Jogamos sem alma na Copa do Mundo


Quando era menino, jogávamos futebol num campo improvisado. Um dia, chegou um circo perto do campo. Um ator veio nos ver jogar. Chamava-se Raul e trabalhava todas as noites. O circo encenava um dramalhão ao som de uma música de Vicente Celestino:

Disse um campônio à sua amada/ Minha idolatrada, diga o que quer. A amada pedia o coração da mãe do campônio. E, todas as noites, Raul aparecia com o coração num prato. Fora disso, era um bom cara.

Um dia, depois do jogo, ele disse para o nosso time:

— Vocês jogaram com alma. Aprendam isto: tudo o que fizerem na vida, façam com alma.

Lembrei-me dele vendo o jogo da Argentina. Eles perdiam por 2 a 0, faltavam pouco menos de 20 minutos. Viraram para 3 a 2 e ainda choraram ao comemorar a vitória. Isso é alma.

Ela não aparece apenas nas vitórias. O time de Cabo Verde tem alma. Vem de um arquipélago de 530 mil habitantes, compete pela primeira vez, empata com uma campeã do mundo, a Espanha; dá um tremendo trabalho à outra campeã, a Argentina.

O nome do goleiro, Vozinha, já é um indício de emoção. Quando o lateral faz um gol, dispensa abraços, corre para a arquibancada e dá um beijo na amada.

Pensando no Brasil, pergunto-me onde perdemos a nossa alma. Foi na tática passiva do técnico? Foi na declaração do craque de que deveria estar de férias, mas era obrigado a jogar o Mundial de Clubes? Ou foi nessa tóxica mistura de cartolas e ministros do STF?

Um desastre nem sempre tem uma causa única. A Argentina não chorará por nós, seu grande vizinho e rival. O Brasil virou apenas uma lembrança. Temos de sair em busca da alma perdida. Lamento também por Bangladesh: todos aqueles olhos brilhando sem perceber que o Brasil que admiram não existe mais. Somos apenas um pedaço de história no futebol e um país do futuro que jamais chegou.

É muito arriscado estabelecer uma relação entre o futebol e o país. A Noruega foi mais longe que a Suécia. Isso significa alguma diferença nacional? Não creio. Dentro dos seus limites, ambos vão bem e orgulham seus habitantes.

O Brasil vive um momento especial. Há um escândalo no ar, sem as consequências que teria em outros países. O embate político não promete um futuro desejável.

Aqui na nossa província, quase todo dia um político é preso, uma nova roubalheira é descoberta. Sentimos que somos governados por bandidos e, o que é pior, estamos naturalizando essa aberração. Da mesma forma que convivemos em silêncio com a ocupação armada do território urbano pelo tráfico e pela milícia.

Pode ser que estejamos perdendo a alma, lentamente, fora do campo também. Nesse caso, o trabalho para recuperá-la é muito amplo, transcende a formação de um time competitivo.

É algo mais parecido com a lição do ator Raul. Não se trata apenas de fazer as coisas com alma, mas de ter orgulho de ser brasileiro. Não creio que seja tão difícil assim. Vivemos tempos complicados, com o avanço de tendências autoritárias, mas temos tudo para achar um caminho, mesmo nessa loucura do mundo. Mas, antes, temos de voltar a ter alma.



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