Lógica da Copa do Mundo pode ser aplicada a empresas – 07/07/2026 – Lorena Hakak


A semana começou meio cinza por causa da eliminação do Brasil na Copa. Muitos de nós esperávamos que a seleção continuasse na competição, o que, infelizmente, não aconteceu. Entretanto, alguns resultados de outras equipes têm me surpreendido. Quando a Fifa anunciou que a Copa passaria de 32 para 48 seleções, confesso que achei que isso prejudicaria o torneio e reduziria a qualidade dos jogos. Até agora, porém, aconteceu justamente o contrário.

A ampliação parece ter oxigenado a competição. Cabo Verde, por exemplo, protagonizou um jogo eletrizante contra a Argentina e esteve perto de uma classificação histórica. A Costa do Marfim perdeu para a Noruega pelo mesmo placar do Brasil. O Paraguai, que não disputava uma Copa desde 2010, eliminou a Alemanha. E o Marrocos eliminou a Holanda. Esses resultados me fizeram rever minha opinião. A ampliação abriu espaço para seleções competitivas, especialmente africanas, que talvez não estivessem presentes no formato anterior.

Eu estava errada ao supor que ampliar o acesso inevitavelmente reduz a qualidade. A Copa está mostrando que essa relação nem sempre existe. Cabo Verde não ficou melhor porque a Fifa mudou a regra. O time já existia. O que mudou foi a oportunidade de disputar a Copa do Mundo. A ampliação do torneio permitiu revelar seleções competitivas que antes permaneciam fora do radar.

A mesma lógica pode ser aplicada a outros contextos, como empresas, universidades e cargos de liderança. As empresas, quando ampliam o universo de candidatos, aumentam a probabilidade de encontrar talentos que, de outra forma, poderiam permanecer invisíveis. Nesse sentido, ampliar o acesso de grupos sub-representados a determinadas ocupações não cria talentos, porém reduz o seu desperdício. O resultado poderia gerar uma alocação mais eficiente de pessoas.

A dificuldade de acesso é o que denomino de “barreira de vidro”. Você sabe que a oportunidade existe, mas não consegue alcançá-la. Esse termo difere do conhecido “teto de vidro”, que descreve as dificuldades enfrentadas por mulheres e minorias para ascender a cargos de liderança. A “barreira de vidro”, por sua vez, surge antes mesmo da contratação, quando processos seletivos restritos ou vieses deixam talentos à margem, o que pode levar a uma má alocação de recursos e menor eficiência.

A literatura recente mostra que o aumento da diversidade na contratação, tanto nas empresas como nas universidades, em muitas ocasiões amplia o perfil de talentos, expondo-as a diferentes visões e formas de solucionar problemas, o que pode elevar a produtividade.

Então, por que isso é tão difícil de ser atingido? Os processos seletivos são desenhados e orientados por pessoas que já fazem parte das instituições, o que pode enviesar o perfil buscado. Assim, a seleção tende a privilegiar pessoas que trazem na sua bagagem as mesmas visões e soluções. Isso reduz a diversidade de ideias e pode limitar a capacidade de inovação das empresas.

Para mudar o status quo, seja no futebol, nas empresas ou nas universidades, é necessário que empregadores e lideranças tenham em mente que existe uma “barreira de vidro” e que ela pode prejudicar as próprias instituições. Para mudar o processo de atração de talentos são necessários esforço e direcionamento. O futebol agradece. A economia também.


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