Brasil enfrenta eleições com 13 dos países latino-americanos à direita e extrema-direta
As eleições gerais do Brasil serão disputadas em outubro, mas, neste ano, já ocorreram pleitos nacionais em outros países latino-americanos como Costa Rica, Colômbia e Peru, todas vencidas pela extrema direita. A TVT News conversou com especialistas para saber como está o cenário político na América Latina, se ele influencia no Brasil, ou, se é o nosso país que é grande força pendular da região.
Influência dos EUA nas eleições da América Latina
Desde que Donald Trump retornou à Casa Branca no início de 2025, forças conservadoras ou de extrema direita alinhadas aos interesses de Washington venceram todas as eleições presidenciais disputadas na América Latina.
A isso, se somam a intervenção militar na Venezuela, com o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira dama Cilia Flores, e o cerco com ameaça de invasão à Cuba.
Para o sociólogo Francisco Prandi, uma vitória do Lula manteria um governo progressista sitiado internamente e uma certa ilha de progressismo, principalmente, na América do Sul.
“Só sobraram [à esquerda] o Brasil, Uruguai e a Venezuela, que está sob esse cerco dos Estados Unidos. Com muito pouca margem de manobra, mas ainda assim, é uma retaguarda para esses outros movimentos progressistas.”

Rose Martins, mestra em economia política internacional, vê mais do que uma influência da extrema direita trumpista no Brasil, mas um processo de interferência.
“Tem a ver com o documento de segurança nacional dos Estados Unidos, que foi lançado no final do ano passado, do que eles pensam como estratégia para nossa região, que eles querem que esteja sobre o domínio dos Estados Unidos e que, o que eles chamam de potências estranhas, no caso, a China e a Rússia, sejam expulsas da região”.
Ela cita o caso do Hondurasgate, áudios que foram revelados numa investigação jornalística, que mostram como Estados Unidos e Israel querem interferir nas eleições na América Latina.
“Eles já estão fazendo uma pressão que, começa com essa questão de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. Isso cria uma pressão para o governo brasileiro, porque pode ser utilizado, muito facilmente, pelo Donald Trump, os instrumentos de pressão militar sobre o Brasil, tanto no nosso território como na fronteira”, avaliou Rose.

Ela acredita que essa estratégia tem chances de ser mais direta. “Se eles não conseguirem, porque nós temos também temos um sistema eleitoral consolidado, a gente pode ter um outro capítulo que é não reconhecerem o resultado das eleições no Brasil, como o Trump já fez, por exemplo, na Venezuela”.
Sobre a influência dos EUA, Prandi avalia que é diferente de outras ondas de direita. “A gente já teve outras ondas de direita, o governo Fujimori [Peru], Uribe na Colômbia com uma vinculação muito forte com paramilitares. A novidade é que esses governos, não estão se alinhando à política geral dos Estados Unidos, eles estão se alinhando especificamente com a política do governo Trump”.
Segundo o sociólogo, a jogada de Javier Milei, que chamou o presidente Lula de ladrão e corrupto durante convenção eleitoral do Partido Liberal (PL) visa criar um ambiente de incertezas. “Passar uma imagem que o Lula não sabe negociar, vai ficar isolado”.

Rose também cita a intromissão dos Estados Unidos sobre o debate da liberdade de expressão, já reforçado por Elon Musk quando o Twitter foi banido do Brasi.
“As big techs tem um papel nessa estratégia, que é ser muito conivente com discursos de ódio nas redes sociais, com os discursos da extrema direita […] o consulado de São Paulo recebeu influencers de extrema direita para dar um curso sobre liberdade de expressão. Essa coisa de dizer que o Brasil é uma ditadura de esquerda, que o judiciário brasileiro opera junto com o governo beneficiando um partido de esquerda, um presidente de esquerda”, frisou.
Marco Rubio sucessor de Trump?

