“É um homem ou uma máquina?”, me pergunta a âncora Becky Anderson, da CNN, referindo-se a Lionel Messi. Está começando esta inusitada Copa do Mundo, o Soccer Super Bowl, como eu a chamo, com 48 seleções, quatro tempos por jogo, oito árbitros e mais o var, novos ajustes nas regras de impedimento e cartões vermelhos. E ingressos a preços astronômicos. Até agora, só foram jogadas as duas primeiras partidas da fase de grupos, e Messi já quebra recordes: com três gols num único jogo, igualou o recorde histórico de Klose, o centroavante da seleção alemã. O mundo está deslumbrado. Os argentinos, campeões de 2022, defendem o título com esse herói que também revolucionou o mercado do soccer nos Estados Unidos. Há mais camisetas de Messi do que de qualquer outro jogador e, na liga americana, os estádios sempre lotam quando ele entra em campo. O objetivo desta Copa é acabar de seduzir o mercado local e impor o esporte mais popular do mundo no país que menos o entende.
Becky Anderson põe na tela a imagem de uma criança, um lindo bebê negro, no colo de um jovem branco na casa dos 20 anos. A foto faz parte de uma série feita em 2007 pelo francês Joan Monfort para um calendário beneficente organizado pelo fc Barcelona em parceria com a Unicef e o jornal catalão Sport. Faz uns dois anos apenas que Monfort ficou sabendo quem eram os personagens da sua foto e diz à CNN que ainda está processando o fato. “É como ganhar na loteria. Uma chance em um milhão.” A imagem circulou nas redes sociais a partir de uma postagem que o pai de Lamine Yamal, o bebê da foto, fez durante a Liga dos Campeões da Uefa que marcou a estreia do seu filho prodígio na categoria profissional. “O nascimento de duas lendas”, disse ele. O jovem que aparece na foto é Lionel Messi.
Anderson me pergunta se Lamine será o próximo Messi. Balbucio que esse rótulo de “o próximo alguém” já prejudicou muitos jovens promissores, mas que não deixa de ser uma bela alegoria do bastão que passa de um grande para outro grande. Messi acaba de completar 39 anos. Dentro de poucos dias, Lamine completará 19.
Durante aquela entrevista na CNN, eu não podia imaginar que, minutos depois do apito final da Copa, um Messi destruído pela façanha de jogar oito partidas, derrotado por uma Espanha superlativa, se levantaria lentamente do gramado onde estava prostrado para receber o abraço caloroso e solidário de um jovem vitorioso que se dirigia resoluto na sua direção, abrindo caminho a passos largos em um campo salpicado de atletas exaustos, câmeras de tevê e uma multidão de seres preparando a última cena desse espetáculo que monopolizou a atenção do mundo durante um mês e meio.
O abraço eterno de Messi e Lamine, uma imagem duradoura desse jogo infinito.
Gostaria de poder dizer: “E assim terminou esta bela história do nosso nobre esporte na sua execução mais comercial, mercantil e politizada.” Só que não. A final logo se transformou numa espécie de discurso mundial contra a Argentina – percebido por muitos argentinos como uma onda de ódio, vinda dos cantos mais impensáveis: do progressismo primeiro-mundista, por assim dizer; do típico inglês raivoso; da direita digital; dos negros americanos; dos artistas espanhóis pró-Palestina; de todo o resto da América Latina… As declarações pró-Espanha de Yanis Varoufakis, o ex-ministro da Economia da Grécia. O prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, dizendo que o Egito foi “roubado” pela Argentina. Patti Smith repostando uma mensagem da cantora e compositora catalã Rosalía. E Francesca Albanese, a advogada italiana relatora especial da onu para a Palestina, usando a hashtag #HastaLaVictoria num post que associa a vitória da Espanha ao triunfo dos valores “bons” e agradece ao reino e a “todos aqueles que têm a coragem e a dignidade de permanecer do lado da justiça”.
