Mauricio Duenas Castaneda / EPA

Gianni Infantino, presidente da FIFA
UEFA, CONCACAF e AFC partilham ideias numa carta aberta à família do futebol. Porque o futebol “não pertence a ninguém”.
Mais do que a um patrão
Que a uma rotina ou profissão
Mais do que a um partido
Que a uma equipa ou religião
Tu pertences a ti
Não és de ninguém
A letra tem 36 anos, é de Miguel Ângelo, e é da famosa música Nasce Selvagem, incluída no álbum Desalinhados.
De 1990 saltamos para 2026 e esses versos poderiam ser enquadrados no futebol.
Mais concretamente na carta aberta que AFC (Ásia), CONCACAF (América do Norte e Central) e UEFA (Europa) publicaram nesta segunda-feira. É assinada por cada presidente e secretário-geral das três associações.
O destinatário oficial é a “família do futebol”. O alvo da carta é o presidente da FIFA, Gianni Infantino. O seu nome nunca é mencionado, mas é a actual liderança da FIFA que é atacada.
Nomeadamente a ideia de vender parte da exploração comercial do Mundial de futebol (e outras competições) a investidores privados.
Logo no início da carta, lembramo-nos dos Delfins: “O futebol é a maior paixão partilhada do mundo. Não pertence a nenhum indivíduo nem a nenhuma instituição”.
O documento reforça a ideia de que o futebol é dos jogadores, dos adeptos, dos clubes, das federações. O crescimento no futebol “nunca foi obra de uma única pessoa”.
Ampliar o Mundial ou distribuir recursos pelos países foram o resultado do trabalho de “milhares de pessoas que dedicam as suas vidas ao futebol”. Foram “conquistas partilhadas”.
O que está em causa
“Isto não tem a ver com dinheiro”, lê-se na carta aberta.
Também não tem a ver com um país “perder o apoio que conquistou”.
E também não é sobre uma eventual revisão de expansão de torneios, ou do número de vagas por continente para o Mundial.
“Trata-se de algo mais fundamental: a integridade do jogo e a integridade daqueles que foram eleitos para o liderar. A liderança no futebol não é uma posse. Não se trata de deter – nem de exigir – o poder para o deter. É um dever de serviço para com a família do futebol que a confia”.
Quebra de confiança
E a carta das três federações continentais é directa: “Quando a confiança é quebrada por meio do engano, quando um indivíduo se coloca acima do colectivo que lhe confiou autoridade, esse dever foi abandonado”.
Houve “falha de discernimento” no processo, uma “proposta apresentada num prazo apertado, sem uma consulta significativa”, uma estratégia destinada a “limitar o escrutínio”.
Em causa uma proposta “intrinsecamente errada”, que a FIFA continua a não admitir, numa carta recente que enviou a todas as federações nacionais: “Continua a não haver qualquer reconhecimento de que a tentativa de vender uma participação no Campeonato do Mundo da FIFA constituiu um grave erro de avaliação”, repetindo a expressão “quebra fundamental da confiança”.
A reunião de urgência em Marrocos, para a qual nenhuma federação foi convidada (nem nenhum membro do Conselho da própria FIFA) reforça as preocupações: “Representa uma continuação do próprio padrão de conduta que nos trouxe até este momento. Não é a conduta de um guardião do futebol, mas sim de alguém que acredita que o futebol lhe deve prestar contas”.











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