Em 2022, a fotografia política da América do Sul parecia contar uma história muito diferente da actual: Alberto Fernández governava a Argentina desde 2019, Luis Arce tinha sucedido Evo Morales na Bolívia em 2020, Gabriel Boric acabara de chegar à presidência do Chile, Pedro Castillo governava o Peru desde 2021, Gustavo Petro acabava de ser eleito na Colômbia e, no Brasil, Lula preparava o regresso ao Planalto, numa sequência de vitórias que vários analistas começaram a descrever como uma segunda ‘onda rosa’, ou pink tide, distinta da vaga progressista que havia marcado a América Latina nos anos 2000.
A expressão não é uma invenção retrospectiva: em Julho de 2022, a Americas Quarterly escrevia que a iminente tomada de posse de Gustavo Petro confirmava uma tendência «inequívoca» na política latino-americana, enquanto a BBC descrevia a sucessão de vitórias da esquerda desde 2018 como uma nova onda política; meses depois, já com Lula eleito, a Folha de S.Paulo escrevia que os seis países mais populosos e as principais economias da América Latina – México, Argentina, Brasil, Peru, Colômbia e Chile – tinham passado a ser governados por presidentes de esquerda ou centro-esquerda.
Hoje, o mapa parece quase o seu negativo. A vitória de Abelardo de la Espriella na Colômbia, seguida da tomada de posse do novo Presidente a 7 de agosto, foi o episódio mais recente de uma sucessão de vitórias que deslocou o eixo político sul-americano para a direita; uma análise da Folha de S.Paulo resume a metamorfose de forma particularmente eloquente: em 2022, Argentina, Bolívia, Chile, Guiana, Peru, Venezuela e Colômbia eram governados pela esquerda; quatro anos depois, Colômbia, Equador, Peru, Bolívia, Paraguai, Chile e Argentina estão nas mãos de governos de direita ou de direita radical.
De la Espriella é o expoente dessa mudança. Chega como outsider, empresário e advogado sem experiência anterior em cargos públicos, eleito contra Iván Cepeda, o candidato apoiado pelo Presidente cessante Gustavo Petro, e prometendo precisamente o contrário daquilo que Petro tentou fazer durante os seus quatro anos de mandato. Menos negociação com os grupos armados, mais força militar, combate frontal ao narcotráfico, redução do Estado e uma política económica mais favorável ao investimento privado.
No seu primeiro discurso como Presidente, De la Espriella prometeu uma ofensiva robusta contra o crime organizado e anunciou uma redução do tamanho do Estado que poderá chegar aos 40%, ao mesmo tempo que defendeu a recuperação dos sectores petrolífero e energético e o recurso a medidas particularmente duras contra a produção de cocaína e os grupos armados; a Reuters descreveu a agenda como uma combinação de austeridade fiscal, liberalização económica e endurecimento radical da política de segurança.
O continente que se cansou de esperar
Talvez seja esse o primeiro ponto a compreender, pois a direita não está a vencer simplesmente porque os sul-americanos se tenham tornado, de repente, conservadores, liberais ou libertários. Tudo indica estar em ampliação um eleitorado profundamente fatigado, desconfiado das velhas promessas e cada vez menos disposto a conceder aos governos o benefício da dúvida quando a inflação sobe, quando a criminalidade se instala, quando os serviços públicos falham ou quando a economia cresce menos do que aquilo que os discursos eleitorais vaticinavam.
Um estudo da S&P Global identificava já no início do ano precisamente estes dois motores da viragem regional – crescimento económico e combate ao crime – e antecipava a chegada de novos governos dispostos a reduzir o peso do Estado, favorecer o investimento privado e concentrar a agenda política em sectores como energia, mineração e infra-estruturas.
É uma mudança importante porque desloca o centro da discussão. Durante os anos da ‘onda rosa’, a política sul-americana era frequentemente organizada em torno da desigualdade, da redistribuição, dos direitos sociais, do papel do Estado e da memória das ditaduras militares; hoje, a conversa eleitoral é cada vez mais dominada por palavras diferentes: crime, fronteiras, drogas, inflação, crescimento, impostos, austeridade, investimento, ordem. Esta alteração do vocabulário diz talvez tanto sobre a transformação do eleitorado como qualquer sondagem.
A direita percebeu que havia uma parte do continente que já não queria ouvir falar apenas de transformação social e sentir, antes de tudo, que alguém tinha real controlo sobre o país.
Milei abriu a porta
Javier Milei foi provavelmente o político que melhor percebeu esta mudança de humor. Quando chegou à presidência argentina, em Dezembro de 2023, apresentou uma narrativa de ruptura, quase uma cosmologia política própria, na qual o Estado era simultaneamente origem do problema, instrumento de uma elite parasitária e obstáculo à liberdade individual, enquanto os partidos tradicionais eram apresentados como parte de uma engrenagem que tinha conduzido o país à decadência.
A sua vitória não pode ser explicada apenas pela economia, embora a economia seja indispensável para a compreender. Milei conseguiu transformar frustração em identidade política. O eleitor que estava cansado da inflação, da perda de poder de compra e de décadas de instabilidade deixou de votar simplesmente num programa económico diferente e passou a votar contra aquilo que Milei chamou de «casta». A política tornou-se então uma batalha moral entre aqueles que, segundo a narrativa do novo Presidente argentino, queriam preservar o sistema e aqueles que estavam dispostos a destruí-lo.
