“La Copa de la Vida”, de Ricky Martin, em 1998, e “Waka Waka”, de Shakira, em 2010, se tornaram muito mais do que músicas oficiais da Copa do Mundo. As canções ultrapassaram o torneio, ganharam as ruas e passaram a representar a memória de duas edições do Mundial.
Nos últimos anos, a Fifa ampliou o investimento em música e entretenimento, com diferentes artistas, lançamentos e formatos pensados para novos hábitos de consumo, apostando em artistas como Anitta, Tyla e Daddy Yankee, mas pouco embalaram.
Algumas músicas ganharam destaque e passaram a fazer parte do universo da competição, mas repetir o impacto cultural de grandes sucessos do passado continua sendo um desafio.
Um exemplo dessa nova estratégia é “Dai Dai”, que começou como uma produção associada ao universo da Copa e posteriormente passou a integrar o repertório oficial da Fifa para o torneio. Em vez de depender de uma única canção para carregar toda a identidade de um Mundial, a entidade passou a trabalhar com diferentes faixas e artistas.
Para o jornalista e criador de conteúdo sobre música Cristóvão Vieira, a dificuldade não está apenas na maneira como as pessoas consomem música atualmente, mas na criação de uma composição capaz de se conectar com a identidade do futebol.
“Acho que foi realmente a falta de produzir uma composição de força, de peso mesmo, algo que tenha algum tempero, algum molho. Se tivesse uma música no nível de ‘Waka Waka’, mesmo hoje em dia, você ouviria nos comerciais, pelas ruas, no TikTok. Então, eu não acho que tenha tanto a ver com essa questão da fragmentação do consumo”, afirmou.
Segundo Cristóvão, os grandes hinos de Copa funcionaram porque conseguiram unir produção musical e elementos culturais reconhecidos pelo público.
“Quando a gente fala sobre música e futebol, nós, brasileiros, temos a tendência a gostar mais dos ritmos que nasceram aqui mesmo e que também fazem parte do nosso contexto sociocultural, da nossa ancestralidade.”
Na avaliação do jornalista, “La Copa de la Vida” conseguiu transformar referências latinas em uma música com energia de estádio. Já “Waka Waka” aproveitou elementos africanos e latino-americanos para criar uma ligação com a Copa disputada na África do Sul.
“O Ricky Martin pega uma música e transforma isso numa latinidade, com refrão pegajoso, de maneira que a gente logo capta: ‘isso é uma música de Copa’. O ‘Waka Waka’ tem outra ancestralidade, que são os ritmos africanos, que também nos pegam, nos tocam no coração.”
Para Cristóvão, algumas produções mais recentes apostaram em uma linguagem global, mas deixaram de lado um componente essencial para o futebol: a identidade.
“Essa música dessa edição foi uma coisa um pouco mais voltada para os esportes deles, uma música com uma conotação mais emocionante, quase o caminho da jornada do herói. Mas, para mim, faltou um sal, faltou um tempero, faltou um molho.”
Quando a arquibancada escolhe a música
A história das Copas mostra que nem sempre a música mais lembrada pelo público é necessariamente a oficial do torneio. Um dos exemplos mais conhecidos é “Love Generation”, de Bob Sinclar, associada ao Mundial de 2006 mesmo sem ser a canção escolhida pela Fifa.
Para Cristóvão, esse fenômeno acontece porque o futebol costuma criar seus próprios símbolos.
“Você não consegue muitas vezes trazer nada de fora para dentro. É muito mais uma coisa que surge de dentro para fora, algo que surge das arquibancadas de maneira natural, com a energia da plateia, do público, das pessoas que frequentam o futebol.”
Ele cita como exemplo o impacto dos cânticos criados por torcidas brasileiras, que muitas vezes ultrapassam as fronteiras do país.
“Você vê vídeos maravilhosos da torcida do Sport, da torcida do Vitória cantando músicas no estádio com uma bateria, todo mundo em uma só voz, numa sincronia absurda, que viraliza em nível mundial. Porque é um fenômeno natural que surgiu dentro das arquibancadas.”
Essa relação também explica, segundo o jornalista, por que campanhas oficiais precisam encontrar uma conexão mais profunda com o torcedor.
No Brasil, essa busca por uma música capaz de representar a Seleção também aparece nas iniciativas da CBF. Nesta Copa, a entidade lançou “Bate no Peito”, reunindo artistas de grande alcance comercial, em uma tentativa de criar uma trilha associada ao time nacional. Para Cristóvão, porém, o desafio está em transformar uma produção planejada em uma manifestação espontânea do torcedor.
“É uma desconexão dos cartolas da CBF com o público consumidor de futebol. Acho que mais valeria fazer uma pesquisa de campo, ouvir artistas, ouvir o público, saber o que eles gostariam de ouvir, que ritmo, o que combina mais.”
“Não adianta fazer algo que soe artificial, porque o público não compra. Não adianta porque não conseguem empurrar goela abaixo”, concluiu Cristóvão.
Brasil exporta sua forma de torcer
Outro ponto destacado pelo jornalista é que o movimento também acontece no sentido inverso: enquanto a Fifa busca criar experiências globais para os torcedores, a cultura brasileira de arquibancada começa a influenciar outros países.
Cristóvão cita como exemplo a torcida da Holanda, que adotou “Magalenha”, música de Sérgio Mendes e Carlinhos Brown, durante a Copa.
“Você imagina um grupo de holandeses cantando uma música brasileira, em português, tocando uma bateria completa, com repique, surdo e triângulo. Eu achei encantador. O nosso estilo de torcer já está sendo exportado”, afirmou o jornalista.
Para ele, o futuro das músicas de Copa não depende do número de lançamentos, mas de encontrar canções capazes de representar uma emoção coletiva.
“Eu acho que é realmente não apostar em quantidade, mas qualidade e ter alma nessas músicas. Essa alma que conecte com a alma do público que é torcedor, o público que é consumidor de futebol”, finalizou











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