Fifa quer vender ações da Copa do Mundo para investidores privados
Pouco mais de uma semana após o fim da Copa do Mundo, a Fifa anunciou a criação de uma empresa para administrar suas atividades comerciais, atrair investidores. Crédito: AFP
O modelo que a Fifa pretende aplicar choca a comunidade internacional do futebol, mas tem precedentes em outras modalidades esportivas. Existem pelo menos três referências internacionais relevantes — o críquete, o vôlei e o automobilismo —, que ajudam a compreender o movimento sugerido por Gianni Infantino de abrir uma empresa, cujas ações serão vendidas, para administrar suas competições
O críquete é realmente popular em dois países: Índia e Inglaterra. Na Índia, a Indian Premier League (IPL) é a principal liga profissional na categoria T20 — mais curta e objetiva do que o críquete tradicional, com jogos de “apenas” três a quatro horas.
O modelo da IPL é parecido com o das ligas americanas, como NBA e NFL. A liga une uma série de franquias, cada uma com um proprietário diferente, e ela comercializa direitos de transmissão, patrocínios e hospitalidade. O valor estimado do negócio acaba de bater US$ 20 bilhões, com vendas recentes dessas franquias.

Final do Campeonato Mundial de Vôlei masculino, em 2022, logo após a chegada da CVC à Volleyball World. Foto: Divulgação/FIVB
No caso da Inglaterra, a liga profissional do país é conhecida como The Hundred. Ela fechou a venda de participações minoritárias de oito franquias de uma vez, em uma operação financeira que fez o valor desse coletivo chegar a 975 milhões de libras.
A diferença desses negócios para a Fifa é que ambos são ligas de franquias, não uma federação internacional, e elas estão vendendo participações sobre as próprias equipes, não sobre uma nova empresa que terceiriza atribuições comerciais.
Já o vôlei fez um movimento muito semelhante ao que pretende o futebol. Em 2021, a FIVB fechou acordo com a CVC Capital Partners, fundo especializado em private equity, ou seja, compras de participações sobre empresas estabelecidas.
Volleyball World é o nome da joint venture resultante dessa sociedade; 67% são da FIVB e 33% pertencem à CVC. O fundo aportou US$ 300 milhões para adquirir essa participação sobre o capital, e o dinheiro foi usado para acelerar o crescimento da modalidade. Os sócios dividem responsabilidades e direitos nessa governança.
A Fórmula 1 também tem investidor privado, mas se distingue na governança. A categoria tem uma dona privada, a Liberty Media, que comprou os direitos comerciais em 2017, mas opera sob o Acordo da Concórdia — um contrato tripartite entre as equipes, a Federação Internacional de Automobilismo (FIA) e a Liberty.
O acordo dá poder às escuderias sobre os rumos da modalidade. Qualquer mudança na categoria — esportiva, comercial ou administrativa — precisa da anuência delas.
Elas têm poder de veto coletivo sobre questões específicas, como a expansão do grid, e equipes grandes, como a Ferrari, mantêm historicamente cláusulas de veto individual sobre mudanças de regulamento, uma condição para assinar o acordo.
Mesmo com uma dona privada e fins lucrativos, a F1 preserva um mecanismo formal e contratual de poder para quem efetivamente disputa a competição: as equipes.
É nesse ponto que o futebol ainda está no escuro. Como funcionaria a governança da Fifa, após a chegada de um sócio privado? Quantas cadeiras cada um teria no Conselho de Administração? E no Conselho Fiscal? Qual a voz das federações nacionais, das confederações e até dos clubes sobre o futuro da Copa do Mundo?
Por enquanto, ninguém sabe.











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