A tokenização do impossível: como blockchain e IA podem criar investimentos que hoje não existem


A tokenização do impossível Foto: Envato

Em junho, escrevi aqui sobre ações tokenizadas – veja aqui o artigo. Antes de avançar, uma breve explicação: tokenizar significa criar uma representação digital de um ativo ou direito econômico usando blockchain, a mesma tecnologia que sustenta bitcoin, ethereum e boa parte do mercado cripto (é um banco de dados digital seguro e descentralizado que guarda informações em blocos ligados em ordem de tempo).

A tecnologia é a mesma, o comportamento do investimento não. Uma debênture tokenizada não passa a oscilar como bitcoin porque foi colocada em blockchain. Seu valor continua ligado a emissor, prazo, juros, garantias e risco de crédito. Uma ação tokenizada continua exposta ao desempenho daquela empresa.

E, tecnicamente, dá para ir bem mais longe. Podemos tokenizar uma obra de arte, um automóvel antigo ou praticamente qualquer coisa sobre a qual seja possível organizar um direito econômico. Algumas dessas ideias são, de fato, ótimas. Outras talvez sejam apenas uma maneira muito sofisticada de vender uma fração de um carro velho.

Nem toda possibilidade técnica merece virar produto financeiro. O mundo cripto passou boa parte dos últimos anos tentando responder se ativos tradicionais poderiam ser colocados em blockchain. A resposta ficou monótona, já há algum tempo: sim, podem.

A pergunta que começa a me interessar é outra: o que conseguimos criar somente porque existe a tokenização?

Essa mudança de perspectiva conta também a própria evolução desse mercado. A primeira fase foi a de representar. No Mercado Bitcoin, começamos em 2019 tokenizando precatórios. Depois vieram cotas de consórcio, recebíveis e o Futecoin, com direitos econômicos ligados ao mecanismo de solidariedade da FIFA e a jogadores como Neymar.

O ativo mudava, mas a experiência ensinava a mesma coisa: blockchain permitia transformar um direito econômico em unidades digitais menores, registráveis e distribuíveis para investidores.

Havia também uma dose saudável de inocência. A promessa, o sonho dourado era o seguinte: tokenizaríamos o ativo, fracionaríamos em milhares de pedaços, distribuiríamos globalmente e teríamos negociação 24 horas por dia.

Blockchain faria todo mundo conversar com todo mundo. O mercado financeiro ficaria mais simples quase por gravidade. A realidade, como costuma acontecer, pediu um pouco mais de trabalho.

O token existia em blockchain, mas grande parte da operação continuava acontecendo fora dela. Documentação, cadastro, movimentação do dinheiro, controles, eventos do ativo e vários outros processos ainda dependiam de infraestruturas tradicionais.

A fotografia global mostra que continuamos majoritariamente nessa fase. A RWA.xyz (plataforma líder de dados e inteligência de mercado focada em Ativos do Mundo Real tokenizados) separa o mercado em duas categorias.

De um lado, os represented assets, também chamados de digital twins: ativos que usam a blockchain como camada de representação, mas continuam presos à infraestrutura do emissor, como um gêmeo digital que espelha o original sem existir de forma independente dele.

De outro, os distributed assets, ou DNA, digital native assets: ativos que carregam desde a origem a capacidade de ser mantidos e transferidos on-chain (dentro da blockchain) por investidores elegíveis, carregando também todas as suas funcionalidades de emissão e liquidação, por exemplo, dentro do próprio token.

Hoje, temos aproximadamente US$ 370 bilhões em digital twins e US$ 38 bilhões em DNA. Grosso modo, 90% contra 10%. E essa proporção conta uma história em duas etapas: a primeira provou que os ativos cabem na blockchain; a segunda está fazendo esses ativos funcionarem lá dentro.

É essa segunda etapa que começa a aparecer na prática. Emissão, transferência, eventos financeiros e liquidação migram para a infraestrutura digital. Stablecoins, criptoativos desenhados para manter paridade com moedas como dólar ou real, permitem que a própria perna do dinheiro participe desse ambiente. E smart contracts, programas que rodam na blockchain e executam regras e pagamentos automaticamente, sem intervenção humana e sem margem para interpretação, cuidam da parte que antes dependia de intermediário.

O resultado é simples de enunciar e profundo na prática: o ativo passa a fazer coisas que uma simples representação digital nunca fazia. É onde boa parte do mercado está trabalhando agora.

Debêntures e fundos em blockchain

O projeto-piloto de tokenização da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) é um bom exemplo. Foram selecionados 20 casos entre 39 propostas, apresentados por mais de 50 instituições, para testar debêntures e fundos em blockchain. Estão juntos bancos, gestoras, infraestrutura de mercado, empresas de tecnologia e participantes nativos de cripto. O MB participa em consórcio com a Capitare, por exemplo. Duas empresas que nasceram dentro do universo cripto.