O secretário de Estado Marco Rubio, filho de imigrantes cubanos que chegaram ao estado da Florida antes mesmo da Revolução Cubana, já disputou a indicação presidencial em 2016 e, é visto como o responsável pelo atual intervencionismo americano.
Para Prandi, a disputa entre quem vai ser o sucessor de Trump está entre o vice-presidente James David Vance e o secretário de Estado Marco Rubio. Enquanto Vance é um grande defensor do “América First” (América primeiro), Rubio está mais preocupado com a América Latina. Em uma eventual presidência de Rubio essa política intervencionista seria mantida.
“O Marco Rubio construiu a vida política dele dedicada a defender sanções agressões contra Cuba, Venezuela e Nicarágua. Ele depende de criar essa hostilidade com qualquer governo que ele considere inimigo na região, isso inclui o Brasil”, enfatizou Prandi.
Rose Martins vê Marco Rubio como um ator mais importante que Trump para tornar a América Latina um quintal dos Estados Unidos.
“Ele não é exatamente um trumpista […] mas, é, claro, ele está alinhado com essa política de retomada da hegemonia norte-americana. É um cara que caminha junto com o Donald Trump para tornar a América Latina uma área de influência restrita dos Estados Unidos, sem a participação de nenhuma outra potência[…] o objetivo é que esses países sigam a cartilha de segurança nacional dos Estados Unidos”, concluiu a internacionalista.
Argentina e o drama trabalhista

A argentina mudou os ventos à esquerda, primeiro elegendo Maurício Macri e, depois com a presidência de Javier Milei, que sinaliza cada vez mais apoio a Flávio Bolsonaro. No último mês, Milei participou do lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro à presidência e fez críticas à Lula.
Em entrevista, a jornalista especialista em América Latina e pesquisadora Carla Perelló, deixa claro que a situação na Argentina preocupa.
Ela aponta o fato de o congresso querer voltar a discutir a reforma política, que pode eliminar as primárias abertas — uma instância de eleição para as candidaturas que é aberta e as pessoas decidem os candidatos. No Brasil, os partidos decidem por meio das convenções, lá é uma votação obrigatória.
“Milei quer eliminar essa instância, porque funciona às vezes como uma espécie de pesquisa e, às vezes, permite a oposição construir uma força maior”, avaliou.
A questão trabalhista é outro ponto. A reforma trabalhista de Milei foi aprovada no Senado, em fevereiro, sob vários protestos de alas progressistas. O texto, que entre as mudanças, acabou com as multas por falta de registro em carteira, foi denunciada na Organização Internacional do Trabalho pela Central Operária e, também, na justiça do país.

“Até 60 empresas fecharam por dia, só em abril de 2026. Mais de 100 mil pessoas saíram do mercado de trabalho formal. Cerca de 70 mil foram demitidos pelo Estado Nacional. Até o ano passado, ele [Milei] publicava todos os meses quantas pessoas tinham sido demitidas do Estado ”, criticou.
Para a jornalista, isso resulta em uma população cada vez mais pobre. “Cada vez com menos possibilidades de trabalho. Trabalho tem entre aspas. Não tem qualidade. As pessoas têm mais de três trabalhos e, às vezes, não conseguem comprar comida para o mês inteiro”.
Sobre os rachas no peronismo, Carla explica que existe uma grande diferença entre a ex-presidenta Cristina Kirchner e o setor dela — do filho dela com Máximo Kirchner — com o atual governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, mas ela se preocupa que isso impacte a abstenção.
Para finalizar, Carla pontua que Milei tem destruído o estado e isso é um experimento para América Latina como foi Bolsonaro. “Ele [Milei] disse que destruiria o estado de dentro. E isso que ele está fazendo. O Milei é o líder e representante da extrema direita internacional junto com Trump, junto com Netanyahu e é o maior inimigo da população argentina”.
No âmbito internacional, Milei rejeitou a tentativa de um genocídio na Palestina, a ideia da escravidão como o maior genocídio da história e “aí ele quebrou laços históricos que a Argentina tinha criado com os países de África”, concluiu Carla.
Venezuela e a intereferência imperialista

