Saúde mundial tem rosto feminino, mas faltam médicos e enfermeiros no Sul da Ásia e África


Entre 1990 e 2023, o contingente de trabalhadores da saúde em todo o planeta quase triplicou, saltando de 40,9 milhões para 122,1 milhões. E as mulheres foram as grandes responsáveis por essa expansão, respondendo por 71,4% do crescimento registado no período. Hoje, elas compõem 68,9% do total da mão de obra sanitária global, o que equivale a cerca de sete em cada dez profissionais. Os dados são de um estudo publicado nesta terça-feira (18) na revista The Lancet Public Health, conduzido por investigadores do Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME), sediado em Seattle.

A pesquisa, baseada nas estimativas da Carga Global de Doenças (GBD) de 2023, oferece o primeiro levantamento mundial desagregado por sexo para 20 categorias de profissionais de saúde – incluindo médicos, enfermeiros, parteiras, farmacêuticos, dentistas e agentes comunitários de saúde – em 204 países e territórios. Além disso, traz as primeiras estimativas globais específicas para agentes comunitários. O trabalho procurou traçar um retrato detalhado de uma força de trabalho que, apesar do crescimento expressivo, continua a apresentar desigualdades profundas e lacunas críticas.

Os números mostram que, em 2023, o mundo contava com 33,2 milhões de enfermeiros, 15,1 milhões de médicos, 7,6 milhões de agentes comunitários, 6,8 milhões de farmacêuticos e auxiliares de farmácia, e 6,1 milhões de dentistas e assistentes dentais. Entre os enfermeiros, as mulheres são 80,7%; entre as parteiras, 96,0%; e entre os agentes comunitários, 89,5%. Já entre os médicos, a percentagem feminina fica abaixo da metade: menos de 50%. Padrão semelhante observa-se na odontologia e na farmácia, onde as mulheres predominam nos cargos de assistência, mas são minoria quando se trata de exercer a profissão plena. “As mulheres transformaram a força de trabalho sanitária global nas últimas três décadas, mas continuam concentradas em profissões que geralmente oferecem salários mais baixos e menos oportunidades de liderança”, afirmou Megan Knight, autora principal do estudo e investigadora do IHME. “Fortalecer os sistemas de saúde exigirá não apenas expandir o contingente, mas também criar condições equitativas para progressão na carreira, liderança e ambientes de trabalho seguros e apoiantes.”

Apesar do crescimento observado, os investigadores estimam que seriam necessários 34,4 milhões de profissionais adicionais para que o mundo alcançasse uma pontuação de 80 em 100 no índice de cobertura efetiva da GBD, considerado um patamar moderado de cobertura universal. Desse total, a carência inclui 23,9 milhões de enfermeiros e parteiras, 7,1 milhões de médicos, 1,8 milhão de dentistas e 1,6 milhão de farmacêuticos. As maiores escassezes concentram-se no Sul da Ásia, onde faltariam 2,6 milhões de médicos e 10 milhões de enfermeiros e parteiras para atingir a meta. A África subsaariana também enfrenta défices severos: a densidade de enfermeiros na região é de 14,5 por 10 mil habitantes, contra 121,8 por 10 mil nos países de alta renda. Em países como Chade e Madagáscar, a taxa cai para 3,2 e 3,3 enfermeiros por 10 mil pessoas, enquanto Bélgica e Estados Unidos registam, respectivamente, 171,7 e 161,4.

“Os trabalhadores da saúde são a base de todo sistema sanitário”, sublinhou a dra. Annie Haakenstad, autora sénior do estudo e professora assistente de Ciências Métricas em Saúde no IHME. “Embora a força de trabalho global tenha se expandido dramaticamente, serão necessários milhões de médicos, enfermeiros, parteiras, dentistas e farmacêuticos adicionais para garantir que todos, em todo o lado, possam aceder a serviços essenciais. Estes resultados fornecem aos países patamares mínimos para planear o contingente necessário ao fortalecimento dos sistemas e ao avanço rumo à cobertura universal.”

O estudo estabelece que atingir esse nível moderado de cobertura universal está associado a densidades mínimas de 23,8 médicos, 64,5 enfermeiros e parteiras, 5,2 dentistas e 5,6 farmacêuticos por 10 mil habitantes. Esses referenciais podem auxiliar os países a identificar lacunas e orientar investimentos futuros. Os dados também servem como medida de progresso em relação ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 3.c.1, que trata do recrutamento, desenvolvimento, formação e retenção de profissionais de saúde, e ao ODS 3.8, sobre a cobertura universal.

Fechar essas brechas, alertam os autores, exigirá investimentos sustentados na formação, recrutamento, retenção e melhoria das condições de trabalho. Políticas sensíveis ao género – como desenvolvimento de liderança, proteções laborais, licenças parentais remuneradas e arranjos flexíveis – podem ajudar a apoiar uma força de trabalho majoritariamente feminina. O estudo não esconde a magnitude do desafio: sem uma expansão robusta e bem planeada, os sistemas de saúde dificilmente estarão preparados para responder às exigências futuras.

Referência bibliográfica:
Knight, M. et al. “Women make up nearly 70% of the global health workforce, even as the world faces a shortage of 34 million health workers.” The Lancet Public Health, 18 de agosto de 2026. DOI: 10.1016/S2468-2667(26)00145-3. Disponível em: https://www.thelancet.com/journals/lanpub/article/PIIS2468-2667(26)00145-3/fulltext.



Source link

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *