Klopp no comando: o que muda na seleção alemã de futebol?


A seleção alemã de futebol tem um novo técnico: Jürgen Klopp, que foi oficialmente apresentado pelo presidente da Federação Alemã de Futebol (DFB, sigla para Deutscher Fußball-Bund), Bernd Neuendorf, e assinou contrato de quatro anos na manhã desta sexta-feira (24/07) na sede da entidade, em Frankfurt.

Aos 59 anos, natural de Stuttgart, Klopp assume a equipe no lugar de Julian Nagelsmann, que comandou a Alemanha nos últimos três anos entre altos e baixos – a bem da verdade, bem mais baixos do que altos, apesar de algumas boas atuações e campanhas razoáveis, como as quartas-de-final da Eurocopa 2024, disputada na Alemanha.

Durante a apresentação, Klopp disse que dará tudo de si e fará o possível para as coisas mudarem: “a seleção é capaz de unir nós, alemães, como quase nenhuma outra coisa. Isso é especial para mim. Estou ansioso por essa missão, que enfrentaremos juntos, com humildade e paciência, formando uma equipe em que um lute pelo outro, com prazer de jogar futebol e pela qual as pessoas possam se unir com convicção”, argumentou.

Jogador profissional do Mainz 05 até 2001, Klopp começou a carreira de treinador no mesmo clube, onde ficou no cargo até 2008. Mas foi no Borussia Dortmund, entre 2008 e 2015, que ele apareceu para o mundo, vencendo duas Bundesligas (Campeonato Alemão) e a Copa da Alemanha, além do vice na Liga dos Campeões.

Entre 2015 e 2024, comandou o Liverpool, clube pelo qual conquistou vários títulos, a exemplo da Liga dos Campeões e do Mundial de Clubes, da Premier League (Campeonato Inglês), da Copa da Inglaterra e da Copa da Liga Inglesa.

Como comentarista da TV alemã durante a Copa do Mundo deste ano, Klopp foi taxativo após a decepcionante eliminação da Alemanha nos pênaltis para o Paraguai, após empate em 1 a 1 no tempo normal e na prorrogação, na fase de 16 avos de final: “Precisamos mudar várias coisas de forma radical, imediatamente”.

Mas o que, de fato, precisa ou mesmo tende a mudar?

A imagem mostra Bernd Neuendorf (E), presidente da Federação Alemã de Futebol, Rudi Völler, diretor-esportivo, o técnico Jürgen Klopp e Hans-Joachim Watzke, vice-presidente da federação, em entrevista coletiva de imprensa durante apresentação de Klopp como treinador da seleção alemã.
Bernd Neuendorf (E), presidente da DFB, Rudi Völler, diretor-esportivo, Klopp e Hans-Joachim Watzke, vice-presidenteFoto: Florian Wiegand/dpa/picture alliance

As peças e a comunicação

Há pontos a serem melhorados tanto dentro quanto fora de campo. Do ponto de vista puramente esportivo, é necessário um estilo de jogo claro, além de mais ritmo e criatividade na construção das jogadas. Primeiramente, a questão do goleiro precisa ser resolvida – Manuel Neuer foi convocado depois de se aposentar da seleção em 2024, mas acabou sendo titular na Copa após Oliver Baumann ser o goleiro durante a maior parte da preparação. Além disso, é necessário encontrar um lateral-direito de alto nível e um artilheiro confiável.

Sob o comando de Julian Nagelsmann, a comunicação e a confiança ficaram abaladas antes e durante a última Copa, a começar pelo já supracitado alvoroço com a decisão – aparentemente tomada sozinho – de convocar Neuer. Suas aparições na televisão ou em coletivas de imprensa, nas quais criticava individualmente os jogadores, também não ajudaram.

Como será o estilo de jogo?

Desde que Jürgen Klopp trabalhou na Inglaterra, o termo “gegenpress” passou a integrar a linguagem coloquial local, pois o técnico divulgou amplamente sua estratégia de pressionar a saída adversária com marcação alta e ataques diretos e agressivos após a recuperação da posse de bola. Segundo analistas, Klopp estabelecerá esse estilo de jogo também na seleção.

De modo geral, o técnico gosta de futebol ofensivo e criativo. E, ao contrário do que fez, por exemplo, Joachim Löw – campeão do mundo pela Alemanha no Brasil em 2014 –, não considera o estilo espanhol, com muita posse de bola, como o ideal.

Logo em sua primeira aparição como novo técnico da seleção alemã, anunciou concretamente dois pontos importantes: “Vamos ter uma zaga com uma linha de quatro e vamos jogar com alas, pois os craques de hoje estão nos flancos”, afirmou Klopp.

Jogadores alemães se consolam com abraços após aliminação na Copa do Mundo 2026
Havertz (E) e Musiala devem seguir tendo chances na seleção, mas Klopp deixou porta aberta a novos jogadoresFoto: Peter Cziborra/REUTERS

O que acontecerá com a atual geração?

A questão é evidente: haverá uma mudança radical e um total recomeço ou Klopp utilizará a estrutura – ou ao menos parte – da atual seleção? Pelo menos para alguns jogadores da geração com mais de 30 anos, a situação pode ficar complicada. O meio-campo Pascal Groß, 35 anos, provavelmente não terá mais chances, e o zagueiro Antonio Rüdiger, 33, também corre o risco de não ser mais convocado.

De qualquer forma, Klopp conta com um elenco amplo de jogadores, alguns deles bastante experientes, com idades entre 25 e 31 anos, todos ainda aptos para os próximos dois ciclos de torneios. Mas, mesmo nessa faixa etária, é provável que alguns fiquem de fora das próximas convocações já a partir de setembro. No caso de Leon Goretzka e Leroy Sané (ambos com 31 anos), por exemplo, seria compreensível que não fossem mais convocados, já que existem alternativas mais jovens e, possivelmente, melhores.