Hasta la victoria. Eis aí a frase que Ernesto “Che” Guevara escreveu para Fidel Castro, agora dirigida ao rei da Espanha, que participa da cerimônia de premiação ao lado de Donald Trump. Alice, do outro lado do espelho, comeria um cogumelo extraforte para processar a nova narrativa geopolítica na qual nos encontramos.
Os argentinos praticamente em massa acordaram chocados com esse clima hostil, mas na realidade isso já vinha sendo cozinhado desde o início do torneio. Sabe-se que é algo alimentado e exacerbado por algoritmos que lucram em incitar respostas agressivas. Mas é inegável que ser o alvo de tanta raiva nos desnorteou um pouco. E as reações argentinas, agressivas na sua defensiva, não ajudaram a apaziguar as coisas.
Do ponto de vista futebolístico, não há muito o que discutir. Na final, a Argentina não conseguiu dar um único chute a gol nos 90 minutos do tempo regulamentar. Com um jogador a menos depois do segundo cartão amarelo a Enzo Fernández, por duas faltas totalmente infantis e desnecessárias, com jogadores contundidos e já sem substitutos disponíveis, a Argentina teve um desempenho lamentável, apesar daquela certa garra desesperada que produz a fama de ter “coração”, “paixão”, o mais vulgar “colhão” e, tomando emprestada mais um pouco da retórica do Che, “nunca se render”.
A Espanha foi muito superior em todos os sentidos, embora a tenacidade descontrolada da Argentina tenha evitado a goleada que merecia levar. Um placar de 0 a 0 horroroso no tempo regulamentar dificilmente terá seduzido o novo público que pagou 10 mil dólares pelos ingressos mais baratos. O gol da Espanha finalmente veio na prorrogação e, verdade seja dita, o velho Messi quase mudou as coisas com um passe sob medida, mas Mac Allister não conseguiu finalizar.
Se de futebol se trata, a Espanha ganhou merecidamente. Os campeões festejaram, e os vice-campeões choraram e chafurdaram na frustração.
Mas o que significa dizer que “se trata apenas de futebol”? De repente, Paredes, o volante argentino, está dando um safanão no jogador espanhol Gavi. Ayala, um dos veteranos da comissão técnica de Lionel Scaloni, corre até a briga e dá o que parece ser um tapa no rosto do meio-campista espanhol Olmo. Paredes recebe cartão vermelho depois de terminada a partida. Uma vergonha.
Durante o tempo de jogo, embora a Argentina tenha apresentado um futebol no velho estilo do ex-técnico portenho Carlos Bilardo, cheio de faltas, a estatística da partida (outro grande avanço desta Copa: números e medições para tudo) indica 25 faltas argentinas contra 21 da Espanha.
Mas, se a Argentina perdeu tantos amigos pelo caminho, não foi necessariamente por causa do acontecido durante a partida.
Voltemos o filme, até as semifinais. Permanecem na competição três países europeus, gigantes do futebol, mais a Argentina. São as quatro seleções que, no início, o ranking da Fifa dava como favoritas. Já naquela altura surgiu uma narrativa que apontava para a Argentina como o valentão desse quarteto, o poderoso que chegou lá por caminhos tortos.
A Argentina enfrentará a Inglaterra. Arquirrivais cujo confronto mais lembrado aconteceu há exatos quarenta anos, quando Diego Maradona, em poucos minutos que significaram um divisor de águas na história da Copa do Mundo, marcou um gol absurdo com a mão, quebrando todas as regras do jogo diante dos olhos do mundo – e o coroou com um drible único que desde então ficou conhecido como o gol do século.
Apenas quatro anos antes, os dois países tinham se enfrentado num conflito armado nas ilhas do Atlântico Sul que os argentinos chamam de Malvinas e consideram parte do seu território soberano e nacional, ilhas que os britânicos chamam de Falklands e mantêm como parte do seu império, o pouco que resta, e se negam a negociar. Prevaleceu a ideia de que o gol de mão marcado por Maradona era, de certo modo, uma espécie de desforra ou vingança pela guerra perdida.
