As equipes de defesa aérea de Kiev ficaram impotentes durante as recentes ondas de ataques com mísseis balísticos da Rússia por um motivo simples: seus lançadores de mísseis interceptadores Patriot estavam vazios.
A grave escassez da única arma capaz de abater os projéteis balísticos russos disparados contra a Ucrânia está expondo uma lacuna crítica nas defesas do país, enquanto Moscou intensifica seus ataques às vésperas do inverno.
Autoridades ucranianas disseram que o país já havia usado o pequeno número de interceptadores fornecidos por Washington nas últimas semanas quando mísseis atingiram a capital, em 5 de agosto e novamente três dias depois. Em ambos os ataques, a Ucrânia não interceptou nenhum dos projéteis disparados contra a capital.
Os ataques acentuaram em Kiev o temor de que a vantagem que o país parecia ter conquistado no início do verão do Hemisfério Norte com ataques de longo alcance dentro da Rússia possa se dissipar antes do inverno, à medida que a cautela dos Estados Unidos quanto a uma escalada do conflito e os estoques reduzidos dos aliados deixam a Ucrânia exposta à crescente campanha de mísseis de Moscou.
A Força Aérea da Ucrânia informou que a Rússia lançou 24 mísseis balísticos, 4 mísseis antinavio e 115 drones contra Kiev em 5 de agosto. Embora 98 drones tenham sido abatidos, nenhum dos mísseis foi interceptado. Três dias depois, outros 6 mísseis balísticos russos atingiram alvos na capital, matando três pessoas, segundo autoridades ucranianas.
A escassez tornou-se tão aguda que a Força Aérea da Ucrânia deixou de divulgar rotineiramente o número de mísseis disparados pela Rússia, para evitar revelar quantos deles não consegue interceptar, disseram autoridades ucranianas ao FT. Segundo elas, a mudança foi feita por motivos de segurança, mas também, em parte, para preservar o moral da população.
“Sem dúvida, precisamos de mais proteção para o nosso povo”, escreveu o presidente Volodimir Zelenski no X após o bombardeio, criticando os parceiros da Ucrânia pela demora em fornecer defesas aéreas adicionais.
“Capacidades antibalísticas, mísseis interceptadores para Patriot, SAMP/T, NASAMS, Hawk e nossos F-16 —tudo isso funciona e ajuda a proteger vidas quando está aqui, na Ucrânia, em vez de ficar armazenado em depósitos a milhares de quilômetros dos ataques russos contra a vida”, afirmou.
Kiev estima precisar de pelo menos 300 interceptadores PAC-3 para seus sistemas Patriot a fim de resistir ao que as autoridades esperam ser mais um inverno de intensos ataques russos com mísseis e drones contra a infraestrutura de eletricidade, gás e água da Ucrânia.
A Ucrânia havia iniciado o verão com um otimismo incomum depois que seus ataques de longo alcance contra instalações de energia russas desencadearam a pior crise de combustíveis do país desde o colapso da União Soviética e pareceram colocar Kiev em uma de suas posições mais fortes desde 2022.
Mas esse impulso agora corre o risco de perder força antes do inverno, enquanto a cautela dos EUA quanto a uma escalada e os estoques reduzidos dos aliados deixam a Ucrânia exposta à crescente campanha de mísseis de Moscou.
Os estoques ucranianos de interceptadores diminuíram justamente quando Moscou aumentou a produção e o uso de seus mísseis balísticos. As forças russas lançaram um recorde de 198 mísseis balísticos e hipersônicos em julho, segundo Vadim Skibitski, vice-chefe da agência de inteligência militar ucraniana HUR. Ele afirmou que a Rússia vinha produzindo cerca de 60 mísseis balísticos por mês, mas que, em julho, fabricou pelo menos 65.
Zelenski apelou a parceiros europeus que mantêm estoques substanciais de interceptadores Patriot, como Espanha e Grécia, para que enviem mais unidades à Ucrânia.
No entanto, depois que a guerra com o Irã reduziu os estoques de interceptadores dos EUA e de seus aliados no Golfo —estoques cuja reposição provavelmente levará meses ou anos—, muitos dos parceiros de Kiev temem ficar sem suprimentos suficientes.
Magdalena Sobkowiak-Czarnecka, vice-ministra da Defesa da Polônia, disse que Varsóvia estava a poucos dias de tomar uma decisão sobre o envio de um lote de interceptadores Patriot à Ucrânia.
O presidente dos EUA, Donald Trump, parece ter recuado em relação a um acordo firmado na cúpula da Otan na Turquia, no mês passado, para conceder à Ucrânia uma licença que permitiria produzir interceptadores Patriot em território ucraniano e na Europa.
Durante a reunião de Zelenski com Trump na Casa Branca no fim de julho, o presidente dos EUA não concordou em fornecer interceptadores adicionais para os sistemas de defesa aérea Patriot a fim de cobrir os próximos meses, segundo pessoas a par das conversas.
Sergii Kyslitsia, vice-chefe do gabinete presidencial da Ucrânia que participou da reunião no Salão Oval, disse que Trump não havia rejeitado o pedido de Zelenski. “Não houve um ‘não’”, afirmou, acrescentando que Kiev ainda esperava que os EUA fornecessem mais mísseis. Mas a autorização ainda não foi concedida.
Ao falar com seus principais assessores militares e de segurança em Kiev no início de agosto, um Zelenski frustrado disse que a política poderia estar influenciando as decisões sobre o fornecimento de interceptadores. “Talvez essas também sejam medidas políticas para tornar a Ucrânia mais, digamos, submissa.”









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