O presidente do governo autónomo de Ceuta revelou esta sexta-feira que cerca de 60 mil pessoas entraram na cidade espanhola de forma irregular nas últimas 24 horas. A cidade vive “uma situação insustentável”, disse Juan Jesús Vivas.
Em Ceuta vivem cerca de 83 mil pessoas, de acordo com os censos mais recentes da população, o que significa que o número estimado de entradas corresponde a mais de metade da população do enclave. “Para fazerem uma ideia, é como se em 24 horas 34 milhões de pessoas entrassem no território espanhol. Este número mostra que é impossível assimilar esta pressão”, afirmou Juan Jesús Vivas, em declarações aos jornalistas.
Segundo o primeiro balanço oficial divulgado pelo Ministério do Interior espanhol, pelo menos 57 pessoas perderam a vida na tentativa de chegar a Espanha através de Ceuta. A maioria morreu afogada, mas as equipas de resgate continuam a procurar desaparecidos nas águas junto à fronteira, pelo que o número de vítimas poderá ainda aumentar.
A cidade viveu uma crise semelhante em 2021, mas o número de entradas foi substancialmente inferior. Na altura, entraram no território 10 mil pessoas em 48 horas.
Na quinta-feira, milhares de pessoas avançaram para a fronteira a partir de Marrocos, tentando entrar no enclave espanhol a nado, a pé ou saltando a vedação que separa os dois territórios, pelo menos 57 morreram afogados.
O presidente do Governo espanhol, Pedro Sánchez, descreveu “aquilo que aconteceu no dia de ontem como um ataque, uma violação da integridade territorial de Espanha”. Nas declarações que prestou esta sexta-feira, condenou a situação e prometeu “usar todos os recursos do Estado para garantir a segurança” dos cidadãos de Ceuta.
No início deste mês, o Supremo Tribunal de Espanha decidiu que os migrantes intercetados no mar enquanto tentam chegar a Ceuta ou Melilla não podem ser devolvidos de forma sumária ao abrigo do regime especial de rejeição na fronteira aplicável aos enclaves. E Sanchéz retira, do contacto com as autoridades marroquinas, que as redes de tráfico humano fizeram uma “leitura interessada” desta decisão. Perante a decisão judicial, explica, tinha já sido agilizado o estabelecimento de um centro de detenção temporário de estrangeiros para facilitar os procedimentos de documentação, triagem e repatriamento das chegadas irregulares. “Esta situação é inédita, quebra a dinâmica que estávamos a registar em toda a Espanha de redução sistemática de chegadas de imigrantes irregulares”, comentou.
Meios de comunicação social espanhóis com jornalistas no local relataram que o dispositivo policial destacado para os dois lados da fronteira não conseguiu travar a avalanche de pessoas.
Como já tinha acontecido durante a madrugada, continuavam esta manhã a cruzar a fronteira “numerosas pessoas”, escreveu a agência Europa Press. Ao mesmo tempo, as ruas de Ceuta “amanheceram com centenas de jovens migrantes a dormir nas ruas enquanto continua a chegada irregular desde Marrocos”, descreveu o El País.
A EFE avançou que o movimento na fronteira se fazia, entretanto, nos dois sentidos, com “centenas de migrantes” que entraram em Ceuta a começarem também a regressar a Marrocos pelo mesmo ponto onde tinham entrado, junto ao pontão fronteiriço da zona de El Tarajal.
“De forma paralela, continuam a entrar na cidade pequenos grupos de pessoas pelo mesmo local, cruzando-se no caminho com os que abandonam Ceuta em direção a Marrocos”, acrescentou a agência.
A EFE testemunhou ainda, no lado marroquino, na cidade de Fnideq, “confrontos violentos” junto à fronteira com Ceuta, envolvendo centenas de pessoas que tentavam atravessar para o lado espanhol.
“Grupos de pessoas tentaram forçar a vedação e lançaram pedras contra as forças de segurança mobilizadas para a zona”, relatou a EFE.
O Governo espanhol anunciou na quinta-feira o envio das Forças Armadas para apoiar a Guarda Civil na “manutenção da segurança” na cidade e reforçou igualmente os meios das forças de segurança. Segundo os meios de comunicação social no local, o Exército espanhol está já a posicionar tanques no acesso à cidade, junto à fronteira com Marrocos, na zona de El Tarajal.
O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, e o ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska, deslocam-se esta sexta-feira a Ceuta. Por seu lado, as autoridades marroquinas reforçaram os controlos para reduzir a pressão sobre a fronteira.
Os dois governos garantiram na quinta-feira estar a cooperar estreitamente na gestão desta crise, que, segundo ambos, foi promovida por redes de tráfico humano, e anunciaram um acordo para acelerar o repatriamento das pessoas que entraram irregularmente em Ceuta.
Entretanto, a Comissão Europeia declarou estar a acompanhar “de perto” a situação e disponibilizou apoio adicional a Espanha, incluindo assistência financeira, técnica e operacional, através da Frontex, se necessário.
Bruxelas saudou ainda “a estreita cooperação entre Marrocos e Espanha” para gerir a crise e garantir o regresso rápido das pessoas que entraram irregularmente, de acordo com a legislação aplicável. “Marrocos é um parceiro-chave e de confiança da União Europeia”, afirmou um porta-voz da Comissão, citado pela EFE.
Também o comissário europeu para os Assuntos Internos e Migração, Magnus Brunner, falou com Fernando Grande-Marlaska para transmitir a disponibilidade da União Europeia para reforçar o apoio a Espanha e assegurar a coordenação com as autoridades marroquinas, com o objetivo de evitar novas travessias perigosas.
Entretanto, o Partido Popular Europeu (PPE), o maior grupo político do Parlamento Europeu, anunciou que vai propor um debate sobre os “fluxos descontrolados de imigrantes irregulares para Ceuta”, defendendo um reforço das fronteiras externas da União Europeia e uma avaliação do impacto das regularizações extraordinárias na pressão migratória.
Notícia atualizada às 16h20 com último balanço oficial do número de mortos











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