Uns viajantes argentinos contam que, ao cruzar uma fronteira na África, perto da Somália, os agentes de imigração, ao ver seus passaportes, perguntaram: “Qual é a história com essas ilhas?” Os argentinos ficaram orgulhosos de colocar o assunto abertamente ao mundo. Mas o caso só ficou conhecido já depois da semifinal. Antes, o que havia era uma imensa expectativa de revanche.
Em 1966, na partida da Argentina contra a Inglaterra, em Wembley, um jogador argentino, Antonio Rattín, foi expulso por causa do seu jogo sujo. Ele disse que não entendia o que o árbitro lhe dizia e levou quase 15 minutos para deixar o campo, solicitando um intérprete. O técnico inglês chamou os argentinos de “animais”, e um árbitro inglês resolveu o problema de o jogador “não entender” a punição inventando os cartões amarelo e vermelho, que entraram em vigor na Copa seguinte. Rattín morreu poucos dias antes da semifinal de 2026, exercendo um impacto inesperado na simbologia do futebol tal como hoje o conhecemos.
Na Copa da França em 1998, as duas seleções protagonizaram outra pequena confusão, quando Diego Simeone, um jogador aguerrido e cheio de “picardia sul-americana”, para dizer o mínimo, provocou sorrateiramente David Beckham, o inglês bonitinho que sonhava em ser o herói daquele campeonato, mas que caiu na armadilha e deu uma pernada em Simeone, o que resultou na sua expulsão. Apesar do golaço que Michael Owen marcou, quase comparável àquele do drible de Maradona, a Argentina venceu a partida, e Beckham foi fustigado na sua Inglaterra natal, onde um jornal estampou a manchete “Dez heróis e um idiota”.
No Mundial seguinte, foi a vez de Beckham ir à forra, marcando um pênalti perfeito contra uma Argentina alentada pelos louváveis valores do seu técnico Marcelo Bielsa, mas que voltou para casa sem passar da fase de grupos, levando ainda a estranheza de ter um jogador expulso do banco de reservas no seu último jogo.
Beckham acabou cumprindo seu destino de garoto-propaganda e hoje é sócio do clube de Miami no qual joga Messi; de fato é sócio de Messi e o primeiro bilionário do esporte na Inglaterra, onde ostenta um título nobiliárquico outorgado pelo rei Charles. Belíssimos e elegantérrimos, Sir David e sua mulher Victoria enfeitaram as telas durante as partidas da Copa, desafiando os anos, como Messi. Às vezes, para colorir a grande festa esportiva, Beckham e Simeone eram fotografados juntos – Simeone estava presente porque seu filho Giuliano agora joga pela Argentina.
Poderia ter sido um encontro agradável entre velhos rivais, Inglaterra e Argentina, um dos poucos clássicos que Messi nunca havia jogado. Um novo marco para o homem que alcançava um novo marco a cada partida. Mas, em parte porque nas semifinais todos já estávamos exaltados demais, em parte porque a mídia e as redes se autointoxicam tentando provocar reações, e em parte porque, de fato, mesmo que seja só futebol, o futebol é muitas outras coisas, o clima no estádio de Atlanta já começou com um fundo sonoro impressionante. Ambos os países vaiando o hino do outro. As torcidas presentes mais se pareciam com aquelas que a gente conhece nos estádios da Argentina ou da Inglaterra. Um clima de batalha, por assim dizer.
Foi um jogo em que os substitutos fizeram a diferença, com o técnico da Inglaterra, Thomas Tuchel, fazendo alterações defensivas que talvez lhe custem o emprego, e Scaloni colocando atacantes no lugar de defensores, mudando assim a forma do jogo. Quando os ingleses comemoraram seu primeiro gol, Messi aproveitou o momento e, sozinho no meio do campo, se deitou no chão como que encurvado, com a cabeça entre os joelhos. Parecia até estar rezando, mas esticou uma perna e ajeitou algo: o tornozelo ou o joelho. Fez um pequeno alongamento, virou-se e repetiu exatamente os mesmos movimentos com a outra perna. Como se estivesse ajustando o corpo ao mesmo tempo que ajustava a varredura do jogo e seus espaços. Já entrando no quarto período da partida, pela enésima vez no campeonato, conseguiu criar momentos mágicos. Seus chutes faziam a bola voar, e com ela voavam os homens. Os argentinos defendiam com cabeçadas que superavam a altura dos ingleses. Lautaro Martínez também marcou um gol de cabeça, rompendo em lágrimas no final da partida ao evocar os sacrifícios e o amor da mãe durante sua infância humilde.
