O caso Huawei: custo da soberania balcanizada na América Latina – Brasil 247


Uma série de mensagens de WhatsApp enviadas pela Embaixada dos Estados Unidos na Argentina aos dirigentes de uma cooperativa da província de Neuquén expôs até onde Washington pode chegar ao pressionar aqueles que pretendem contratar a Huawei. A advertência consistiu em uma possível suspensão de vistos caso finalmente escolhessem a gigante tecnológica chinesa para instalar fibra óptica na região de Vaca Muerta. O que era uma decisão comercial acabou se transformando em um escândalo diplomático que colocou no centro do debate os limites da chamada guerra fria tecnológica e a maneira como as políticas hegemônicas dos EUA buscam condicionar as decisões dos países da região, muitas vezes com a cumplicidade dos governos locais.

A pressão diplomática resultou em um intenso debate na Comissão de Assuntos Cooperativos, Mutualistas e Organizações Não Governamentais da Câmara dos Deputados, onde a oposição antecipou sua intenção de convocar o embaixador dos Estados Unidos, Peter Lamelas, para que preste esclarecimentos sobre o que diferentes parlamentares consideraram uma aberta interferência na soberania nacional. “Não está certo que uma embaixada estrangeira entre em contato com uma cooperativa e diga a ela o que deve fazer”, denunciou aos deputados Sergio Fernández Novoa, gerente de Tecnologias da Informação e Comunicação da Cooperativa de Água, Luz e Força de Neuquén (CALF).

O episódio foi interpretado por diferentes setores como um exercício de coerção que atualizou, em chave tecnológica, a antiga Doutrina Monroe. Ao ameaçar com sanções pessoais diretas, Washington deixou pouca margem para a neutralidade e voltou a exibir uma concepção da América Latina e do Caribe como seu “quintal”, em uma versão do século XXI. A resposta posterior da Embaixada da China, denunciando “práticas hegemônicas” e a “natureza hipócrita” da política externa dos Estados Unidos, acabou por desencadear o que já era um escândalo diplomático incontornável.

Em meio ao escândalo, Lamelas foi além e aproveitou um evento organizado pela Câmara de Comércio dos Estados Unidos (AmCham) para denunciar que a Huawei realiza espionagem para o governo chinês, acusação que a Embaixada da China na Argentina classificou como “uma calúnia sem qualquer fundamento”, própria de “uma mentalidade de guerra fria”.

O argumento de Washington, que classifica a Huawei como um instrumento de ciberespionagem e uma ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos, é submetido a uma discussão mais complexa quando se observam os dados de uma corporação que opera em mais de 170 países, presta serviços a mais de 3 bilhões de pessoas e continua sendo uma das principais fornecedoras mundiais de infraestrutura de telecomunicações. O caso argentino volta, assim, a levantar a questão sobre quanto existe de risco tecnológico verificável e quanto há de disputa geopolítica nas recorrentes denúncias contra a empresa chinesa.

Empresa privada com características chinesas

Apesar de a narrativa dominante no Ocidente insistir em classificá-la como uma mera empresa estatal, a Huawei Investment & Holding Co., Ltd. é uma entidade privada que não possui ações negociadas em bolsa em função de seu modelo de propriedade coletiva. Seus acionistas registrados são seu fundador, Ren Zhengfei, e o sindicato que representa os funcionários participantes do programa acionário, que reúne quase 170 mil trabalhadores ativos e aposentados. Esses trabalhadores participam de um sistema de Ações Virtuais Restritas (ESOP), um mecanismo que lhes dá direito ao recebimento de dividendos e benefícios vinculados à evolução da empresa, mas os impede de negociar essas participações no mercado.

“Nenhuma entidade governamental determina as decisões comerciais ou de investimento da Huawei, e ninguém é dono da Huawei além dos funcionários”, é um dos lemas defendidos pela empresa. Essa posição oficial, no entanto, não implica necessariamente uma ruptura ideológica com o governo, considerando que as empresas chinesas devem contar com representantes do Partido Comunista em sua estrutura interna, conforme estabelece a Lei das Sociedades da China.

Precisamente, essa convivência entre capital privado e presença institucional do Estado e do Partido é um dos argumentos que a Casa Branca vem utilizando para rejeitar a presença da Huawei na América Latina e no Caribe, como fez na Costa Rica e no Panamá ao bloquear projetos estatais milionários em redes 5G e tecnologia logística.

