Publicado 07/08/2026 12:41 | Editado 07/08/2026 12:42

Para Hegel, a história é o movimento do Espírito em busca da verdade absoluta. Para Marx, porém, a história se move por contradições reais, concretas — como a que existe no capitalismo: de um lado, a sociedade produz cada vez mais riquezas, com máquinas, ciência e trabalho coletivo; de outro, essa riqueza é apropriada por uma minoria, que explora a maioria. É essa contradição — e não ideias abstratas — que impulsiona a história. Em A Ideologia Alemã , Marx e Engels mostram que não é a consciência que cria o mundo, mas o mundo material, real, que forma nossa consciência.
O trabalho é o que nos humaniza — como demonstrou Engels, foi ele que nos fez humanos, ao longo de um processo histórico que desenvolveu a mão, o cérebro e a linguagem. Mas no capitalismo, o trabalho alienado nos desumaniza: a atividade vital converte-se em força de trabalho vendida, gerando mais-valia e separando o trabalhador de sua própria potência criadora, que se volta contra ele como força estranha e hostil.
Essa separação entre o trabalhador e o fruto de seu trabalho é estrutural: decorre das relações de produção capitalistas, que constituem a infraestrutura econômica. Sobre essa base material, ergue-se a superestrutura jurídico-político-ideológica, cuja função é legitimar a exploração, naturalizar a desigualdade e ocultar a contradição fundamental entre capital e trabalho. Essa contradição — que atravessa toda a história do capitalismo, da acumulação primitiva à concorrência liberal, do monopólio ao capital financeiro — atinge seu ápice na fase imperialista, quando a exportação de capital e a dominação financeira subordinam as nações periféricas e intensificam a exploração da força de trabalho em escala global. É desse movimento contraditório que se desdobra a ofensiva imperialista contra os trabalhadores e as nações periféricas.
O imperialismo não nasceu com Trump; é a forma superior e última do capitalismo em sua fase de financeirização e exportação de capital, cujas raízes na América Latina remontam à Doutrina Monroe (1823) e ao Corolário Roosevelt (1904). Ao longo do século 20, os Estados Unidos intervieram na região — da Argentina ao México, passando por Brasil, Chile, Peru, Bolívia, Uruguai, Colômbia, Venezuela, Guatemala, Nicarágua, Granada, El Salvador e Panamá — sempre para garantir seus interesses econômicos e estratégicos, com o apoio de governos locais subservientes. Esse histórico de dominação chega ao século 21 com a violência ampliada pelo capital financeiro e pela crise estrutural do capitalismo.
A agressividade imperial não conhece fronteiras: enquanto decapitava líderes no Irã, os EUA reeditaram na América Latina a Doutrina Monroe em sua versão mais brutal — a “Donroe”. O sequestro político de Maduro, a pressão criminosa sobre Cuba e as interferências eleitorais na região não são exceções, mas a regra de um império em decomposição. Em janeiro de 2025, a CIA foi autorizada a realizar operações clandestinas na Venezuela; em março, ataques no Caribe — operação “Lança do Sul” — mataram ao menos 80 pessoas, com execuções sumárias denunciadas pela ONU. Trump chantageou a Argentina com 20 bilhões de dólares para consolidar Milei, e o Brasil viu sua pauta exportadora ameaçada por tarifas arbitrárias.
A escalada incluiu a indicação do deputado Daniel Perez para embaixador em Brasília antes do agrément, quebrando a praxe diplomática. Em julho de 2026, Trump tentou enviar dois diplomatas para “lançar dúvidas sobre o sistema eleitoral brasileiro”; o Itamaraty negou os vistos. Em retaliação, os EUA revogaram o visto da embaixadora Maria Luiza Viotti. Simultaneamente, Milei viajou ao Brasil para a convenção do PL que oficializou o fascistoide Flávio Bolsonaro, agredindo o presidente Lula com ofensas verbais — presença inconveniente que o chanceler Mauro Vieira classificou como uma “interferência em assunto doméstico”. O Itamaraty convocou seu embaixador em Buenos Aires de volta e rebaixou as relações diplomáticas, revelando o uso de satélites regionais para desestabilizar governos soberanos.
A América Latina, nesse cenário, é o território da contradição mais aguda. Cada onda progressista — de Allende a Lula, de Chávez a Evo — gerou sua antítese golpista, e cada golpe produziu novas formas de resistência. Com o avanço da direita na região — Argentina, Equador e Peru — os governos populares do Brasil, México e Uruguai tornam-se exceção. Embora em graus distintos, enfrentam a ofensiva imperialista que, sob Trump, reedita a Doutrina Monroe de forma brutal. O Uruguai, embora enfrente pressões do imperialismo, não sofre a mesma intensidade de interferência direta que Brasil e México: sua menor centralidade geopolítica o torna menos visado pela ofensiva imperialista, que se concentra com maior força sobre o Brasil — pela dimensão de sua economia, riquezas e soberania estratégica — e sobre o México, pela fronteira imediata com os EUA. Contudo, os três países compartilham o mesmo movimento de resistência à submissão imperial e estão sob um cerco comum que exige solidariedade e ação coordenada.
O caso brasileiro é a síntese histórica dessa luta. Desde o golpe de 1964 — apoiado pela CIA e reconhecido por Lyndon Johnson em 24 horas — até o impeachment de Dilma em 2016, a prisão arbitrária de Lula em 2018 e a ascensão bolsonarista, o Brasil vive o pendular entre soberania e submissão. Em 2026, o dilema se recompõe como antítese radical: ou reelegemos Lula, ou o fascismo e o arbítrio avançarão, liquidando direitos, destruindo a democracia e entregando riquezas, minerais raros e críticos, pré-sal e Amazônia ao capital estrangeiro.
A dialética materialista não é determinismo mecanicista. Ela é, como ensinou Gramsci, a filosofia da práxis: o futuro se faz na organização, na consciência crítica e na luta política. A reeleição de Lula não é o “Absoluto” final da história, mas a síntese necessária para abrir novas contradições — e, com elas, novas possibilidades. Sua vitória fortalece a democracia e a soberania nacional, recoloca a luta dos trabalhadores no centro da história — luta que aponta para o socialismo como sua realização plena.
Essa análise concreta da ofensiva imperialista e do dilema brasileiro confirma o que a dialética materialista nos ensina: a contradição entre produção socializada e apropriação privada, agora potencializada pelo imperialismo, se desdobra em luta de classes e em disputa pelo voto popular. Assim, o Brasil, neste momento, é o terreno dessa contradição.
Esse desafiador 2026 exige engajamento prático: envolver-se, comprometer-se, lutar pela reeleição de Lula — pelo presente e futuro do povo trabalhador, pelo Brasil como farol para a América Latina e o Sul Global. A história não espera — ela se faz com a práxis de cada um de nós.
REFERÊNCIAS
ENGELS, Friedrich. Dialética da natureza. São Paulo: Boitempo, 2020.
FERNANDES, Florestan. A revolução burguesa no Brasil: ensaio de interpretação sociológica. 5. ed. São Paulo: Globo, 2006.
GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. Porto Alegre: L&PM, 2010.
GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2024. v. 1.
MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. São Paulo: Boitempo, 2023. v. 1.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007.
PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil contemporâneo. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
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