As histórias desses homens são histórias de luta, de sobrevivência a adversidades que, nos nossos países, para vergonha da sociedade, na minha humilde opinião, só podem ser superadas com talento excepcional no futebol acompanhado de um ritmo de trabalho muito exigente.
Talvez seja isso que Scaloni quis dizer na coletiva de imprensa depois da partida, quando declarou que esse grupo humano é único. “Eles são índios”, disse ele, e esclareceu em seguida: “Digo isso no melhor sentido da palavra”, dando a entender que existe um sentido que não é o melhor. E acrescentou: “Cresceram em ambientes onde não tinham medo de nada, sempre foram os melhores naquilo que faziam e competiam desde pequenos, e todos esperavam muito deles. Não sentem o peso da responsabilidade.” Ele se referia ao fato de que esses jogadores começam a treinar ainda crianças, aos 8 ou 9 anos, e “não estão pensando ‘estamos prestes a perder uma semifinal’, estão pensando em jogar futebol, que é o que fizeram a vida toda”. E ele voltou a se desculpar por usar a palavra “índios”, no sentido de que foram criados em condições extremas.
Apesar de duvidosa, acho essa declaração de Scaloni importante – e mais importante agora do que naquele momento. Naquela altura, depois de derrotar a Inglaterra e com o tempero de um incidente insólito no pós-jogo, quando um lençol pintado com o lema “As Malvinas são argentinas” foi jogado das arquibancadas e aberto no campo pelos jogadores, a narrativa antiargentina já estava muito acelerada.
Entre as acusações mais difundidas estava a de ser “o país mais racista do mundo”. Em grande parte por causa dos vídeos de torcedores argentinos agindo de forma deplorável, e em grande parte por causa de uma crença que ressurge em todas as copas, especialmente na imprensa dos Estados Unidos, que destaca a ausência de jogadores visivelmente afrodescendentes na seleção argentina.
É uma questão hipercomplexa, mas a reação mais comum entre os argentinos que entram – entramos – de sola para defender “o país” dessas acusações pretende descrever nossa miscigenação como prova irrefutável da ausência de racismo. É evidente que o racismo na Argentina e no Chile, por exemplo, se articula de forma muito diferente comparado ao dos Estados Unidos. Mas recuar dois séculos para explicar que nossas ondas migratórias estavam construindo uma nação de gente muito misturada, sem mencionar ou reconhecer as grandes injustiças e preconceitos que sofrem os povos originários, bem como a grande parcela da população que se identifica como não branca, é extremamente ingênuo.
Uma das reações mais sensíveis e inteligentes que já vi é um vídeo da feminista brasileira Milly Lacombe, que é apaixonada por futebol. “O debate sobre o que sentir pela seleção argentina masculina de futebol está muito quente”, diz ela, e tenta explicar a complexidade e como acomodar as contradições, “nesse mundo em que a gente vive, que é cada vez mais binário, 0 ou 1, sim ou não, certo ou errado, esquerda ou direita, a gente está ficando meio destreinada de olhar tudo o que está no meio disso”. Lacombe diz que, quando a gente pensa em Argentina, pensa: racistas. “Porque a gente viu o que eles fizeram nos Estados Unidos: atos racistas, assim, à luz do dia. Sem nenhum tipo de medo, de vergonha.” Mas ela aponta que não é uma característica exclusiva argentina ser um país racista. Qual país não é racista?, pergunta. “O racismo infectou o mundo inteiro. Precisamos nos desinfectar, precisamos ser antirracistas e lutar contra isso.”
