Neste domingo (19), às 16h (de Brasília), a Espanha enfrenta a Argentina na final da Copa do Mundo de 2026, no MetLife Stadium, em Nova Jersey. Caso conquiste o bicampeonato mundial, a seleção espanhola reforçará uma trajetória que já sustenta uma discussão cada vez mais presente no futebol internacional: a de que a Espanha pode ser considerada o país mais dominante, influente e vencedor do século XXI.
A tese vai além dos resultados da seleção principal. Ela é sustentada por um conjunto de fatores que envolve o desempenho histórico dos clubes espanhóis em competições continentais e mundiais, a formação de jogadores e treinadores que marcaram época, a consolidação de uma identidade tática copiada em diversos países e uma capacidade rara de renovação entre gerações. Entre seleções e clubes, a Espanha disputou 60 finais internacionais oficiais neste século e venceu 50 delas, acumulando títulos que ajudaram a moldar o futebol moderno e a estabelecer novos padrões de excelência.
Diante da atual campeã mundial Argentina de Lionel Messi, a decisão deste domingo oferece mais um capítulo para um debate sustentado por números, conquistas e influência esportiva. Afinal, há argumentos suficientes para colocar a Espanha como o principal país do futebol no século XXI.
Ao longo dos últimos 25 anos, o país não apenas colecionou troféus. A Espanha influenciou a forma como o futebol é jogado, treinado e pensado em diferentes partes do planeta. Dos títulos de Real Madrid, Barcelona, Sevilla e Atlético de Madrid ao legado da seleção campeã mundial em 2010 e tricampeã europeia, passando pela revolução tática liderada por nomes como Pep Guardiola, Xavi, Iniesta e Luis Aragonés, a influência espanhola ultrapassou fronteiras e transformou o esporte em escala global.
Por que a Espanha pode ser considerada o país do futebol no século XXI?
A principal sustentação da tese está nos números. Entre seleção e clubes, a Espanha disputou 60 finais internacionais oficiais no século XXI e venceu 50 delas, um índice de aproveitamento que ajuda a explicar a posição de destaque do país no futebol mundial.
Os dados incluem:
- 12 finais de Champions League disputadas, com 11 títulos
- 13 finais de Liga Europa, com 12 conquistas
- 10 finais de Mundial de Clubes, com 9 troféus
- 17 finais de Supercopa da Uefa, com 13 títulos
- Pela seleção, uma Copa do Mundo (2010), três Eurocopas (2008, 2012 e 2024) e uma Liga das Nações
O desempenho também se reflete nos clubes. O Real Madrid soma 18 títulos internacionais no período, enquanto o Barcelona conquistou 10, o Sevilla oito e o Atlético de Madrid seis. Valencia e Villarreal também contribuíram para o cenário que colocou diferentes equipes espanholas entre as mais vencedoras do continente nas últimas décadas.
Como a Espanha encerrou o rótulo de seleção que não vencia?
Antes de conquistar a Eurocopa de 2008, a Espanha convivia com a reputação de uma seleção talentosa, mas incapaz de transformar favoritismo em títulos. A mudança começou sob o comando de Luis Aragonés, que promoveu uma renovação liderada por jogadores como Xavi, Andrés Iniesta, David Silva e Cesc Fàbregas.
A conquista da Euro de 2008 abriu caminho para uma sequência histórica. Sob o comando de Vicente del Bosque, a Espanha venceu a Copa do Mundo de 2010, na África do Sul, e voltou a conquistar a Eurocopa de 2012.
O feito transformou a seleção na primeira da história a vencer três grandes torneios consecutivos – Eurocopa, Copa do Mundo e Eurocopa — estabelecendo um marco sem precedentes no futebol de seleções.
Como o tiki-taka influenciou o futebol mundial?
Além dos títulos, a Espanha passou a exercer influência direta sobre a forma como o futebol é jogado. O chamado tiki-taka, associado ao Barcelona de Pep Guardiola e à seleção espanhola da época, se tornou uma das principais referências táticas do século.
Características como posse de bola prolongada, circulação rápida de passes, pressão pós-perda e construção das jogadas desde a defesa passaram a ser incorporadas por equipes de diferentes países.
O técnico italiano Arrigo Sacchi chegou a relacionar o Barcelona daquele período ao histórico Milan que comandou nos anos 1980:
– Entre 1987 e 1991, nenhuma equipa dominou a Europa como o Milan. E fê-lo em estilo, como o Barcelona de hoje – disse Sacchi, em 2011.
