O Rio Grande do Sul tem pouco mais de 11 milhões de habitantes. Apenas 175 atuam na arbitragem da Federação Gaúcha de Futebol (FGF) em 2026. Desses, apenas o assistente Rafael da Silva Alves teve o privilégio de chegar ao principal palco do esporte. Natural de Pelotas, ele foi convocado para atuar na Copa do Mundo, marcando a retomada gaúcha na arbitragem de um Mundial após 16 anos.
A convocação, anunciada pela Fifa em abril, foi o ponto mais alto de uma trajetória iniciada em 2006, quando Rafael Alves ingressou no curso de formação da Comissão Estadual de Árbitros de Futebol (Ceaf/RS). Desde então, construiu uma carreira em constante ascensão chegou ao quadro nacional da CBF em 2011, tornou-se árbitro Fifa em 2020, participou da Copa do Mundo Sub-20 da Argentina, dos Jogos Olímpicos de Paris, da Copa do Mundo de Clubes e acumulou mais de 300 partidas na Série A do Campeonato Brasileiro. Em 2025, foi eleito um dos melhores árbitros assistentes do Brasileirão ao lado do paranaense Bruno Boschilia.
— A convocação é fruto de um sonho que vim alimentando desde o meu período de formação enquanto árbitro pela Federação Gaúcha, em 2006. É um trabalho que foi acontecendo, crescendo paulatinamente. Primeiro me formei árbitro, comecei nos jogos amadores, passei para os jogos profissionais da Federação, depois comecei a trabalhar no Campeonato Gaúcho, fui promovido à CBF em 2011 e, em 2020, fui promovido à Fifa. Esse sonho foi alimentado em função desses degraus que fui passando pela minha carreira — disse.
O assistente explica que a vaga no Mundial foi consequência do desempenho apresentado em outras competições organizadas pela Fifa.
— Quando entrei na Fifa, começou também um processo seletivo de participar de torneios e representar bem dentro deles para poder ter uma oportunidade. Fiz a Copa do Mundo Sub-20, depois as Olimpíadas, posteriormente a Copa do Mundo de Clubes e, então, fui convocado para a Copa do Mundo de seleções — relembra.
Além da realização profissional, Alves destaca o orgulho de representar suas origens:
— Recebi essa notícia com muita alegria por poder representar também a minha terra natal, Pelotas, o Estado, a Federação Gaúcha, os meus colegas e tantas pessoas que contribuíram nessa minha trajetória enquanto árbitro.
Três atuações no maior palco do futebol
Durante aproximadamente 45 dias, Rafael Alves permaneceu em Miami, cidade escolhida pela Fifa como base da arbitragem durante a Copa do Mundo. Dali partiam os deslocamentos para as partidas escaladas.
Sua estreia aconteceu no empate em 1 a 1 entre Bélgica e Egito, em Seattle, pela fase de grupos. Dias depois, voltou a atuar em Canadá e Suíça, em Vancouver. A despedida do Mundial aconteceu nas quartas de final, quando foi quinto árbitro na partida que marcou a classificação da campeã do mundo Espanha diante da Bélgica.
— Quando a gente recebe a designação é que realmente sente que está participando da Copa do Mundo. A convocação é um momento extremamente significativo, mas, quando recebe a escala, é o momento em que tu realmente está sendo um árbitro mundialista — revela.
A entrada em campo na estreia, segundo ele, foi um dos momentos mais marcantes da carreira.
— Quando fomos para o jogo, tem todo o protocolo de ingressar no gramado, os hinos, a música destinada para a Copa do Mundo. Nesse período de pisar no campo, passa um filme pela cabeça de tudo o que aconteceu para que se pudesse chegar naquele evento. É uma emoção de ficar arrepiado só de relembrar isso agora. Imagina como eu estava na hora do jogo. Foi muito emocionante — destaca.
Critérios limitaram novas escalas

Embora tenha deixado a competição satisfeito com o desempenho, Alves acredita que poderia ter trabalhado em mais partidas. No entanto, explica que as regras adotadas pela Fifa restringem as designações conforme o avanço das seleções do mesmo continente.
— Eu tinha uma ideia de que ficaria em dois ou três jogos, mas talvez pudesse trabalhar mais na frente se não fossem essas questões que não estão inerentes a nós. Como tivemos diversas seleções sul-americanas classificadas, isso acabou limitando um pouco mais os jogos para quem pudesse trabalhar. Acho que foi uma boa participação. Estou muito orgulhoso de ter representado o nosso Estado e o Brasil nesses jogos — explica.
A restrição não acontecia somente na atuação de confrontos que envolviam sul-americanos, mas também em partidas em que pudessem sair adversários de equipes da Conmebol.
Mesmo com essas limitações, o assistente deixa claro que torceu pela Seleção Brasileira chegar à decisão do Mundial:
— Sou um apaixonado pelo futebol. Antes de ser apaixonado pela arbitragem, sou apaixonado pelo esporte. Torci pela Seleção Brasileira ir o mais longe possível para que pudesse voltar a ser campeã e fazer a alegria do nosso povo.
Gaúchos na Copa do Mundo
Com as atuações na Copa do Mundo, Rafael Alves entra em um seleto grupo com outros três profissionais que também já atuaram no Mundial: Altemir Hausmann, Renato Marsiglia e Carlos Eugênio Simon. O último lidera o ranking de participações brasileiras no torneio, ao lado de Wilton Pereira Sampaio, que igualou o feito de sete partidas nesta edição da competição.
De volta ao futebol brasileiro

Poucos dias após o encerramento da Copa do Mundo, Alves já retornou às escalas da CBF e da Conmebol. A readaptação, segundo ele, acontece naturalmente, apesar das diferenças entre um Mundial e as competições nacionais.
— A Copa do Mundo é um espetáculo grandioso, mas eu gosto muito também do futebol aguerrido, do nosso futebol gaúcho, da combatividade que tem no futebol brasileiro. Poder voltar ao Brasil, ao Estado que me possibilitou chegar nesse patamar da minha carreira, realmente está sendo muito significativo — diz.
No último final de semana, por exemplo, Alves já atuou no confronto de ida das oitavas de final da Copa do Brasil, entre Vasco e Fluminense.
Sonho de voltar ao Mundial
A participação no Mundial de 2026 não representa o fim da caminhada. Pelo contrário. Rafael Alves afirma que o objetivo agora é manter o alto nível nas competições nacionais e internacionais para buscar uma nova convocação da Fifa.
— Trabalhei em uma Copa do Mundo, fui bem avaliado e continuo com a expectativa de fazer um bom trabalho pelo Estado, pela CBF e nos jogos da Conmebol para tentar voltar a participar da Copa do Mundo de 2030. Esse é o meu planejamento: me manter em alto nível e voltar a sonhar com esse grande evento, que foi extremamente significativo para mim no âmbito esportivo e pessoal — projeta.
Até lá, o pelotense espera seguir representando o Brasil nas principais competições organizadas pela Fifa, como Eliminatórias e Copa América.
— Vamos na expectativa de poder participar do maior número de torneios pela Fifa possível para que se mantenha fomentando essa ideia de uma nova Copa do Mundo — conclui.
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