Em janeiro, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro e sua esposa Cilia Flores foram presos pelos Estados Unidos. Para o sociólogo, Francisco Prandi, o processo contra o Nicolás Maduro é um processo fraudulento do começo ao fim. “O cartel de Los Soles, que era a razão principal pela qual ele estava sendo acusado, simplesmente, não existe e isso a própria justiça americana reconheceu”, lembrou.
Sobre a teoria que afirma que os irmãos Rodrigues (Delcy e Jorge) teriam pactuado no Catar com a inteligência norte-americana e permitido a ocupação da Venezuela, ele questiona o porquê até o momento não ouve interferência nas comunas.
“Continua havendo consultas nacionais populares, que são esse embrião de o poder popular que o rstado venezuelano construiu ao longo desses anos. Por que eles não mudaram a estrutura formativa das Forças Armadas? O Chaves ainda está com um brasão do exército, ele ainda é reivindicado, Bolívar é reivindicado”, argumentou.
Segundo Pradi, há uma mudança na linha política e passou-se de uma linha de confronto para uma linha pragmática de sobrevivência. “ A aposta que Delcy Rodriguez passa é ‘vamos tentar fazer melhorias econômicas e a partir disso reconstruir um apoio popular. Para isso, a gente precisa de uma convivência com os Estados Unidos’. Se isso vai dar certo, se não vai dar certo, é o futuro e, principalmente, a luta política interna que vai dizer, porque isso cria ruídos no chavismo”.
Colômbia e a questão da fraude

Na avaliação de Sebastian Ronderos, professor em Teoria Social e Política na Fundação Getúlio Vargas (FGV) e pesquisador da Vrije Universiteit Brussel, da Bélgica, a onda reacionária que agora ascende na América Latina, ajuda a estruturar vias simbólicas para direita brasileira, mas uma vitória do Lula fortalece e abre um espaço para reestruturar também setores progressistas.
“A questão é, que um futuro governo Lula, seria um momento de maior isolamento do progressismo brasileiro desde a primeira eleição do Lula”.
Para ele, depois da derrota do Petro, Cláudia Sheinbaum e Lula são os dois grandes atores, disputando, institucionalmente, projetos progressistas na região “A participação direta do Trump na eleição da Argentina foi muito favorável. Na Colômbia e no Brasil, por exemplo, eu acho que o Trump entendeu que não deve agir de forma tão direta e tão aberta, porque me parece teve a leitura acertada de que isso estava favorecendo os setores de esquerda”.
O governo Lula tem usado o ataque ao pix por parte do governo Trump e o tarifaço de 25% sobre os produtos brasileiros para descredibilizar a família Bolsonaro e fazer uma grande defesa da soberania.
O então presidente de esquerda Gustavo Petro, que perdeu as eleições para o ultradireitista Abelardo de la Espriella, afirmou que as eleições foram fraudadas. Ronderos concorda que, sempre se tem indícios de processos indevidos de fraude nas eleições da Colômbia, com compra de votos e mortos votando.
A Colômbia tem um sistema de votação em papel, que depois é articulada e agregada através de um software e o pesquisador afirma haver indícios ainda não comprovados de hackeio por parte de empresas, algumas ligadas a Israel, mas que alerta que “ há uma carência de evidências contundentes, por meio das quais, se possa afirmar que, por exemplo, na Colômbia o De la Espriella ganhou por causa de fraude.”
A analista internacional Rose Martins fala para além da denúncia de Petro da contagem de votos. “ Teve dentro da Colômbia a atuação das big techs, o dinheiro do lobby sionista que escoou através da embaixada dos Estados Unidos, uma pressão retórica também, que contou com uma outra figura de extrema direita da região que é o Noboa, presidente do Equador. Então, acho que eles estão se juntando, em um arcabouço de pressão”, disse.
A Colômbia acusou o Equador de interferência, depois do país resolver eliminar tarifas sobre importações às vésperas das eleições colombianas.
Roderos vê a ascensão da direita na Colômbia como uma reação ao primeiro governo de esquerda da história do país.
“A Colômbia nunca [antes] teve um governo de esquerda. Houve processos políticos com a capacidade de ganhar eleições, mas todos os candidatos foram sempre assassinados. Desde Eliécer Gaitán, que foi assassinado em 1948, até no comezinho dos anos 1990, quando foram assassinados três candidatos presidenciais. Então, a Colômbia viveu agora um momento atípico onde setores progressistas, de origens mais populares, conseguiram chegar até a representação executiva”.
Outro ponto citado pelo professor, é a redistribuição de renda e uma recomposição na demografia socioeconômica feita por Petro, além do processo de paz e desmobilização das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).
“Se cria o processo de paz, depois vem um governo da direita que se soma a pandemia, onde a proposta era acabar com os acordos de paz, não houve uma implementação dos acordos e deixou um vácuo gigantesco de recursos, disputa de diferentes atores armados. […] Petro entra no momento, no qual, há o incremento da produção de coca, uma rearticulação de setores armados muito mais ligados ao tráfico que com interesses políticos”, pontuou Ronderos.
O analista cobra ainda que a América Latina olhe mais o processo de violência política, que é comum na Colômbia. “É um chamado de atenção que me parece importante para nos mantermos atentos a como processos de fraude, ou mudanças institucionais através de reestruturações constitucionais, podem vir também da mão de processo de extermínio de setores sociais e políticos”, alertou.
Cuba: o risco da ilha

Prandi não descarta que Donald Trump pode tentar invadir Cuba já que “ele é literalmente, o doidinho com o dedo no botão da bomba atômica”.
No entanto, acredita que a oposição é muito forte e que teria resistência. “Se tem uma coisa que americano não tolera, é, caixão chegando em avião com a bandeira dos Estados Unidos. E isso já aconteceu no Irã […] se houver uma resistência muito forte, eu acho que a situação interna do governo Trump pode se deteriorar ”, opinou.
México

Na contramão de alguns países da América Latina, o México com Claudia Sheinbaum reduziu a jornada de trabalho para 40 horas semanais. Desde 2021, aumentou em 122,3% o salário mínimo segundo a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Além disso, formalizou mais de um milhão de trabalhadores de aplicativos.
Rose Martins destaca que o governo de Claudia Sheinbaum é a mais avançada experiência do ponto de vista da esquerda e conseguiu um fato extraordinário: eleger os juízes das corte superiores. “Eles fizeram uma reforma no judiciário e se você assiste os discursos da Cláudia, ela sempre bate na tecla que o governo dela não é um governo neoliberal. Então eles têm uma política econômica clara”.
Assim como o Brasil, Prandi destaca o peso econômico do México e cita alguma lições que o partido Movimento Regeneração Nacional (Morena) deixou. “ Na ausência de uma conjuntura revolucionária, é possível ser reformista, mas além de tudo é possível você mobilizar organizando […] no período do Obrador, eles tinham conseguido formar quase que 100 mil militantes por ano na escola de formação política deles” , lembrou.
Risco da democracia brasileira
Prandi avalia que o Brasil precisa se atentar a possíveis ameaças à democracia em vez de dizer que as coisas não chegam aqui já que temos instituições sólidas. Ele cita, por exemplo, o tarifaço e o fato do governo Trump ter decidido revogar o visto da embaixadora brasileira Maria Luiza Viotti.
O sociólogo lembra do golpe militar em Honduras, em 2009, que derrubou Manuel Zelaya. Outro caso foi o golpe parlamentar em 2012, que derrubou o Fernando Lugo, no Paraguai. “Diante de denúncia sólida de fraude nas eleições do Peru, nas eleições da Colômbia, o Brasil não tem o direito de fingir que nada é com a gente de novo […] essas eleições, para além de não estarem decididas, vão ser eleições duríssimas e eu acho que com o ineditismo de intervenção que a gente nunca viu antes aqui no Brasil”, avaliou.











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