Sensor Dentro da Bola Vai Mudar a Arbitragem no Campeonato Espanhol


A competição espanhola de futebol La Liga vai introduzir a tecnologia Connected Ball em todas as partidas da LaLiga EA Sports a partir da rodada de abertura da temporada 2026/27, tornando-se a primeira competição nacional de futebol a adotar o sistema em toda a liga.

Um sensor de radiofrequência fica instalado dentro da bola oficial da Puma e transmite, em tempo real, a posição da bola e o momento exato do contato. Cerca de 12 antenas por estádio captam esse sinal e o enviam aos sistemas já existentes de VAR e impedimento semiautomático da La Liga.

A La Liga afirma que o sensor não altera o desempenho da bola, e testes cegos com jogadores não identificaram qualquer diferença de sensação, peso, trajetória ou equilíbrio em comparação com uma bola convencional, segundo a própria liga.

O projeto é resultado de uma parceria entre La Liga, o Comitê Técnico de Árbitros (CTA), Puma e Kinexon, que trabalharam em conjunto para implementar a tecnologia com participação direta dos árbitros.

Como funciona em campo

O sistema tem como foco decisões nas quais frações de segundo fazem diferença. Isso inclui lances de impedimento, toques de mão, desvios, toques que definem escanteios e situações de dois toques.

Ao identificar com precisão o momento exato do contato, a tecnologia foi projetada para eliminar parte da margem de interpretação que árbitros e oficiais de VAR enfrentam atualmente ao escolher o quadro correto das imagens.

Cada partida usará 14 bolas conectadas: uma em jogo, uma sob responsabilidade do quarto árbitro e outras 12 posicionadas ao redor do campo como parte do sistema de múltiplas bolas da La Liga.

A liga criou um protocolo que determina como cada bola será carregada, verificada e validada antes do início da partida. As bolas conectadas serão usadas apenas em jogos oficiais, e não em treinos ou aquecimentos.

Um novo produto de dados

A implementação também introduz o xBALL, a nova camada oficial de dados da La Liga construída a partir das informações fornecidas pela Connected Ball. É aí que está o potencial comercial para a La Liga e seus parceiros de transmissão.

O xBALL fornecerá dados sobre velocidade dos chutes, rotação e trajetória da bola para uso nas transmissões, no aplicativo da La Liga e em futuros produtos de segunda tela.

A liga apresenta esses dados como uma parte oficial do registro da partida, o que dá à La Liga um ativo proprietário que pode ser licenciado ou incluído em pacotes destinados a emissoras que buscam diferenciar suas coberturas.

Um sinal de “batimento cardíaco”, marcando o instante exato do contato, também aparecerá nas transmissões ao lado de novos gráficos que explicarão as decisões do VAR aos espectadores, uma área em que a La Liga já enfrentou críticas pela falta de transparência.

Seguindo o caminho da Fifa na Copa do Mundo

A Fifa foi a primeira a introduzir a tecnologia de bola conectada, quando a Adidas incorporou o sensor à Al Rihla, bola oficial da Copa do Mundo de 2022, no Catar. Uma unidade de medição inercial de 500 Hz ficava no centro da bola e enviava dados à sala de operações de vídeo 500 vezes por segundo, permitindo detectar com precisão o momento do contato.

Essas informações eram combinadas com dados de 12 câmeras instaladas no teto dos estádios, capazes de rastrear até 29 pontos de dados por jogador, para alimentar o sistema de impedimento semiautomático da Fifa.

A Copa do Mundo de 2026, disputada nos Estados Unidos, México e Canadá, levou o conceito ainda mais longe com a bola Trionda. O sistema de impedimento atualizado agora identifica um jogador como impedido a partir de uma margem de 10 cm, em vez do limite de 50 cm usado em 2022, e a Fifa combinou o sensor da bola com escaneamentos 3D dos jogadores para criar avatares digitais usados tanto na arbitragem quanto nos replays das transmissões.

A diferença entre a versão utilizada na Copa do Mundo e a implementação da La Liga está na frequência de uso: a Fifa empregou bolas conectadas ao longo de um torneio de 104 partidas disputado em cinco semanas, enquanto a La Liga usará a mesma base de sensores e antenas durante uma temporada doméstica inteira.

A configuração técnica também é diferente. O sistema da Fifa depende tanto do rastreamento óptico quanto da própria bola, com câmeras instaladas no teto criando avatares 3D dos jogadores e cruzando essas informações com os dados de contato da bola para identificar automaticamente posições de impedimento.

A Connected Ball da La Liga, por sua vez, é baseada em uma rede mais ampla de antenas em cada estádio, com cerca de 12 unidades captando diretamente o sinal da bola. A liga também combinou o sistema com um protocolo fixo de 14 bolas, garantindo que todas as partidas utilizem equipamentos idênticos nas mesmas posições.

Outra diferença está na propriedade dos dados. O fluxo de informações da bola conectada da Fifa atende primeiro à arbitragem e, em segundo lugar, às transmissões, dentro de um único evento global controlado integralmente pela entidade.

A Connected Ball da La Liga gera o xBALL, uma camada de dados que pertence à própria liga como parte de sua infraestrutura comercial – velocidade dos chutes, rotação e trajetória – e foi criada para ser licenciada em seus contratos de transmissão, no aplicativo e em produtos de segunda tela ao longo das 38 rodadas de uma temporada, em vez de apenas durante um torneio.

Isso transforma uma tecnologia de arbitragem em um ativo recorrente de geração de receita, em vez de uma vitrine pontual.

*Reportagem originalmente publicada em Forbes.com



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