A origem dessa filosofia remonta ao trabalho de Johan Cruyff em Barcelona. O holandês resumiu sua visão do jogo em uma frase que se tornou símbolo do clube:
– Eu preferia ganhar por 5 a 4 do que por 1 a 0.
Da influência de Cruyff nasceu a consolidação de La Masia, academia que se transformou em uma das mais importantes do futebol mundial.
Qual foi a influência da Espanha na formação de Lionel Messi?
Um dos argumentos frequentemente utilizados para ilustrar a influência do futebol espanhol é a trajetória de Lionel Messi.
Embora argentino de nascimento, o atacante chegou ao Barcelona aos 13 anos, em setembro de 2000, e foi desenvolvido dentro de La Masia, onde construiu praticamente toda a sua formação esportiva.
Ao lado de Xavi e Iniesta, também formados na base do clube, Messi integrou uma das gerações mais vitoriosas da história do futebol. Em 2010, os três ocuparam as posições de finalistas da Bola de Ouro, um feito inédito para uma mesma academia de formação.
Por que os treinadores espanhóis dominam o futebol europeu?
A influência da Espanha no futebol mundial não aparece apenas dentro de campo. Nos últimos anos, o país também se consolidou como uma das principais escolas de treinadores, com profissionais espalhados pelos maiores clubes e seleções do planeta.
Pep Guardiola é apontado por muitos especialistas como o treinador mais influente de sua geração. O espanhol levou suas ideias de jogo para diferentes ligas, passando por Espanha, Alemanha e Inglaterra, e ajudou a transformar a forma como muitas equipes enxergam posse de bola, pressão e organização tática.
A lista de técnicos espanhóis de destaque ainda conta com nomes como Xabi Alonso, Mikel Arteta, Unai Emery e Luis Enrique, todos com trabalhos de impacto no futebol europeu. A presença constante desses profissionais em grandes projetos reforça a força da formação espanhola e a capacidade do país de exportar conhecimento.
Na seleção espanhola, o responsável pelo momento de destaque é Luis de la Fuente. O treinador está comandando uma das maiores sequências de invencibilidade da história de uma equipe nacional: 37 partidas sem derrota, marca que iguala o recorde da Itália entre 2018 e 2021.
Mas a influência da escola espanhola também aparece em outra história envolvendo a final da Copa do Mundo de 2026. Em 2017, o argentino Lionel Scaloni concluiu o curso de treinador da Federação Espanhola sob a orientação de Luis de la Fuente, que foi um dos professores. Durante o período, os dois criaram uma relação próxima e passaram a compartilhar conceitos semelhantes, principalmente sobre a importância da gestão de pessoas e da construção de um grupo forte, além das questões táticas.
Agora, Scaloni, campeão da Copa do Mundo de 2022 com a Argentina, enfrentará De la Fuente na final do Mundial.
Como o Real Madrid reforça a hegemonia espanhola?
Se o Barcelona se tornou referência por sua influência tática, o Real Madrid consolidou sua posição por meio dos resultados.
Neste século, o clube conquistou oito títulos da Champions League, mais do que qualquer outra equipe europeia no período. O domínio reforçou o protagonismo da Espanha nas principais competições continentais e ajudou a ampliar a vantagem do país em número de conquistas internacionais.
Ao lado do Barcelona, o Real Madrid transformou La Liga em uma das principais vitrines do futebol mundial durante mais de duas décadas.
Quem são os jogadores da nova geração da Espanha?
A capacidade de renovação é outro fator que sustenta o protagonismo espanhol.
Após a geração de Xavi e Iniesta, novos talentos assumiram o protagonismo. Entre eles estão Lamine Yamal, Pedri, Nico Williams, Dani Olmo, Fabián Ruiz, Mikel Merino e Pau Cubarsí.
Em 2024, Yamal foi eleito o melhor jovem da Eurocopa, enquanto Rodri conquistou a Bola de Ouro, tornando-se um dos poucos espanhóis a receber a premiação.
A atual seleção mantém características históricas do futebol espanhol, mas com maior verticalidade e adaptação a diferentes cenários de jogo.
Final da Copa do Mundo 2026 reforça debate sobre a hegemonia da Espanha
A decisão contra a Argentina oferece mais um capítulo para uma discussão que se consolidou ao longo das últimas duas décadas.
De um lado estará a Argentina de Messi, principal nome do futebol mundial neste século. Do outro, uma Espanha que acumulou títulos, influenciou tendências táticas, formou jogadores e treinadores de elite e manteve competitividade em diferentes gerações.
Independentemente do resultado da final, os números, os títulos e a influência exercida pelo futebol espanhol ajudam a explicar por que o país é frequentemente apontado como uma das maiores potências do futebol mundial no século XXI.
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