Essa análise granular, delicada, sutil é justamente o que mais falta na polarizada plataforma pós-Copa. Tanto na percepção eurocêntrica e americana da Argentina como na resposta argentina que tenta refutar a acusação.
Lacombe faz um apanhado extremamente digno das lutas de diferentes grupos argentinos: as feministas batalhadoras, as Mães e Avós da Praça de Maio, as reivindicações fundiárias de diversos setores.
E atualmente é mais que válido ouvir as vozes dos grupos argentinos que se identificam como não brancos, vozes que são absolutamente silenciadas e simplesmente anuladas na narrativa de que “não há negros na Argentina”.
Por estes dias andou circulando uma foto de Muhammad Ali na sua visita a Buenos Aires, em 1971, ao lado do sindicalista José Ignacio Rucci, figura muito próxima de Juan Domingo Perón. O pugilista teria então perguntado “Cadê os negros?”, ao que Rucci respondeu “Os negros somos nós”.
Mas não todos nós. Se a discussão sobre o racismo focar exclusivamente nos afrodescendentes, corremos o risco de apagar a população pobre mestiça da Argentina, principal alvo do preconceito racial dentro do país. Pessoas de pele mais escura, cabelo preto, traços indígenas, que desde o início do século passado são chamadas depreciativamente de cabecitas negras, expressão que continua sendo utilizada com desprezo para denotar não apenas diferença racial, mas de classe e até ideológica – para alguns, um conceito burguês antiperonista –, ainda hoje são discriminadas na Argentina. O que me parece importante resgatar no contexto da Copa é que, de fato, na hierarquização socioeconômica da demografia argentina, a maioria dos jogadores de futebol nasceu e cresceu nesse meio. Por exemplo: Paredes, que salvou a seleção argentina de levar um gol do Egito, ao interceptar um passe certeiro, é filho de mãe paraguaia guarani.
Alguns podem achar simpático que nós, argentinos, indiscutivelmente irreverentes, assimiladores de todo indivíduo que veio participar da construção do país, chamemos de chino quem seja chinês/japonês/boliviano, e de gringo quem seja loiro/branco, e de ruso quem seja mais loiro. Que chamemos de turco o mais marrom e de negro o mais escuro. De gordo o gordo e de pelado o careca. Mas é obvio que há intenções distinguíveis. Às vezes, esses apelidos são usados carinhosamente. Outras vezes, como insulto.
É uma discussão dolorosa, mas necessária. O problema é que ela não está se desenrolando com a seriedade e o respeito que merece, impulsionada pelos algoritmos do ódio e num marco de resistência e intolerância de todos os lados.
A faixa das Malvinas foi outro incidente que contribuiu, de um lado, para a construção de uma épica argentina e, de outro, para a indignação dos ingleses – e, quase por extensão, do mundo, já predisposto a não perdoar nada à Argentina. “Por que, se o Haiti foi forçado a tirar um símbolo da sua independência da camisa, a Argentina tem permissão para ostentar uma proclamação tão claramente política?”, perguntam alguns. Como as grandes potências por trás do negócio da bola não perdoam os jogadores por terem exibido aquela faixa, eles foram forçados a perder a final, dizem as teorias da conspiração que também pululam nas redes e na mídia tradicional.
Trata-se de uma das coisas mais insólitas que já vi acontecer numa Copa (a primeira a que assisti como espectadora foi em 1978; a primeira que cobri profissionalmente foi a de 1994). O lençol roubado de um hotel, jogado por um torcedor anônimo para se proteger, levantado e desfraldado pelos jogadores no calor da hora, teve o seu efeito borboleta, embora ainda não possamos avaliar toda a sua repercussão.
