pelo relatório Draghi, publicado em 2024, bem como por várias iniciativas da Comissão Europeia e pela iniciativa Tibi em França, que visa mobilizar os investidores privados “para apoiar” o ecossistema tecnológico europeu.
“Estas iniciativas sublinham a necessidade de mobilizar mais capital para as empresas tecnológicas europeias, a fim de reforçar a competitividade, a inovação e a autonomia estratégica do continente. Desde então, foram lançadas iniciativas neste sentido a nível europeu, como: (i) a estratégia ‘Década Digital’, considerada a bússola digital da região; (ii) os programas de financiamento como o Digital Europe para reduzir dependências tecnológicas externas; (iii) as medidas regulamentares como o AI Act ou a regulação das grandes plataformas digitais; e (iv) iniciativas industriais como o Chips Act ou o Cloud and AI Development Act”, refere.
“A inovação tecnológica é, sem dúvida, um fator-chave para a soberania europeia”, afirma Virginia Dubois. “De facto, constitui um eixo central da nossa estratégia de ações dedicada à autonomia europeia. Comprometemo-nos a investir pelo menos metade dos ativos desta estratégia em catalisadores tecnológicos, que incluem empresas ligadas à transformação digital, à defesa e cibersegurança, à saúde e às tecnologias energéticas. E fazemo-lo apoiando o desenvolvimento de pequenas e médias empresas inovadoras nestes domínios, que poderão tornar-se os campeões europeus do futuro. De facto, a nossa estratégia investe entre 10% e 30% em pequenas e médias capitalizações”, adianta.
“Num mundo em que a soberania económica e tecnológica é um desafio fundamental, consideramos que a autonomia europeia representa uma oportunidade de investimento incontornável. A nossa estratégia procura, desde já, captar os futuros líderes desta transformação, no centro das dinâmicas de crescimento do amanhã”, conclui Virginia Dubois.
Para o analista da XTB, o menor peso da Europa no ranking das cotadas mais valiosas do mundo, face às suas congêneres norte-americanas, “não significa ausência” de empresas de qualidade. “A região continua a ter líderes globais em setores como luxo, saúde, indústria, banca, energia e semicondutores”, explica.
João Cruz salienta que a principal explicação para o menor peso das cotadas europeias está na composição setorial. “A Europa está mais exposta a setores maduros e tradicionais, enquanto os Estados Unidos concentram uma parte muito significativa das empresas que mais beneficiaram da expansão da inteligência artificial, dos semicondutores e da economia digital. No MSCI Europe, por exemplo, os setores financeiro e industrial representam cerca de 23,7% e 19,3% do índice, respetivamente, enquanto a tecnologia pesa apenas cerca de 9,4%”, descreve.
E a isto junta-se a escala. “O MSCI Europe reúne mais de 400 empresas, mas tem uma capitalização agregada de cerca de 14,3 biliões de dólares, bastante abaixo da capitalização total do Global Top 100. Além disso, a maior empresa do MSCI Europe tinha uma capitalização de cerca de 627 mil milhões de dólares, um valor muito inferior ao das maiores tecnológicas norte-americanas, que já ultrapassam individualmente a fasquia de 1 bilião de dólares”, explica o analista da XTB.
João Cruz diz ainda que fragmentação do mercado europeu também tem peso. “Ao contrário dos Estados Unidos, a Europa continua dividida entre várias bolsas, regimes fiscais, enquadramentos regulatórios e mercados de capitais nacionais. Isto dificulta a criação de empresas com a mesma escala, liquidez e visibilidade internacional das grandes cotadas norte-americanas”, acrescenta.
No caso da Europa, diz João Queiroz, o continente europeu enfrenta “desafios estruturais adicionais” relacionados com os custos energéticos e a evolução demográfica já demasiado destacada. “Desde a crise energética de 2022, muitos setores industriais europeus operam com custos superiores aos seus concorrentes norte-americanos. Simultaneamente, o envelhecimento populacional, inversão da pirâmide etária e taxas de crescimento potencial mais reduzidas condicionam as expectativas de expansão económica de longo prazo, influenciando naturalmente as projeções de crescimento dos resultados estimados empresariais e, consequentemente, os níveis de valorização atribuídos pelo mercado”, acrescenta.
Japão pesa na Ásia
No caso das cotadas asiáticas, João Queiroz diz que se aplica uma lógica distinta. “O seu peso nos grandes índices globais assenta sobretudo na dimensão da economia japonesa, na relevância de conglomerados industriais e financeiros de grande escala e na importância estratégica de setores como a indústria automóvel, a robótica, a maquinaria industrial e os materiais”, explica.
“Nos últimos anos, reformas de governo societário no Japão e uma melhoria da rentabilidade empresarial contribuíram para reforçar a atratividade da região. Contudo, a Ásia desenvolvida não apresenta, em termos agregados, uma concentração de plataformas tecnológicas globais comparável à observada nos Estados Unidos. Adicionalmente, países como Taiwan e a Coreia do Sul que desde a década de ’80 e ’90 se inspiraram no modelo nipónico, criam uma autocorrelação e ampliam o feito da região”, acrescenta o head of trading do Banco Carregosa.
O analista da XTB salienta que no caso das cotadas asiáticas estas beneficiam de “grandes mercados domésticos, cadeias industriais ligadas à tecnologia e semicondutores, e empresas de grande dimensão em áreas como eletrónica, internet, consumo, banca e energia”.
Liderança norte-americana reflete vantagens estruturais
O head of trading do Banco Carregosa alerta para a importância de se “evitar conclusões simplistas e precipitadas”. Para o mesmo responsável, a liderança norte-americana reflete “vantagens estruturais reais”, mas também incorpora “avaliações exigentes e uma crescente concentração” do mercado num número relativamente reduzido de empresas, o que paradoxalmente “pode ter impactos sistémicos”.
João Queiroz refere que o menor peso da Europa no ranking das cotadas mais valiosas do mundo pode ser interpretado tanto como sinal de “limitações estruturais” como uma “potencial” fonte de oportunidades de valorização relativa e de diversificação.
“Em última análise, a distribuição atual do valor bolsista mundial reflete sobretudo a localização predominante da inovação, do capital de risco e dos fluxos de investimento globais. A história dos mercados demonstra, porém, que estes centros de gravidade podem deslocar-se ao longo do tempo, acompanhando mudanças tecnológicas, económicas e geopolíticas de maior amplitude”, diz o head of trading do Banco Carregosa.
O analista da XTB considera que estes rankings, no caso concreto o das cotadas mais valiosas do mundo, mostram onde o mercado está disposto a “pagar maiores prémios” de crescimento. “Neste momento, esse prémio continua muito concentrado nos Estados Unidos, sobretudo nas empresas ligadas à tecnologia, à inteligência artificial e aos modelos de negócio com escala global”, conclui.











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