Um ataque informático a carteiras frias da Coldcard permitiu a hackers roubar cerca de 1.755 bitcoins, avaliados em aproximadamente 96 milhões de euros, a partir de cerca de cinco mil carteiras digitais.
A primeira vaga do ataque decorreu em apenas 41 minutos e resultou no desaparecimento de cerca de 70 milhões de dólares, o equivalente a 60,8 milhões de euros. Nos dias seguintes, os criminosos terão continuado a retirar fundos, elevando o valor total roubado em mais 40 milhões de dólares.
De acordo com o Cinco Días, os atacantes exploraram uma vulnerabilidade relacionada com a forma como alguns dispositivos antigos geravam as frases-semente utilizadas para proteger as criptomoedas.
Carteiras frias eram consideradas uma das opções mais seguras
As chamadas carteiras frias (ou cold wallets) funcionam como cofres digitais destinados a guardar as chaves de acesso a ativos como a bitcoin.
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Ao contrário de outras soluções, estes dispositivos não permanecem ligados à Internet, o que reduz significativamente o risco de ataques remotos, acessos não autorizados ou roubo de dados.
Governos, empresas e investidores particulares recorrem a este tipo de armazenamento para manter o controlo direto sobre os seus ativos digitais, sem dependerem de plataformas externas.
O ataque à Coldcard mostrou, contudo, que a ausência de ligação à Internet não elimina todos os riscos.
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Falha estava na geração das frases-semente
Quando uma carteira é configurada, o dispositivo cria normalmente uma sequência aleatória de 12 a 24 palavras, conhecida como frase-semente.
Esta combinação funciona como uma chave principal. A partir dela são geradas todas as chaves privadas necessárias para controlar os fundos e autorizar transações na blockchain.
Quem tiver acesso à frase-semente pode recuperar a carteira e movimentar as criptomoedas nela armazenadas.
Segundo Ferdinando Ametrano, presidente executivo da CheckSig, todas as chaves privadas derivam desta combinação inicial. Por isso, descobrir a semente permite obter acesso a todas as restantes chaves.
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Vulnerabilidade terá começado em 2021
A origem do problema remonta a 2021.
Alguns dispositivos, em vez de produzirem combinações totalmente aleatórias e praticamente impossíveis de adivinhar, criaram frases-semente através de um sistema mais previsível do que o esperado.
O número de combinações possíveis era, assim, inferior ao que deveria ter sido.
Os hackers puderam testar sucessivamente essas hipóteses num computador comum até encontrarem as combinações corretas e entrarem nas carteiras.
O ataque não exigiu a instalação de programas maliciosos, campanhas de phishing ou acesso físico aos dispositivos.
Investidor perdeu 1,6 milhões de dólares em sete minutos
O investidor canadiano Jonathan Goodman foi uma das vítimas.
Num relato publicado na rede social X, explicou que perdeu 1,6 milhões de dólares em bitcoin, apesar de o dispositivo estar guardado numa caixa de segurança.
Quando a Coinkite, empresa canadiana responsável pelos equipamentos Coldcard, avisou os clientes sobre o incidente, Goodman acreditou inicialmente que não seria afetado.
As suas criptomoedas estavam guardadas numa carteira fria e o dispositivo encontrava-se fisicamente protegido, pelo que considerava improvável que alguém conseguisse aceder aos fundos.
Ao consultar as carteiras, encontrou várias transações de saída e percebeu que os ativos tinham desaparecido.
Entre as 21h36 e as 21h43 de 29 de julho, as três carteiras do investidor foram completamente esvaziadas. Goodman afirmou não esperar recuperar qualquer quantia.
Atacantes escolheram primeiro as carteiras de maior valor
A Chainalysis, empresa especializada em seguir movimentos de criptomoedas na blockchain, concluiu que os hackers se concentraram sobretudo em carteiras com saldos elevados.
Este padrão sugere que os criminosos terão analisado previamente os alvos e definido uma ordem de ataque.
A seleção das maiores carteiras fez com que o montante roubado atingisse 30 milhões de dólares apenas nos primeiros dez minutos.
De acordo com o Cinco Días, o incidente ainda estava em curso, com novos levantamentos a serem registados depois da primeira vaga de ataques.
Autocustódia dá controlo, mas transfere também os riscos
O caso volta a levantar dúvidas sobre os limites da autocustódia de criptomoedas.
Este modelo permite ao investidor manter diretamente as chaves dos seus ativos, sem as entregar a uma bolsa ou instituição financeira.
No entanto, também coloca sobre o utilizador toda a responsabilidade técnica e operacional pela segurança dos fundos.
Ferdinando Ametrano considera que a ideia de que quem controla as chaves controla as moedas deve ser acompanhada por outra realidade: quem controla as chaves também assume os problemas associados à sua proteção.
Anthony J. Pompliano, investidor e presidente executivo da ProCap Financial, defende o direito de cada pessoa controlar diretamente os seus ativos, mas reconhece que a autocustódia é tecnicamente complexa e não é adequada para todos os investidores.
Ari Redbord, responsável global de políticas da TRM Labs, sustenta igualmente que a autocustódia não faz desaparecer o risco. Apenas o transfere de uma plataforma centralizada para o próprio utilizador.
Grandes ataques concentram cada vez mais perdas
O ataque à Coldcard insere-se numa tendência de assaltos informáticos de maior escala e crescente sofisticação no setor das criptomoedas.
O caso mais significativo recente foi o ataque à plataforma Bybit, no início de 2025.
Segundo a Chainalysis, entre janeiro e o início de dezembro desse ano foram roubados mais de 3.400 milhões de dólares em criptomoedas. Deste total, 1.500 milhões corresponderam apenas ao ataque contra a Bybit.
Os três maiores ataques de 2025 concentraram 69% de todas as perdas registadas no setor durante esse período.
Os alvos também estão a mudar. As carteiras pessoais representam uma parcela cada vez maior do dinheiro roubado.
Em 2022, correspondiam a apenas 7,3% do valor total subtraído. Em 2024, essa proporção já tinha aumentado para 44%.
O ataque às carteiras Coldcard mostra que mesmo os sistemas concebidos para permanecer desligados da Internet podem tornar-se vulneráveis quando existem falhas na geração ou proteção das chaves que dão acesso aos fundos.











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