Uma das medidas mais importantes, provavelmente, será Klopp colocar o capitão Joshua Kimmich de volta na posição de volante, onde forma uma dupla excepcional ao lado de Aleksandar Pavlovic no Bayern de Munique. Nos últimos tempos, sob muitas críticas, Kimmich vinha jogando na lateral direita.

A tendência é de que a formação inicial deva contar com Jonathan Tah e Nico Schlotterbeck na zaga, Kimmich e Pavlovic na primeira linha do meio, além de Florian Wirtz, Jamal Musiala e Kai Havertz no setor ofensivo. O restante, a exemplo de um goleiro titular, ainda está em aberto.

“Tenho um monte de ideias. Todo mundo que tem direito de jogar pela seleção deve se esforçar. É um recomeço. Jogadores que nem imaginam que terão essa chance vão recebê-la”, avisou Klopp na apresentação, deixando a porta claramente aberta para novos jogadores.

Jogadores alemães deixam o gramado cabisbaixos após eliminação na Copa do Mundo 2026 para o Paraguai nos pênaltis.
Pela terceira vez seguida em Copas do Mundo, a Alemanha não alcançou as oitavas de finalFoto: Uwe Kraft/IMAGO

Quem será o novo goleiro?

Embaixo das traves, sem dúvidas, haverá mudanças. Neuer, após a Copa do Mundo, anunciou a aposentadoria definitiva. Mas ainda não está definido em qual dos muitos candidatos Klopp vai apostar.

Seria esperado do novo técnico da seleção alemã apostar em um goleiro titular confiável e mais jovem, que possa se adaptar nos dois anos que antecedem a Eurocopa de 2028, e que também esteja disponível para a Copa do Mundo de 2030, atuando no mais alto nível.

Baumann, que era o titular antes de Neuer reaparecer, tem 36 anos e, portanto, já parece um pouco ultrapassado para isso. Seu antecessor, Marc-André ter Stegen, 34 anos, tem um longo histórico de lesões e planeja recomeçar na próxima temporada – possivelmente no Ajax, de Amsterdã. Outro candidato é Alexander Nübel, 29 anos, que deixou a Bundesliga e se transferiu para o Beşiktaş de Istambul, na Turquia.

Mas é possível que Klopp prefira uma opção mais jovem e aposte em um goleiro com menos experiência do qual poderá se beneficiar mais tarde. Neste caso, Jonas Urbig, 22 anos, do Bayern de Munique, e Noah Atubolu, 24, seriam candidatos. Atubolu deixou o Freiburg e segue procurando um novo clube. Urbig, entretanto, poderá ser a escolha lógica somente quando substituir Neuer como titular no gol do Bayern.

O jovem goleiro Jonas Urbig aparece cumprimentando a imprensa e a torcida durante jogo da Copa 2026. Ele veste um abrigo claro da seleção alemã de futebol.
Aos 22 anos, Jonas Urbig, do Bayern de Munique, poderá ganhar chance assim que assumir a titularidade no clubeFoto: Bahho Kara/Kirchner-Media/picture alliance

Quem será a comissão técnica?

Klopp levará para a seleção dois assistentes de confiança: Peter Krawietz e Pepijn “Pep” Lijnders. Krawietz trabalha ao lado de Klopp praticamente desde a época em que atuava no Mainz, tendo sido auxiliar técnico no Dortmund e no Liverpool – mais recentemente, também esteve ao lado de Klopp na direção global de futebol do grupo Red Bull.

O holandês Lijnders foi, por muitos anos, o principal assistente de Klopp no Liverpool. Além disso, seu ex-assessor, Marc Kosicke, passa a integrar a equipe como assistente técnico responsável por estratégia, desenvolvimento e inovação.

Além disso, Sven Bender, ex-jogador da seleção e que atuou sob comando de Klopp no Borussia Dortmund – clube pelo qual o ex-volante conquistou a Bundesliga em 2011 e 2012 –, também será assistente. Após encerrar a carreira de jogador, Bender atuou como auxiliar técnico da seleção alemã sub-16 em 2022 e 2023.

A imagem mostra o técnico Jürgen Klopp e os auxiliares Pepijn Lijnders e Peter Krawietz sorrindo durante treinamento antes da final da Liga dos Campeões de 2019, vencida pelo Liverpool.
Pepijn Lijnders (E) e Peter Krawietz serão auxiliares de Klopp na seleção alemã de futebolFoto: Jan Woitas/dpa/picture alliance

Quais são as metas?

Se depender da DFB, a Alemanha já deverá estar em condições de disputar o título do Campeonato Europeu de 2028. E a conquista da Copa do Mundo de 2030 também está claramente entre os objetivos.

Klopp, porém, não quis se comprometer com nada. Ele não quer afirmar que a Alemanha será campeã mundial em 2030, mas quer fazer de tudo para “que possamos ser”: “Tenho vontade de trabalhar com jogadores que queiram praticar um futebol que agrade a todos”, afirmou.

Nem sempre isso dá certo de imediato, mas ele busca conquistar algo com a seleção “para que as pessoas voltem para casa depois do jogo e digam: ‘uau! Foi realmente incrível!'”.

Se depender da trajetória como técnico, Klopp começa a percorrer outro caminho de sucesso. Foi assim no Mainz, no Borussia Dortmund e no Liverpool, ainda que suas equipes sempre tenham necessitado de um pouco de tempo para ajustes antes de tudo funcionar perfeitamente.

Klopp não tem esse tempo todo com a seleção. Já no primeiro jogo, em setembro, contra a Holanda, ele estreia em uma partida oficial da Liga das Nações da UEFA.

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