Começa a partida, o Brasil entra em campo. Mas não estamos em Nova York ou Houston, tampouco em uma partida de futebol. O jogo aqui é outro. Entre tábuas e facas afiadíssimas, chefs de diferentes nacionalidades apresentam a um júri do Japão seus cortes precisos. Estamos na World Sushi Cup, a Copa do Mundo do Sushi. E quem nos representa é Allan Beckmann, nome por trás do Satori Omakase, endereço intimista aberto há poucos meses em Pinheiros.
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Sorte do Brasil, o chef não é novo no torneio. Longe disso, ficou entre os sete melhores do mundo em 2025. Agora, volta para levar a taça no evento que ocorre entre 18 e 21 de agosto, em Tóquio:
“A experiência do ano passado foi fundamental para a minha preparação. Era a minha primeira vez competindo no Japão e, naturalmente, vivi tudo com muita emoção”, conta Beckmann.
“Neste ano, chego muito mais preparado. Trabalhei meu lado mental, conheço melhor a dinâmica da competição, entendo com mais clareza os critérios de avaliação e sei exatamente o nível de excelência que os jurados esperam.”

Um campeão na busca do título
A qualificação de Allan o precede – trata-se de um dos 90 profissionais no mundo com a certificação Kuro Obi, considerada a “faixa preta” do sushi. Concedida pela Federação do Sushi do Japão, a avaliação confere a técnica, mas também a postura dos profissionais, sua higiene, respeito à tradição e conhecimento em cultura japonesa. Tudo feito em uma série de testes de alta exigência. Muitos desistem antes de participar do processo. Allan conquistou o reconhecimento já em sua primeira tentativa.
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“Eu não estudei apenas para conquistar a Kuro Obi; estudo todos os dias para manter um padrão elevado de qualidade e continuar evoluindo como profissional”, pondera.
De fato, a trajetória que o conduz ao reconhecimento global passa por outros marcos, desde o início de sua carreira, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, passando pela conquista do título de campeão brasileiro de sushi, em 2024.

Mais recentemente, seu trabalho o conduz a São Paulo, onde é convidado pelo empresário Thiago Afonso (Florella Bistrô) a assumir, ao lado do chef Denis Watanabe, o balcão do Satori Omakase, uma das boas novidades que trouxeram novo fôlego à rua Ferreira de Araújo, em Pinheiros.
A experiência Satori
Na parede do Satori Omakase, o certificado Kuro Obi de Allan fica em destaque. Exibido sobre uma katana, a tradicional espada japonesa, é um dos poucos detalhes de uma decoração discreta. São apenas 14 lugares, todos diante de um balcão amplamente iluminado à frente da cozinha. Ao longo de duas horas, é por ele que passarão as 19 etapas do menu degustação (R$ 580).
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No menu que o Seu Dinheiro conferiu, a experiência contava com três entradas autorais, um grelhado, uma seleção de sashimis, uma de niguiris, um hand roll, além de uma sobremesa. A cada etapa, um preparo diferente. Em comum, um diálogo entre uma tradição japonesa secular com elementos da cozinha brasileira.
“A gastronomia japonesa é baseada em equilíbrio, precisão e respeito ao ingrediente. Por isso, cada elemento brasileiro é utilizado de forma criteriosa, com o objetivo de realçar o prato, e não transformá-lo em outra cozinha”, reflete o chef.
O resultado vem, por exemplo, em um corte de peixe com ovas, pincelado com shoyu de uma tradicional fabricante japonesa com 400 anos de história e finalizado com raspas de bergamota gaúcha. Ou ainda em um Niguiri finalizado com toques de castanha-do-pará. Nos peixes, mais diálogo Brasil e Japão: clássicos como atum e ouriço se unem a uma variedade de peixes que incluem espécies nativas, como carapau, robalo, pargo e olho-de-cão.

Destaque, de acordo com o chef, é o pargo. Considerado um peixe de celebração no Japão, ele ocupa um lugar especial, no início da sequência de nigiris. “É um peixe delicado, elegante e de sabor muito equilibrado”, explica Beckmann. “No Satori, ele é servido com shiso e finalizado com umeboshi, a tradicional ameixa japonesa, criando um contraste de frescor, acidez e umami que costuma surpreender os clientes logo na primeira mordida.” E surpreende, de fato.
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Jogando fora de casa
Campeão brasileiro em uma disputa global, Allan Beckmann sabe que chega em uma cidade repleta de craques. Ao trocar Santa Maria por São Paulo, Allan passou a dividir espaço com um mercado repleto de nomes que são referências para ele. Entre os melhores, cita o Aizomê, dos chefs Telma Shiraishi e Igor Suzukawa, na Japan House, por exemplo, além do Sushi Vaz.
No momento, porém, o chef fixa o olhar em outro canto do mundo. No Japão desde a última semana, ele participa de treinamentos em Nagoya e Chiba, antes de seguir para Tóquio e disputar provas que vão de abertura de pescados a uma degustação técnica de sushi.

“Estou com os pés no chão, totalmente focado e treinando intensamente para dar o meu melhor”, diz Allan. O objetivo, para ele, é representar bem o Brasil e buscar, quem sabe, um raro título mundial para o país em 2026.
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