Eu gosto particularmente dessa mistura. O mercado financeiro tradicional traz décadas de experiência em governança, risco, padronização, distribuição e operação. Os cripto-nativos chegam acostumados com blockchain pública, smart contracts, stablecoins (moedas estáveis) e mercados que nunca fecham.

Padronização será fundamental para transformar experiências isoladas em infraestrutura de mercado. Ao mesmo tempo, a presença de quem nasceu em cripto ajuda a evitar um risco curioso: gastar alguns anos construindo uma infraestrutura nova para reproduzir exatamente todos os processos da antiga. E é justamente aí que chegamos à terceira fase. A tokenização do impossível.

Existe um custo para fabricar qualquer produto financeiro. É preciso estruturar o ativo, organizar documentos, registrar, escriturar, conciliar, cobrar, distribuir, processar pagamentos e acompanhar sua vida até o vencimento. O mercado financeiro aprendeu a fazer tudo isso muito bem, especialmente quando o tamanho da operação justifica a máquina necessária para fazê-la funcionar. É muito dinheiro na mesa.

Mas essa máquina cria um piso econômico. Muitos ativos e fluxos simplesmente são pequenos ou pulverizados demais. Pense em um pedágio em uma rodovia.

Cada carro que passa gera uma receita de poucos reais. São milhões de eventos econômicos minúsculos que, quando somados, formam um fluxo bastante relevante. Concessões e seus recebíveis já são financiados pelo mercado de capitais, claro.

Agora leve a granularidade ao extremo: imagine cada pequeno fluxo sendo identificado, acompanhado, agrupado e distribuído automaticamente dentro de diferentes produtos de investimento. Como um instrumento de dívida, por exemplo. O problema deixa de ser a existência do recebível. Passa a ser o custo de administrar milhões deles.

Royalties (se refere a cobrança do proprietário de uma patente para permitir seu uso ou comercialização) talvez sejam ainda mais fáceis de visualizar. Uma música pode gerar milhares de pequenos pagamentos vindos de diferentes plataformas, países e momentos. Um software, uma patente, um conteúdo digital ou uma propriedade intelectual seguem lógica parecida. Para o mercado tradicional, muitos desses fluxos são pequenos demais para justificar individualmente uma estrutura financeira.

Crédito é outro terreno propício

A programabilidade começa a mudar essa conta. Crédito é outro terreno fértil. A securitização já faz um trabalho extraordinário ao agrupar recebíveis. Tokenização e automação permitem imaginar outra escala: centenas de milhares ou milhões de pequenos créditos entrando e saindo continuamente de carteiras, com pagamentos, garantias, concentração e inadimplência sendo acompanhados e processados quase em tempo real.

A infraestrutura tradicional foi otimizada para transformar ativos grandes em produtos financeiros. A tokenização pode tornar economicamente viável construir produtos grandes a partir de ativos minúsculos.

Adicione a esse caldeirão uma inteligência artificial analisando permanentemente milhares de pequenos direitos econômicos, avaliando risco, substituindo ativos, recalculando concentrações e reorganizando o produto. A tokenização organiza a propriedade desses ativos. Smart contracts executam regras. Stablecoins liquidam pagamentos.

A Inteligência Artificial (IA) ajuda a tomar decisões. O produto financeiro começa a se comportar verdadeiramente como software. É uma mudança bem mais interessante do que pegar uma debênture que já existe, criar um token e comemorar a inovação. Talvez seja exatamente aqui que o mercado cripto tenha sua contribuição mais valiosa.

O mercado financeiro tradicional aperfeiçoou durante décadas uma infraestrutura que movimenta trilhões com segurança. Cripto cresceu com outra característica: uma certa obsessão em testar os limites do que parecia possível.

Dinheiro digital escasso, circulando sem uma autoridade central, parecia uma ideia excêntrica. Stablecoins começaram como dólares digitais usados por traders e hoje movimentam pagamentos, remessas e tesouraria global. Exchanges (corretoras virtuais) abertas 24 horas pareciam uma característica peculiar de cripto. Protocolos automatizados começaram a reproduzir funções financeiras inteiras em código.

Muita experiência cripto terminou mal. Algumas ideias não mereciam sequer ter saído do papel. Faz parte de uma indústria que experimenta de maneira quase compulsiva. Mas há algo valioso nessa inquietação: cripto nativos têm pouca reverência pela frase “sempre foi feito assim”.

A minha obsessão agora é olhar para tudo o que foi criado em cripto e para o mercado tradicional, e perguntar quais produtos ainda não existem porque, até agora, eram caros demais, pulverizados demais ou complexos demais para serem fabricados.

Durante anos, a indústria perguntou quanto do mercado financeiro poderia ser tokenizado. Tenho mais curiosidade sobre outra fronteira: quanto do mercado financeiro ainda nem existe porque não era possível?

Criar o impossível é onde a tokenização fica realmente interessante.



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