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O chamado “suco feminino” ganhou espaço entre mulheres que buscam resultados mais rápidos na academia, especialmente quando o objetivo é aumentar a massa muscular e conquistar um corpo mais definido. Apesar do nome informal, as substâncias associadas a essa prática estão longe de ser inofensivas. Os esteroides anabolizantes são compostos naturais ou sintéticos relacionados à testosterona e podem estimular o crescimento muscular, mas também interferem no equilíbrio hormonal e no funcionamento de diferentes órgãos.

No Brasil, o Conselho Federal de Medicina (CFM) proíbe a prescrição de esteroides anabolizantes e hormônios androgênicos para fins estéticos, ganho de massa muscular e melhora do desempenho esportivo. A restrição não se aplica a tratamentos hormonais indicados para condições médicas, como deficiências hormonais comprovadas. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), por sua vez, proíbe a comercialização e o uso de determinados implantes hormonais manipulados à base de anabolizantes ou andrógenos para finalidades estéticas, ganho muscular ou desempenho esportivo.

Por que os anabolizantes podem acelerar os resultados?

Um dos principais motivos que levam algumas pessoas a recorrer aos anabolizantes é a expectativa de obter mudanças corporais em menos tempo. De acordo com o nutricionista e educador físico Eduardo Lustosa, de Brasília, fatores como genética, idade, tempo de treinamento e características individuais influenciam a velocidade e a dimensão dos resultados alcançados naturalmente.

Os esteroides anabolizantes podem aumentar a síntese de proteínas, processo utilizado pelo organismo na construção e recuperação dos músculos. Isso pode favorecer o ganho de massa muscular, mas não significa que os hormônios substituam treinamento, alimentação adequada e recuperação.

“O medicamento não substitui o trabalho”, afirma Lustosa. Segundo o especialista, é possível obter mudanças expressivas no corpo sem recorrer a hormônios. Para isso, ele destaca quatro pilares: treino, alimentação, sono e constância.

O que acontece com o organismo feminino?

Nas mulheres, substâncias com ação semelhante à testosterona podem provocar alterações importantes no equilíbrio hormonal. Segundo o endocrinologista Felipe Henning Gaia Duarte, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia – Regional São Paulo (SBEM-SP), o excesso de hormônios androgênicos pode reduzir os sinais enviados pelo cérebro aos ovários e interferir no funcionamento do sistema reprodutivo.

Entre as possíveis consequências estão a redução dos níveis de LH e FSH, hormônios importantes para o funcionamento dos ovários, além da diminuição do estrogênio e de alterações no ciclo menstrual. A menstruação pode ficar irregular ou até desaparecer, enquanto a ovulação também pode ser prejudicada.

Os efeitos não se limitam ao ciclo menstrual. O uso de anabolizantes pode estar associado ao surgimento de acne, aumento da oleosidade da pele, crescimento de pelos no rosto e no corpo, queda de cabelo em padrão masculino, engrossamento da voz e aumento do clitóris.

Algumas dessas alterações podem melhorar após a interrupção do uso, mas outras podem permanecer. O engrossamento da voz é considerado especialmente preocupante porque pode ser permanente. Alterações no clitóris e determinados casos de queda de cabelo também podem persistir, enquanto acne, irregularidades menstruais e aumento de pelos podem apresentar maior possibilidade de melhora após a suspensão.

Anabolizantes podem afetar a fertilidade?

O sistema reprodutivo feminino também pode ser prejudicado pelos efeitos hormonais dos anabolizantes. Como essas substâncias interferem nos sinais responsáveis pelo funcionamento dos ovários, podem comprometer a maturação dos óvulos e a ovulação.

Durante o uso, algumas mulheres podem apresentar ciclos menstruais irregulares, ausência de menstruação e dificuldade para engravidar. A função menstrual e a ovulação podem voltar ao normal após a interrupção, mas o tempo de recuperação varia. Uso prolongado ou doses elevadas podem aumentar a possibilidade de uma recuperação mais lenta ou incompleta.

Outro fator de preocupação é a falsa sensação de segurança provocada pela ideia de que doses pequenas ou períodos curtos seriam necessariamente inofensivos. Segundo Duarte, não existe uma dose ou período de uso comprovadamente seguro quando o objetivo é exclusivamente estético ou o ganho de massa muscular sem indicação médica.

A resposta também não é igual para todas as mulheres. A sensibilidade aos andrógenos varia de pessoa para pessoa, o que significa que uma quantidade capaz de provocar poucos efeitos em uma mulher pode causar alterações significativas em outra.

Os riscos vão muito além da aparência

Os possíveis danos dos anabolizantes não ficam restritos às mudanças que podem ser percebidas no espelho. Essas substâncias também podem afetar o sistema cardiovascular, alterando o perfil de colesterol, com aumento do LDL e redução do HDL, além de favorecer o aumento da pressão arterial e outros problemas cardiovasculares.

O fígado também pode sofrer consequências. Entre as complicações associadas ao uso estão inflamação, colestase, que ocorre quando o fluxo da bile é prejudicado, e outras alterações hepáticas que podem apresentar maior gravidade.

A preocupação também envolve substâncias como a gestrinona. Em junho de 2026, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) fez um alerta sobre o uso da substância e de outros hormônios manipulados que vêm sendo oferecidos com promessas de aumento de massa magra, redução de gordura e melhora do desempenho físico sem respaldo científico adequado para essas finalidades.

Redes sociais aumentam a pressão por resultados rápidos

A busca por transformações aceleradas também pode estar relacionada à forma como os corpos são apresentados nas redes sociais. Fotos e vídeos de pessoas com músculos definidos nem sempre mostram quanto tempo foi necessário para alcançar aquele resultado, além de não revelarem fatores como genética, alimentação, rotina de treinamento ou eventual uso de substâncias.

Para o educador físico Rafael Ribeiro, da Fast Training, em Brasília, essa exposição contribuiu para aumentar a ansiedade de parte das pessoas em relação aos resultados obtidos na academia. A expectativa de alcançar em poucos meses um físico que levou anos para ser construído pode estimular a procura por alternativas consideradas mais rápidas.

Nesse contexto, o chamado “suco feminino” pode parecer uma solução para acelerar o ganho de massa muscular, mas o resultado estético vem acompanhado de riscos que não aparecem nas fotos de antes e depois. Alterações hormonais, mudanças no ciclo menstrual, problemas de fertilidade e possíveis danos cardiovasculares e hepáticos são alguns dos aspectos que precisam ser considerados.

A questão, portanto, não envolve apenas quanto tempo é necessário para conquistar determinado corpo. Também é preciso avaliar o impacto que o caminho escolhido pode provocar no organismo. Como resume o nutricionista Eduardo Lustosa, é importante considerar não apenas o resultado obtido, mas também “qual foi o preço fisiológico daquele resultado”.



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