Copa do Mundo sai vitoriosa com diversidade


Quando a Fifa anunciou a realização da Copa do Mundo de 2026 com 48 seleções — a maior da História — nos Estados Unidos, Canadá e México, havia dúvidas se o aumento do número de participantes, que levaria a campo equipes de pouca ou nenhuma tradição, funcionaria. Depois de 39 dias e mais de cem partidas em que jogadas antológicas de craques como Lionel Messi, Kylian Mbappé, Lamine Yamal, Harry Kane, entre outros, se misturaram a pisadas de bola do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e do comandante da Fifa, Gianni Infantino, parece certo que, ao menos dentro de campo, a maratona do futebol passou no teste.

Antes mesmo do fim de junho, a Copa já havia quebrado o recorde de público, superando os 3,6 milhões de torcedores da edição de 1994, também nos Estados Unidos. Nas semifinais, com cem jogos disputados, o torneio já somava 6,5 milhões de espectadores. Apesar dos preços estratosféricos dos ingressos, a ocupação das arenas também se mostrou bem-sucedida (99%, ante 96% em 1994). Sem falar nos bilhões de telespectadores que acompanharam a competição no mundo inteiro. Essa plateia planetária foi brindada com a maior média de gols em 56 anos (2,92).

Nem o torcedor mais ranzinza há de negar que a Copa de 2026 proporcionou partidas emocionantes. Mesmo seleções sem tradição fizeram bonito. Cabo Verde, representando um país de 560 mil habitantes, arrebatou uma legião de fãs. A Espanha derrotou a favorita França e passou à final com um futebol coletivo sedutor. A tricampeã Argentina, a outra finalista, protagonizou partidas épicas, como as viradas sobre o Egito e a Inglaterra.

Se dentro do gramado a bola rolou suave, fora dele o roteiro desandou. Trump, inconformado com o cartão vermelho aplicado pelo árbitro brasileiro Raphael Claus ao americano Folarin Balogun na partida entre Estados Unidos e Bósnia e Herzegovina, telefonou para Infantino e pediu que a punição fosse revista. A suspensão foi prontamente anulada, mas de pouco adiantou. Mesmo com Balogun, os Estados Unidos foram goleados pela Bélgica. Infantino alegou que a decisão foi do comitê arbitral. Não explicou por que só o americano foi beneficiado. Sob apatia da Fifa, o governo dos EUA já tinha vetado a entrada do somali Omar Abdulkadir Artan, considerado um dos melhores árbitros da África, e restringido estadias da seleção iraniana no país.

Para a seleção brasileira, a Copa de 2026 não trará boas recordações. A frustrante derrota por 2 x 1 para a Noruega de Erling Haaland adiou uma vez mais o sonho do hexa e inaugurou o período de maior jejum de títulos. Mas é possível tirar lições do fracasso. Está claro que o improviso, a falta de planejamento, as reviravoltas no comando da CBF projetaram a derrota muito antes de o Brasil entrar em campo. Os trabalhos visando 2030 precisam começar desde já, de modo mais profissional. As cenas de torcedores vibrando com o escrete canarinho em Bangladesh encheram os brasileiros de orgulho. Mas elas espelham mais o passado que o presente. Tão importante quanto trazer a sexta estrela é devolver à seleção essa glória que atravessa fronteiras.



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