Amanhã, quando Argentina e Espanha entrarem em campo para disputar a final da Copa do Mundo, haverá uma casa na cidade espanhola de Mallorca onde só o azul-celeste e o branco terão vez. O argentino Gregorio Pozzuto, de 47 anos, que se mudou para a Espanha há 25, conta que mesmo tendo sido bem recebido, o amor pelo país de origem permanece intacto.
— Moro na Espanha, mas continuo argentino em tudo o que faço e penso. Nunca perdi os costumes, nem o sotaque. É fácil torcer pela Argentina na final — disse ele, que tem dois filhos que nasceram na Espanha, mas também torcem pela Argentina por influência do pai.
O caso de Gregorio não é isolado, já que o fluxo migratório entre os dois países é intenso. Dados do Instituto Nacional de Estadística (INE) da Espanha mostram que a quantidade de argentinos morando no país tem aumentado ano a ano. Em 2025, eram 451 mil, um aumento de quase 8% em relação a 2024, quando somavam 416 mil. Em 2023, esse total era de 373 mil.
Mas o caminho inverso também acontece e não é de agora. No início do século XX, cerca de dois milhões de espanhóis desembarcaram na Argentina, fugindo da pobreza, do desemprego e da falta de terras em seu país de origem. Hoje, a Argentina se tornou o país que mais abriga cidadãos espanhóis no mundo, com cerca de 544 mil. Em segundo lugar aparece a França, com 329 mil, e os Estados Unidos, com 236 mil, de acordo com o INE espanhol.
Os avós de Eduardo Alberto Brea, de 84 anos, fizeram este movimento. Era 1908 quando os primeiros integrantes da família Brea chegaram à Argentina, vindos da Galícia. Eduardo nasceria argentino, em 1942. A ligação com a Espanha sempre esteve presente em sua vida, mas não foi suficiente para aplacar a força do futebol de seu país.
Ele lamenta que a adversária seja justamente a Espanha, já que o carinho vai além da origem paterna: sua esposa, Ester Marín, é filha de espanhóis. Eles se conheceram na década de 1960 e, anos mais tarde, tiveram uma filha, Ileana Rita Brea, hoje com 52 anos.
Assim como o pai, Ileana torce pela Argentina e diz estar feliz por ver seu país em mais uma final, mas triste por não assistir com a mãe, falecida em 2021, e que talvez optasse por torcer para Espanha, apesar de gostar de acompanhar as duas seleções.
— Gostaria que a final fosse contra a França e não contra a Espanha, mas penso que, pelo menos, se formos derrotados, vai doer menos— pondera.
Segundo a pesquisadora do Centro de Estudos de População da Argentina Marcela Cerrutti, a emigração argentina para a Espanha começou a aumentar em 2015 e se intensificou após a pandemia de Covid-19. Ela atribui este movimento a alguns fatores, entre eles, a falta de oportunidades na Argentina e a estagnação econômica; as facilidades proporcionadas pela cidadania europeia de uma parcela da população; e o fato de a economia espanhola estar em expansão.
A advogada Ana Carolina Moreno Puga Rebelo, especialista em direito imigratório e que atua com a regularização de residência na Espanha, explica que a legislação espanhola favorece este movimento:
— Quem tem dupla cidadania, pela Lei da Memória Democrática, de 2022, entra automaticamente no regime europeu de livre circulação. A pessoa não precisa de visto nem de autorização de residência dentro da União Europeia — explica.
A influenciadora digital argentina Camille Nieves, de 32 anos, que tem dupla cidadania e mora na Espanha há oito anos, compartilhou em suas redes um vídeo no qual brinca com a dificuldade em escolher por quem torcer na final. Ansiosa pelo dia do jogo, ela conta que irá se reunir com compatriotas em um bar na cidade de Zaragoza e usar apenas uma camisa da seleção escolhida, para não chamar a atenção:
— E não vou negar que eu gostaria de escolher as duas seleções vitoriosas. É como escolher entre uma mãe e um pai. Mas estou com a Argentina, do berço até o caixão — garante.











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