A verdade é que foi um gesto surpreendente, vindo de jogadores cujas posições sociais e políticas são pouco conhecidas. Sobretudo Messi, que raramente fala sobre o que quer que seja. De certo modo, o silêncio de Messi é o que há de mais gritante em todas essas questões. Ele nunca critica o racismo, intencional ou não, dos seus compatriotas. Ele nunca parece ter um olhar crítico sobre suas parcerias publicitárias com a Arábia Saudita, ou seu sorriso inocente ao lado de Trump, que cumprimentava os jogadores do Inter Miami no momento em que começava a bombardear a população iraniana vangloriando-se do poder de destruição das suas bombas. Messi também não diz nada sobre as fotos que fez ao lado das Avós da Praça de Maio, às vésperas da Copa de 2014, que faziam parte de uma campanha que permitiu encontrar vários netos nascidos durante o encarceramento clandestino das mães durante a ditadura militar. Ele financia refeições na África por meio de um padre, compra ingressos para que Vozinha (o goleiro cabo-verdiano, uma das histórias mais agradáveis que esse circo nos proporcionou) e sua família possam assistir à final… Sua mulher, Antonella, incentiva doações para as vítimas do terremoto na Venezuela. Ele é claramente uma pessoa que faz coisas nobres. Mas nunca diz nada.
Eis que a faixa das Malvinas foi surpreendentemente exibida pelos jogadores, apesar da clara instrução da Fifa proibindo expressamente qualquer símbolo ou alusão das Malvinas. E rodou o mundo. Na Argentina, o presidente Javier Milei, para quem as Malvinas nunca foram uma questão central em sua agenda, disse que “adolescentes mononeurales” estavam atentando contra seu delicado plano diplomático de dialogar com a Inglaterra. Políticos ingleses da oposição pediram a revogação dos vistos dos jogadores argentinos que jogam na Premier League. Londres formalizou uma queixa junto à Fifa, que abriu um processo disciplinar contra a Associação do Futebol Argentino (AFA), jogadores e auxiliar técnico. E a Casa Branca de Trump se pronunciou em defesa da liberdade de expressão dos jogadores argentinos.
Hora para mais um cogumelo, Alice. A gente poderia tentar explorar as nuances da questão Falklands/Malvinas, e na verdade muitos órgãos de imprensa fizeram isso. Ela está tão arraigada no sentimento popular argentino e tão entrelaçada com a cultura do futebol que é perfeitamente compreensível que tenha se tornado um marco na relação emocional desse elenco com o povo argentino que o ovaciona. Mas há um fundo geopolítico internacional mais difícil de vislumbrar. Nas poucas vezes em que a chancelaria de Milei abordou a questão do diálogo com a Inglaterra, Trump fez declarações favoráveis à Argentina, e foi sempre em momentos tensos na sua relação com os ingleses. Por exemplo, quando, num primeiro momento, não lhe permitiram usar uma base aérea britânica para atacar o Irã.
O que nos leva ao Oriente Médio e à posição explicitamente pró-Israel de Milei. Por esse motivo, boa parte dos progressistas de todo o mundo se declara anti-Argentina. Tampouco ajudou Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro israelense, proclamar que estava torcendo pela Argentina. A Espanha representa a amizade com a Palestina. A Argentina, o sionismo mais desenfreado. Ninguém pensa no antissemitismo declarado que também existe na Espanha, nem nas vozes pró-paz dos argentinos, inclusive judaicas, que organizam frotas para levar alimentos a Gaza. Isso seria tentar acomodar as contradições do meio, como diria Lacombe. Uma busca complicada em tempos simplistas.
Assim como a Argentina é acusada de ser sionista, também é acusada de abrigar nazistas. País racista e nazista. Claro que abrigava nazistas, não tantos quanto os Estados Unidos, mas um só já deveria ser demais. Mas também é a casa da maior comunidade judaica da América Latina, a terceira em todo o continente e a sexta do mundo – comunidade essa, vale dizer, que foi e continua sendo participante ativa na caça de nazistas e no rastreamento do ouro roubado. E a Argentina também julgou seus próprios militares, muito antes de outros países.
