Voz do Campo – Gestão da terra e vitalidade rural: Os pilares da sobrevivência pecuária na Europa


O documento reúne as conclusões do Grupo Temático sobre o Papel da PAC no Apoio a Sistemas Pecuários Sustentáveis e Competitivos, que trabalhou entre janeiro e abril de 2026, e traça um retrato dos principais desafios enfrentados pela pecuária europeia, apontando ao mesmo tempo caminhos concretos para tornar o setor mais sustentável do ponto de vista ambiental, económico e social.

Transição sem solução única

A principal mensagem da publicação é que não existe uma solução uniforme para todos os sistemas pecuários da União Europeia. A rede europeia sublinha que as políticas e os instrumentos de apoio devem ter em conta a forte heterogeneidade entre regiões, Estados-Membros e modelos produtivos, já que os desafios variam consoante o território, a intensidade da produção, a disponibilidade de terra e os impactos ambientais associados.

A factsheet recorda que a pecuária continua a desempenhar um papel central na produção alimentar, na economia rural e na gestão da paisagem, incluindo a manutenção de habitats seminaturais, o armazenamento de carbono no solo e a reciclagem de nutrientes. Ainda assim, sustenta que o setor também terá de contribuir para reduzir os impactos negativos da agricultura no clima e no ambiente.

Quatro frentes prioritárias para mudar o setor

O grupo temático identificou quatro grandes áreas de ação consideradas essenciais para melhorar a sustentabilidade dos sistemas pecuários.

A primeira diz respeito à gestão da terra, com foco no reequilíbrio da densidade animal e na adaptação dos sistemas produtivos à capacidade de carga dos territórios. O documento aponta para a necessidade de evitar tanto a concentração excessiva de animais em algumas regiões como o abandono de outras áreas, defendendo uma maior diversificação e circularidade nas explorações.

A segunda área centra-se na relação entre agricultores e cadeia de valor. A publicação considera que os custos e riscos da transição para modelos mais sustentáveis não podem recair apenas sobre os produtores e defende mecanismos que permitam valorizar comercialmente as credenciais ambientais da produção pecuária e remunerar serviços de ecossistema.

A terceira prioridade passa pela comunicação e sensibilização dos consumidores. A EU CAP Network entende que é necessário promover uma narrativa mais equilibrada sobre a pecuária, o bem-estar animal e a sustentabilidade, assim como melhorar a informação disponibilizada ao público, nomeadamente através de rotulagem mais clara, ferramentas digitais e contacto direto com as explorações.

Por fim, a quarta área destaca a importância da atratividade das zonas rurais como locais para viver e trabalhar. O texto recomenda reforçar serviços, infraestruturas e oportunidades económicas para fixar população, atrair jovens agricultores e criar condições para uma atividade pecuária viável em regiões mais remotas.

Mudança tem de envolver toda a cadeia

Uma das ideias mais vincadas da factsheet é a de que nenhum tipo de ação funciona isoladamente. A mudança, sustenta o documento, terá de ser construída em vários níveis ao mesmo tempo — desde a exploração agrícola até à indústria, à distribuição e ao comportamento do consumidor.

A publicação insiste também na importância dos dados para medir a sustentabilidade dos sistemas pecuários. Entre as recomendações está a criação de sistemas de informação transparentes, acessíveis e harmonizados entre Estados-Membros, baseados em indicadores ambientais, económicos e de bem-estar animal, com reconhecimento do agricultor como proprietário desses dados.

Exemplos da Grécia à Suécia, passando por Portugal

A factsheet apresenta vários casos práticos analisados no âmbito do grupo temático e que são apontados como fonte de inspiração para outros territórios.

Entre eles está o projeto Fertiwool, em Creta, na Grécia, que transforma lã residual em pellets fertilizantes biodegradáveis, reduzindo desperdício e melhorando a retenção de água no solo. Na Suécia, a certificação Naturbeteskött é destacada como exemplo de valorização comercial de carne produzida em pastagens seminaturais.

Na Roménia, o documento refere soluções encontradas em zonas montanhosas e remotas para responder ao despovoamento, ao isolamento e às fragilidades de mercado, enquanto nos Países Baixos são destacados sistemas de monitorização e remuneração da sustentabilidade, como o Biodiversity Monitor.

Portugal surge representado pela Companhia das Lezírias, perto de Lisboa, apresentada como exemplo de sistema silvo-pastoril extensivo em montado, conciliando atividade pecuária, biodiversidade e resiliência produtiva.

PAC atual e próxima reforma em foco

O documento enquadra estas propostas no atual período de programação da PAC 2023-2027, referindo, por exemplo, o recurso a eco-regimes e outras medidas inscritas nos Planos Estratégicos da PAC para apoiar práticas mais sustentáveis. Um dos exemplos citados é o da Flandres, na Bélgica, onde foi desenvolvido um acordo para reduzir emissões de metano entérico no setor bovino, articulado com apoios públicos.

Ao olhar para a próxima fase, a factsheet defende que a PAC 2028-2034 deverá apoiar a futura Estratégia Europeia para a Pecuária, garantindo coerência com outras políticas da União, como as metas climáticas, o restauro da natureza, a legislação de bem-estar animal e os instrumentos de renovação geracional.

Setor pede políticas estáveis e ajustadas ao território

No essencial, a publicação da EU CAP Network conclui que o futuro da pecuária europeia dependerá menos de soluções padronizadas e mais de políticas públicas estáveis, incentivos adequados e respostas ajustadas à realidade local.

A mensagem final é de que a sustentabilidade e a competitividade do setor só poderão avançar de forma duradoura se houver uma abordagem sistémica, capaz de ligar produção, território, mercado e consumidores numa mesma estratégia de transição.



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