Copa do Mundo e as estatísticas fantásticas (e enganosas) – 10/07/2026 – Políticas e Justiça


Com a eliminação na Copa do Mundo, o Brasil assegura que o jejum rumo ao hexacampeonato chegará a, no mínimo, 28 anos, contados desde o penta de 2002. Messi é o maior artilheiro da história das Copas, embora não em termos relativos, e também quem mais desperdiçou pênaltis no torneio; Cristiano Ronaldo, por sua vez, marcou nas seis edições que disputou. E, para completar, ninguém havia vencido um jogo de mata-mata depois de estar perdendo, até a Argentina desbancar mais uma dessas “estatísticas”.

Chama a atenção o fascínio demonstrado nas transmissões dos jogos de futebol por colecionar peculiaridades numéricas como se fossem prodígios, sinais de algo relevante. Segundo o meu entendimento, não são. Em geral, se admite a ideia de que o acúmulo de dados sugere a equação “mais dados = mais informação”. Também aqui, porém, uma reflexão mais cuidadosa revelará que a ideia não é verdadeira. Dados são ruidosos, repetitivos e, com frequência, pouco informativos.

Isso não significa que estudar o desempenho das seleções seja inútil. A estatística oferece técnicas para lidar com a heterogeneidade e com a dependência temporal e espacial dos dados. É isso que ajuda a explicar, ou a prever, as consequências de uma decisão e, portanto, a orientar quem decide em momentos estratégicos.

Uma boa análise poderia, antes mesmo do apito inicial da Copa, apontar Espanha, Argentina e França entre os favoritos a chegar às quartas de final. Mas afirmar que um jogador “converteu x pênaltis e por isso é o escolhido” informa pouco. Afinal, esses x pênaltis foram cobrados em situações parecidas, em jogos de mata-mata, sob a mesma pressão?

Voltando às estatísticas fantásticas e sedutoras apresentadas por narradores e comentaristas naquelas transmissões, arrisco uma conjectura: quanto menos se entende de disciplinas como a matemática, a estatística e a manipulação séria de dados, mais nos espantamos diante de um evento observado uma única vez sob certas condições x, y, z e w. Não é impressionante que aquele tenha sido o enésimo gol marcado logo após a infame pausa para hidratação? Pois então: não é.

E não se trata de ingenuidade alheia. As casas de apostas, que dispõem de dados e do entendimento daquelas disciplinas, sabem disso muito bem e podem acabar operando como armadilhas, cujas iscas são estatísticas irrelevantes que induzem o apostador tanto mais à incoerência estatística e a perdas financeiras desastrosas quanto menos informado ele estiver.

Por que, então, uma coincidência isolada nos diz tão pouco? A raiz do engano está em confundir uma regularidade com uma explicação. Uma estatística curiosa (o enésimo gol após a pausa, a sequência invicta, o aproveitamento de pênaltis) descreve o que já aconteceu, mas não estabelece o mecanismo que a produziu nem a probabilidade de que se repita.

Quando se colecionam eventos suficientes, é praticamente certo que alguns padrões surpreendentes apareçam por puro acaso: com muitas perguntas, sempre há uma resposta chamativa. O que separa a informação do ruído não é a raridade do número, mas a existência de uma estrutura estável por trás dele (uma relação que se sustente quando mudam o adversário, o placar, o clima e a pressão do momento).

É exatamente essa estrutura que os métodos estatísticos procuram: modelar a heterogeneidade e a dependência dos dados para distinguir o que é regularidade daquilo que é flutuação. Uma coincidência não modelada é apenas uma anedota numérica; a mesma coincidência, quando situada num modelo que leva em conta o contexto em que os dados foram gerados, pode enfim virar evidência (ou revelar-se irrelevante). A diferença entre encantar-se e compreender está toda aí.

Chegamos, assim, à conclusão óbvia: antes de decidir, estude mais matemática, mais estatística e faça mais análise exploratória de dados. Assim evita-se misturar o encanto do jogo com conhecimento e pagar caro por essa confusão.


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