Mas é apenas uma partida de futebol, oito partidas de futebol. Como foi que começamos a discutir essas questões, em escala global, vomitando ódio de parte a parte? No que se transformou esta Copa, na qual se fala de tudo, menos de futebol, com tanta intensidade e tão pouca disposição para ouvir o outro?
“A bola não se mancha”, disse Diego Maradona certa vez, falando sobre a corrupção dos poderes do futebol, do seu próprio comportamento sem limites, de todos os horrores que ocorrem na vida e no mundo. Tudo está muito sujo, mas não a bola.
É uma daquelas frases imortais de Maradona, que sempre nos fazem amar o jogo. Algo que Messi nunca poderia dizer, embora sua varredura do campo e sua leitura posicional também nos façam amar o jogo.
Sinto que 48 países foi demais, oito partidas também. Tudo poderia ter acabado uma semana antes, evitando a gota d’água que transbordou o copo. Começou alegre e colorido, com Cabo Verde, os torcedores escoceses e a Middle America apaixonada pelos argelinos. Com dez seleções africanas revivendo o sonho de que a África é a próxima grande potência. Com imagens de refugiados de guerra comemorando os gols da República Democrática do Congo. Com muito futebol e poucos olhos no ICE elevando sua meta para 2 mil prisões por dia. Com um Trump surpreendentemente discreto (exceto quando conseguiu que a Fifa revogasse as consequências do cartão vermelho dado a um jogador da seleção americana, no que talvez tenha sido a primeira sujeira a manchar a bola) e uma interessante inversão de poderes com derrotas surpreendentes, mas engraçadas. Paraguai eliminando a Alemanha. O Brasil de Carlo Ancelotti divorciado do jogo bonito. Haaland apaixonando o mundo por meio de suas redes bem administradas. Luka Modrić e Cristiano Ronaldo despedindo-se da Copa com dignidade e a tempo.
Teria sido bonito se Messi também tivesse terminado com um toque épico. Se o melhor gol da Copa – aquele do Egito contra a Argentina – não tivesse sido anulado, consumando a vitória egípcia, talvez Messi pudesse ter se despedido com altura e grandeza.
Em vez disso, o Egito deixou a imagem de um técnico desesperado fazendo uma cruz com os braços – o sinal para denunciar racismo no novo código disciplinar da Fifa –, o mesmo que se enrolou numa bandeira palestina e mais tarde lembrou aos jornalistas que as crianças de Gaza são assassinadas vestindo camisas de Messi. Naqueles dias, Israel bombardeou o homem que tratava de espalhar telões em Gaza para que lá, da mesma forma, se pudesse participar da festa do futebol.
Essa partida também nos deixou a imagem mais conciliadora de Mac Allister trocando a camisa com o craque egípcio Mohamed Salah e erguendo sua peça vermelha em direção ao público. É assim que se saúda um grande derrotado, com honras.
Mas, mesmo no colorido e numeroso início do torneio, na sua imensa fase de grupos, tivemos que testemunhar o tratamento humilhante dado à seleção iraniana, a proibição de entrada nos Estados Unidos de um árbitro somali e a negativa de vistos para torcedores de vários países, quase todos africanos.
Na discussão sobre racismo, alguém disse que, para quantificar o preconceito de uma sociedade, deve-se observar não a cor da pele dos jogadores em campo, mas dos torcedores no estádio. Não sei se concordo por completo, mas é evidente que o público que conseguiu assistir ao Soccer Super Bowl ao vivo não é uma fatia representativa da humanidade na sua totalidade.
Definitivamente, 48 países, 8 partidas, 8 árbitros e o VAR, deslocamentos extremamente caros e complicados de uma sede a outra, quatro tempos para a pausa das apostas e o microchip dentro da bola que anulou o gol da Croácia atentam contra o futebol. O técnico Marcelo Bielsa, cabisbaixo, como quem diz “não gosto nem um pouco disso”, no fim poderia ser a imagem inaugural de uma crônica anunciada.
