A blockchain deixou de ser uma tecnologia voltada apenas ao futuro e já faz parte da transformação do sistema financeiro. A avaliação é de Stephano Cordeiro, Digital Assets Specialist no Banco do Brasil, durante o painel “Onboardando Ativos Digitais no Sistema Financeiro Tradicional”, na Blockchain.RIO 2026.
Para o especialista, no entanto, o avanço dos ativos digitais depende de um desafio que vai além da tecnologia: mudar a mentalidade de clientes e das próprias instituições financeiras.
“A blockchain deixou de ser H3 há muito tempo. A blockchain já é H1”, afirmou.
Na classificação citada por Cordeiro, H1 representa tecnologias e iniciativas que já fazem parte da operação atual das empresas. Portanto, segundo ele, a blockchain não deve mais ser tratada como uma aposta distante.
“Ela é o novo trilho. Ela já está no sistema financeiro”, acrescentou.
Banco precisa atender diferentes perfis
Cordeiro destacou que implementar novas soluções no Banco do Brasil exige atenção especial ao perfil diversificado dos clientes da instituição.
Segundo ele, “o Brasil tem vários Brasis dentro dele”. Por isso, o banco precisa considerar desde grandes empresas e investidores de alta renda até pequenos produtores, feirantes, correntistas e pensionistas.
Nesse cenário, o primeiro desafio aparece antes mesmo da implementação de uma nova tecnologia.
“A primeira pessoa que eu tenho que convencer é o cliente”, disse.
Além disso, o especialista explicou que o banco precisa definir com clareza quem pretende atender com cada solução de ativos digitais ou tokenização. Ao mesmo tempo, produtos de uma instituição com o alcance do BB precisam considerar diferentes segmentos.
“As conversas são diferentes, os níveis de entendimento até do mercado financeiro são diferentes”, ressaltou.
Tecnologia precisa gerar menos fricção
Na visão de Cordeiro, o cliente não precisa conhecer todos os detalhes técnicos por trás de uma solução baseada em blockchain. Em vez disso, ele precisa compreender os benefícios práticos e sentir segurança para utilizar o produto.
“A nossa maior missão lá dentro é tirar a fricção da tecnologia.”
Assim, termos técnicos e estruturas complexas devem permanecer nos bastidores. Para o consumidor, o mais importante é saber que o dinheiro está seguro e que a tecnologia pode trazer mais velocidade e disponibilidade.
Segundo Cordeiro, soluções que funcionam 24 horas por dia e sete dias por semana também exigem mudanças na estrutura dos bancos.
“Se você tem um produto 24 horas por 7, você tem que ter um atendimento 24 horas por 7”, afirmou.
Comportamento do cliente pressiona bancos por mudanças
O especialista também apontou que o sistema financeiro brasileiro funciona bem e figura entre os mais avançados do mundo. Justamente por isso, mudar processos consolidados pode enfrentar resistência.
No entanto, o comportamento dos consumidores mudou. Cordeiro citou o Pix como exemplo de uma solução que elevou a expectativa por operações instantâneas.
Segundo ele, consumidores mais jovens tendem a questionar por que determinados investimentos ainda têm horários limitados ou prazos de liquidação maiores enquanto transferências acontecem em segundos.
Por isso, os bancos precisam acompanhar não apenas a evolução tecnológica, mas também uma transformação cultural.
“O maior obstáculo e o convencimento é a mudança de mentalidade”, resumiu.
Na avaliação de Cordeiro, a blockchain primeiro deve aprimorar negócios e processos que já existem. Depois, a tecnologia poderá abrir espaço para novos modelos.
Dessa forma, a adoção de ativos digitais no sistema financeiro depende tanto de infraestrutura quanto da capacidade das instituições de explicar as mudanças, reduzir barreiras e tornar as novas soluções acessíveis para diferentes públicos.










Leave a Reply