As sanções de Washington começaram a se intensificar em 2018 e atingiram um ponto de inflexão em 2019, quando a Huawei foi incluída na Entity List, o regime de restrições comerciais do Departamento de Comércio dos Estados Unidos. Desde então, a empresa buscou acelerar sua independência tecnológica. Em vez de recuar, desenvolveu novos processadores, aprofundou o desenvolvimento de seu sistema operacional HarmonyOS e ampliou sua divisão de serviços em nuvem.

Resiliência tecnológica

Em 2025, a Huawei faturou 880,9 bilhões de yuans, cerca de US$ 126 bilhões, e obteve 68 bilhões de yuans de lucro líquido. Destinou outros 192,3 bilhões de yuans à pesquisa e desenvolvimento, o equivalente a 21,8% de suas receitas. Cerca de 114 mil funcionários, 53,7% do quadro total, trabalhavam em P&D, e a empresa acumulava 165 mil patentes ativas concedidas. Esse volume de investimento permitiu à empresa entrar na indústria automotiva inteligente e lançar supernós de processamento para IA.

Embora as restrições tenham sido ampliadas em diferentes mercados ocidentais, a empresa mantém uma presença significativa em boa parte da Ásia, África, América Latina e Oriente Médio.

De Washington e de outros governos ocidentais, costuma-se denunciar a empresa como parte de uma estrutura tecnológica capaz de beneficiar o Exército Popular de Libertação, acusação que também está vinculada à estratégia chinesa de integração entre capacidades civis e militares. Pequim e a Huawei rejeitam essa caracterização e sustentam que as acusações fazem parte de uma estratégia de contenção tecnológica contra o país asiático.

Na empresa, apontam que parte dessas suspeitas se apoia no passado de seu fundador, Ren Zhengfei, que trabalhou como engenheiro militar antes de criar a companhia em 1987. A Huawei sustenta que as contratações de equipamentos realizadas durante seus primeiros anos de existência por órgãos estatais responderam a dinâmicas normais de mercado e não a um esquema de subordinação militar.

No campo técnico, alguns antecedentes europeus relativizam o tom dramático das acusações. Em 2018, o então chefe do Escritório Federal de Segurança da Informação da Alemanha (BSI), Arne Schönbohm, afirmou que, até aquele momento, não havia sido encontrada evidência de que a Huawei utilizasse seus equipamentos para espionagem. Naquele mesmo ano, o órgão alemão participou de um esquema que permitiu revisar o código-fonte dos produtos da empresa em um laboratório instalado em Bonn. O dado não equivale a uma certificação de segurança da empresa, mas introduz uma diferença importante entre a ausência de evidências de espionagem e as afirmações políticas que apresentam essa possibilidade como um fato.

Vaca Muerta, fibra óptica e soberania

Em Vaca Muerta, a discussão deixou de ser abstrata. A possibilidade de instalar uma rede de fibra óptica associada ao projeto da CALF adquire outra dimensão em uma região onde a exploração de hidrocarbonetos depende cada vez mais do processamento de informações, do monitoramento remoto e da automação. O desenvolvimento digital começa a fazer parte da infraestrutura energética, e a escolha de quem a constrói deixa de ser uma questão puramente comercial.

Vaca Muerta, considerada a segunda maior reserva mundial de gás não convencional e a quarta maior de petróleo de xisto, depende cada vez mais dessa infraestrutura digital. Uma rede de fibra óptica pode sustentar desde a transmissão de dados dos poços até sistemas de monitoramento e processamento em tempo real, além de ampliar a capacidade local para processar essas informações e desenvolver aplicações relacionadas à atividade energética.

É aí que surge o custo de uma soberania balcanizada. A autonomia nacional se fragmenta inevitavelmente quando uma infraestrutura como Vaca Muerta fica submetida às pressões de uma potência estrangeira, antes que a Argentina defina, segundo seus próprios critérios, qual tecnologia considera conveniente. A decisão pode continuar sendo formalmente argentina, mas as margens para tomá-la deixam de estar inteiramente dentro do país.

Aceitar que uma embaixada estrangeira possa condicionar, pelo WhatsApp, qual fibra óptica será instalada em solo argentino reduz o debate sobre soberania a subir um emoji em um grupo de conversa.

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