Em 1918, a Alemanha saiu derrotada da Primeira Guerra Mundial. No ano seguinte veio o Tratado de Versalhes e, com ele, reparações esmagadoras. Em 1923, a hiperinflação: um dólar, que em 1920 comprava 64,8 marcos, passou a valer 4,2 trilhões de marcos. Poupanças de vidas inteiras viraram papel de embrulho. Agora reparem nos próximos números, porque eles guardam um enigma. Na eleição de 1928, o partido de Adolf Hitler recebeu apenas 2,6% dos votos. Veio o crash de 1929 e, com ele, desemprego, falências e paralisia política. Em 1930, os nazistas saltaram para 18,3%. Em julho de 1932, chegaram a 37,3% e se tornaram o maior partido do Reichstag, o parlamento alemão. O que aconteceu com os alemães entre uma eleição e outra? Eles não descobriram Hitler naquele momento. Hitler já estava lá. O ultranacionalismo e a promessa autoritária também já estavam. A crise não inventou nada disso: ela abriu ouvidos de milhões de pessoas para discursos que antes achavam absurdos.
A Alemanha de hoje é a que saiu dos escombros e se tornou a maior economia da Europa. É dessa Alemanha que falamos agora. Quase cem anos depois, nenhuma comparação moral é possível, nem deve ser feita. Mas a pergunta econômica voltou. Conforme noticiado pela VEJA em 2 de julho, o governo do chanceler Friedrich Merz apresentou um amplo pacote de reformas para tentar reativar a economia do país. A notícia escancara o que os números já diziam: a máquina alemã voltou a falhar, mas por motivos diferentes. O PIB encolheu 0,2% em 2024 e cresceu magros 0,2% em 2025. A energia ficou cara. A população envelheceu. Falta mão de obra. Sobra burocracia. E a China mudou de papel: deixou de ser cliente para virar concorrente.
No Brasil, a doença é outra. Não estamos em recessão; nosso mal é fiscal. No primeiro semestre de 2026, segundo o Tesouro Nacional, a receita líquida da União cresceu 5,6% acima da inflação. Parece bom, não? Pois as despesas cresceram 12,3%, mais que o dobro. O rombo acumulado chegou a 92 bilhões de reais, ante 11 bilhões no mesmo período de 2025. Oito vezes pior. E a explicação oficial traz uma pérola: parte da piora se deve ao calendário de pagamento dos precatórios. Trocando em miúdos, o Tesouro Nacional diz que as contas públicas sofreram porque o governo pagou o que devia aos cidadãos que ganharam na Justiça. Isso não é atenuante, é confissão. Um Estado que trata a própria dívida com seu povo como imprevisto contábil já diz tudo sobre suas prioridades – e caráter.
Há mais debaixo do tapete. A dívida pública que o Brasil exibe ao mundo, perto de 79% do PIB, é calculada por uma régua generosa, que exclui da conta os títulos do Tesouro guardados na carteira do próprio Banco Central. O FMI não tira nada. E, pela régua do FMI, a dívida brasileira fecha 2026 em 96,5% do PIB e crava 100% em 2027, logo no primeiro ano do próximo governo, seja ele qual for. O que não aparece na conta oficial não desaparece do mundo.
São doenças diferentes. A Alemanha sofre de escassez de crescimento; o Brasil, de escassez de espaço fiscal. Mas toda crise econômica, cedo ou tarde, comprime as escolhas de uma sociedade. E é aí que mora o perigo, porque a escassez é a mãe da irracionalidade.
Vejamos o que cada país escolheu fazer com a sua. A Alemanha decidiu reorganizar o Estado para voltar a produzir. O pacote de julho corta 10 bilhões de euros por ano do imposto de renda das faixas baixas e médias a partir de 2027 e, para fechar a conta, eleva de 45% para 47% a alíquota sobre as rendas mais altas. Mexe na previdência e propõe vincular a idade de aposentadoria à expectativa de vida a partir de 2031. As medidas se somam a outras camadas da mesma estratégia: o corte do imposto sobre as empresas, de 15% para 10% entre 2028 e 2032, e um fundo de 500 bilhões de euros para infraestrutura. Justiça seja feita: não é “Estado mínimo” nem austeridade de cartilha. É um governo escolhendo onde aliviar, onde cobrar, onde investir e o que reformar. É uma aposta, e apostas podem dar errado. Mas é uma aposta na produção.
O Brasil, diante da mesma escassez, apostou na outra ponta. A Alemanha tenta recuperar a capacidade de produzir; nós tentamos recuperar a capacidade de arrecadar. A lista é conhecida dos leitores desta coluna: IOF, dividendos, cortes lineares de benefícios, aumento das margens de presunção, restrições ao uso de créditos fiscais. O compasso se repete: mais gasto; mais arrecadação; mais gasto; de novo mais arrecadação. E outra vez mais gasto.
Sejamos honestos, sem eufemismos: tributo é expropriação. Expropriação legalizada, mas ainda assim expropriação: transferência forçada de parte do patrimônio do cidadão ao Estado. Nós a aceitamos porque os direitos custam — a lição é de Stephen Holmes e Cass Sunstein em O Custo dos Direitos. Sem Judiciário, sem polícia, sem os cartórios e a máquina que fazem valer a propriedade e os contratos, o pacto imaginado por Rousseau no Contrato Social não passaria de sonho. O imposto, nesses termos, é o preço da liberdade civil. Mas quando o Estado cobra cada vez mais para devolver o dinheiro em benefícios, a equação se inverte: o tributo deixa de financiar as condições da liberdade e começa a comprá-la.
Esse ciclo em que o Estado extrai cada vez mais da sociedade para devolver parte como concessão tem nome antigo. Étienne de La Boétie chamou de servidão voluntária: o poder acostuma o cidadão à dependência, criando redes de beneficiários e anestesiando a reação social. Ao trocar o estímulo à produção pela expansão da arrecadação e do gasto, o Brasil escolhe acomodar a sociedade na dependência do Estado. Vende a ilusão de estabilidade hoje ao custo do esgotamento econômico de amanhã.
Enquanto a Alemanha aposta na produção para recuperar a liberdade de crescer, o Brasil segue no compasso do arrecada-e-gasta, esconde a dívida debaixo do tapete e lança medidas para sedar o desconforto de muitos. A história ensina que quando o espaço fiscal acaba, a liberdade econômica é a primeira a ruir — e é exatamente nesse vazio que a irracionalidade prospera. Foi assim que, entre uma eleição e outra, pessoas assustadas abriram os ouvidos — e o absurdo do nazismo saltou de 2,6% para 37%.
A mãe da irracionalidade é fértil, não escolhe endereço e tem especial afeição a países que negligenciam suas contas. Cuidemos das nossas escolhas hoje, antes que a escassez decida por nós.











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