A fórmula espalhou-se. Não necessariamente a fórmula económica de Milei, porque poucos dos seus homólogos latino-americanos defendem exactamente a mesma radicalidade libertária, mas a fórmula política: apresentar-se como o homem que chega de fora para limpar uma casa que os profissionais da política deixaram apodrecer.
É nesse território que aparecem Daniel Noboa, no Equador, José Antonio Kast, no Chile, Rodrigo Paz, na Bolívia, Keiko Fujimori, no Peru, e agora De la Espriella na Colômbia, apesar das diferenças consideráveis entre todos eles.
Uma análise do Centro de Estudios Internacionales da Universidade Católica do Chile, publicada em Maio, identifica precisamente esta sequência: a eleição de Santiago Peña no Paraguai, de Daniel Noboa no Equador e de Milei na Argentina, seguida pela consolidação da direita em eleições posteriores, reconfigurou significativamente o mapa político regional e tornou o voto de castigo uma das forças centrais da política latino-americana.
O voto de castigo
Esta distinção é fundamental. Se a América do Sul estivesse simplesmente a viver uma conversão ideológica em massa ao conservadorismo, seria relativamente fácil explicar o fenómeno: os eleitores mudaram de valores, os partidos de direita adaptaram-se e o continente deslocou-se para um novo consenso político. Mas não parece ser isso que está a acontecer. O que existe é mais instável. Há um eleitorado que alterna, experimenta, pune, rejeita e que elege a esquerda quando se cansa da direita e que elege a direita quando se cansa da esquerda.
A própria história recente do continente demonstra essa volatilidade: os governos progressistas chegaram ao poder precisamente porque os eleitores estavam descontentes com os governos anteriores, e muitos dos governos de direita que hoje os substituem chegaram ao poder pelo mesmo mecanismo de rejeição.
A política sul-americana parece, portanto, menos uma marcha triunfal de uma ideologia do que uma sucessão de ondas de descontentamento. problema é que, desta vez, a direita encontrou uma linguagem particularmente eficaz para transformar esse descontentamento em poder. A criminalidade, a inflação, a imigração, a desconfiança nas instituições, as redes sociais ajudam e, sobretudo, ajuda a sensação de que os governos progressistas, depois de anos a prometer uma sociedade mais justa, não conseguiram resolver problemas muito mais básicos: segurança, emprego, crescimento e custo de vida.
Foi assim que a política económica se encontrou com a política do medo. E foi assim que a direita encontrou a sua grande oportunidade.
A segurança tornou-se uma questão eleitoral
Em nenhum outro lugar isto é tão evidente como no Equador e na Colômbia. O crescimento do narcotráfico, das organizações criminosas e da violência transformou a segurança numa questão que já não pode ser confinada às páginas de polícia, tornando-se uma variável eleitoral, uma forma de medir a competência do Estado e, para milhões de cidadãos, uma questão elementar de sobrevivência. Daniel Noboa construiu boa parte da sua campanha em torno dessa realidade. De la Espriella fez exactamente o mesmo.
No dia da tomada de posse, em Cali, escolheu uma cidade marcada pela violência e anunciou que abandonaria a estratégia de negociação com os grupos armados defendida por Petro, prometendo recorrer à força contra aqueles que recusassem entregar as armas. A Associated Press nota que a própria escolha de Cali para a cerimónia, em vez de Bogotá, pretendia sublinhar a prioridade dada pelo novo Presidente ao combate aos grupos armados e ao crime organizado. É uma imagem poderosa e a política vive de imagens.
Um Presidente que toma posse numa cidade sitiada pela violência e promete recuperar o território através da força está a dizer mais do que aquilo que caberia num programa eleitoral. Essa vontade e garantia, independentemente de ser concretizada ou não, tem uma força política extraordinária num continente onde o crime organizado passou a contaminar a vida quotidiana, a economia, a política e até a relação dos cidadãos com as instituições.
E agora há uma ilha no meio do mapa
O resultado é uma geografia política quase caricatural. Argentina com Milei. Chile com Kast. Paraguai com Santiago Peña. Equador com Noboa. Bolívia com Rodrigo Paz. Peru com Keiko Fujimori. Colômbia com De la Espriella. E, no meio deste arco, o Brasil. Lula.
O país mais populoso e economicamente mais poderoso da América do Sul tornou-se, paradoxalmente, uma das últimas grandes fortalezas da esquerda democrática no continente, acompanhado pelo Uruguai de Yamandú Orsi e por um pequeno grupo de governos progressistas que, como observa a Folha, ficaram cada vez mais isolados perante o avanço das forças conservadoras.
É por isso que as eleições brasileiras de Outubro vão além das fronteiras do gigante lusófono. Se Lula vencer, a esquerda conservará a sua principal âncora continental. Se perder, o mapa poderá completar uma transformação que, há quatro anos, parecia quase impossível.
E então a pergunta que faz sentido deixará de ser porque é que a América do Sul virou à direita. Passará a ser outra, muito mais incómoda: o que terá a esquerda de fazer para voltar a ser desejada?











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