O que ficou claro, apesar de tudo, é que a seleção que se sagrou campeã pode ser representante de um reino colonizador, mas hoje é também uma equipe diversa, organizada, produto de um projeto de longo prazo, que mereceu vencer.
A jornalista mexicana Maca Carriedo disse belamente: “A Espanha venceu com filhos de imigrantes, com jovens de bairros operários, com jogadores que não correspondem àquela ideia velha e ridícula de como um campeão deve ser visto. […] Ela nos mostra que a identidade não se rompe quando muda, ela se rompe quando se agarra a uma versão de si mesma que já não existe. Essa seleção se parece com a Espanha real. Aquela que se misturou, que mudou, que tem outros sobrenomes, outras cores de pele e outras histórias de família. Que fique claro que uma bandeira não se engrandece ao dizer quem não pertence a ela; se engrandece quando consegue que alguém diga: ‘Eu também caibo aí.’”
De certo modo, a vitória futebolística da Espanha sobre a Argentina é a vitória do futebol. Apesar de tudo o que cercou essa final, ganhou o jogo. E ganhou literalmente, se quisermos tachar a atuação argentina como antijogo, no sentido bilardista da palavra.
Mas também nos deixou um sabor amargo. Nós, da torcida argentina, devemos lamentar não tanto a derrota – ser vice-campeão é muito respeitável –, mas a forma como terminamos. E, por mais que os ataques diminuam à medida que todos formos deixando de lado a grande onda do campeonato mundial, é uma bela oportunidade para o diálogo. Tomara que saibamos aproveitá-la.
Já ocorreram algumas reviravoltas interessantes. Uma fã argentina de Patti Smith respondeu imediatamente à cantora e poeta, falando da grandeza de Patti Smith, que por seu turno pediu desculpas nas redes sociais, postando uma imagem de Messi. O ator espanhol Javier Bardem deu-se ao trabalho de explicar que seu repúdio tinha como alvo o jogo da última partida, e não os milhões de argentinos que ativamente criam arte, cinema, literatura e se opõem a Milei e às políticas que o incomodam.
Houve também uma conversa magnífica entre o jornalista Ishaan Tharoor, autor de um dos artigos mais incendiários contra a Argentina atual, e uma resposta serena e inteligente do acadêmico argentino Luis Schiumerini, que conseguiu fazer com que Tharoor refletisse, agradecesse e voltasse a admirar a seleção de Messi.
Não se trata de converter toda a população do planeta em torcedores da Argentina, longe disso. Mas sim de entendermos que, quando acusamos algum grupo, caímos naquilo contra o qual deveríamos lutar.
Uns e outros.
Messi sai de cabeça erguida. É um dos jogadores que mais vende camisetas no mundo, marcou mais gols que qualquer outro na história, jogou mais partidas da Copa e provou que indiscutivelmente tem um dom, se não divino, angelical. Milly Lacombe diz que, no campo de futebol, ele conversa com Deus.
O futebol, sobretudo o futebol da Copa do Mundo, é um palco onde cabem teatro, rituais religiosos, batalhas, épica e muita ironia. Atribuímos papéis, e a narrativa nos provoca emoções reais – assim como toda arte –, mas contidas entre as quatro linhas do campo de jogo. É por isso que a imagem de Lamine Yamal abraçando com ternura quase familiar um Messi que se levanta da sua prostração para ficar à altura do jovem é um fecho perfeito para a peça.
Mas a narrativa do Soccer Super Bowl vazou demais para fora desse palco gramado. A cobiça da Fifa e de Trump já está repartindo o mundo com novos projetos comerciais. Ainda não sabemos se Messi cairá na sociedade com eles sob o rótulo de jogador-franquia ou se tomará uma posição abertamente ao lado do jogo.
Não sei se ele é um homem ou uma máquina, mas gostaria muito que se pronunciasse sobre alguma coisa, pois já está na hora de sabermos que tipo de neurodivergência governa essa motricidade hiperperceptiva. Ele não tem nenhuma obrigação, claro, mas tem poder. E o poder sempre pode ser bem utilizado.











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