Pesquisa realizada na América Latina indica que atividade física, alimentação saudável e estímulos cognitivos melhoram o desempenho cerebral
Mudanças no estilo de vida para viver de forma mais saudável podem ajudar a proteger o cérebro contra o declínio cognitivo, reduzindo o risco de demência. Isso é o que mostra um estudo feito por pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), que acompanhou mais de mil idosos com risco de comprometimento cognitivo em 12 centros de pesquisa da América Latina. O estudo foi publicado na revista científica The Lancet.
Os participantes passaram a seguir um cronograma com mudanças na alimentação, prática regular de atividade física, além de estímulos cognitivos e controle de fatores de risco cardiovasculares. Eles apresentaram melhora anual de 55% no desempenho cognitivo em comparação ao grupo que recebeu apenas orientações gerais de saúde.
A geriatra, professora e doutora da FMUSP Cláudia Suemoto é uma das autoras do estudo e explica que o trabalho é um marco para a produção científica na América Latina, por ter sido planejado e adaptado à nossa realidade.
“Esse estudo foi desenhado, implementado e concluído dentro da América Latina, com quase nenhuma influência externa. As intervenções foram totalmente adaptadas para a nossa realidade, tanto do ponto de vista cultural quanto econômico”, diz.
O trabalho faz parte da iniciativa internacional Worldwide FINGERS, que reúne pesquisas voltadas à prevenção da demência por meio de intervenções no estilo de vida. A versão latino-americana levou em consideração hábitos alimentares, infraestrutura e características sociais dos países participantes.
Dieta adaptada para o bolso dos brasileiros
Ao contrário da dieta MIND original, que recomenda alimentos como salmão, mirtilo e nozes, por exemplo, o estudo substituiu ingredientes caros por opções mais acessíveis. Em vez de peixes importados, os pesquisadores estimularam o consumo de peixes disponíveis na região, como tilápia e até atum enlatado. As frutas vermelhas deram lugar ao morango, ao açaí e a frutas comuns no dia a dia, como maçã e melão. O amendoim também passou a ser uma alternativa às castanhas.
“O paciente do SUS dificilmente consegue comprar salmão, azeite e nozes regularmente. Então fizemos adaptações para alimentos acessíveis, sem perder os princípios da dieta”, afirma Suemoto.
A orientação também priorizou preparações assadas ou grelhadas em vez de frituras e incentivou o consumo de frutas no lugar de doces.
Exercícios físicos também foram adaptados
A atividade física foi outro eixo do programa e também precisou ser ajustada às diferentes realidades dos países participantes. Enquanto alguns centros utilizaram academias convencionais, outros improvisaram espaços em parques ou centros comunitários. A dança também foi incorporada às atividades como uma forma de tornar os exercícios mais próximos da cultura local.
“Nem todo centro tinha recursos para montar uma academia. Em alguns lugares, os exercícios foram realizados em parques ou espaços adaptados. A ideia era tornar a atividade física acessível para todos”, explica a pesquisadora. Os participantes realizaram exercícios quatro vezes por semana durante dois anos.
Tecnologia foi desafio
Além da alimentação e dos exercícios, o programa incluiu treinamento cognitivo por meio de um aplicativo que propunha desafios de memória, atenção e raciocínio. Segundo Suemoto, essa foi a intervenção que apresentou menor adesão. Muitos idosos tiveram dificuldade para utilizar a plataforma digital e precisaram receber orientação presencial.
“A gente imaginava que seria simples criar um usuário e acessar o aplicativo, mas muitos participantes não conseguiam. Tivemos que adaptar o programa para que essa atividade fosse feita após os exercícios, com acompanhamento”.
Convívio foi benefício extra
Embora o foco do estudo não fosse combater a solidão, a convivência entre os participantes acabou criando uma rede de apoio espontânea. Os idosos passaram a frequentar juntos as atividades e, em muitos casos, mantiveram encontros fora do programa.
“Para muitas dessas pessoas, esse grupo acabou se tornando um novo círculo social. Com o envelhecimento, muitos acabam ficando sozinhos, então esse aspecto também foi muito importante”, conta.
Próximo passo
Embora os resultados indiquem melhora no desempenho dos testes cognitivos, os pesquisadores continuarão acompanhando os participantes pelos próximos quatro anos para entender se os benefícios se mantêm após o fim das intervenções. Segundo Suemoto, outro desafio será transformar esse modelo em política pública.
“O próximo passo é pensar na implementação. Não é um programa de baixo custo, porque exige equipe multiprofissional, estrutura e acompanhamento. Agora precisamos entender como isso pode ser incorporado ao sistema de saúde”, diz.
Nos últimos anos, medicamentos para Alzheimer começaram a chegar ao mercado, mas apresentam custo elevado e são indicados apenas para uma parcela dos pacientes. Para a pesquisadora, as mudanças no estilo de vida não substituem esses tratamentos, mas podem potencializar seus efeitos.
“São estratégias complementares. Mesmo quem tem indicação para medicação pode se beneficiar de uma intervenção como essa. Melhorar o controle metabólico e os hábitos de vida provavelmente potencializa os efeitos das drogas”, considera.
Ela ressalta ainda que a prevenção deve começar antes do surgimento dos primeiros sintomas. “Grande parte dos fatores de risco para demência deve ser tratada ainda na meia-idade. Quanto mais cedo essas mudanças acontecem, maior é o potencial de prevenir as lesões que levam ao desenvolvimento da doença”, pontua.











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