Em menos de uma semana, com o ápice em 30 de julho, entre 50 e 60 mil pessoas vindas do Marrocos cruzaram a fronteira para a cidade autônoma de Ceuta, um dos enclaves espanhóis na margem africana do Estreito de Gibraltar. O movimento, estimulado por informações falsas de “abertura da fronteira” espalhadas pelas redes sociais e por indícios de passividade inicial das autoridades do Marrocos, desencadeou uma grave crise política e humanitária. A situação, que, no momento, parece estar contida, com boa parte das pessoas que cruzaram a fronteira já tendo retornado ao Marrocos, resultou em dezenas de mortes. Até o momento, ao menos 70 corpos teriam sido identificados como sendo de pessoas que se afogaram ao tentar fazer, a nado, o caminho que separa os dois territórios.
Esta é uma crise complexa, que deve ser analisada sob múltiplos ângulos.
Ceuta é uma pequena cidade de enorme importância geopolítica, localizada em uma posição estratégica na margem sul do Estreito de Gibraltar, uma das principais rotas marítimas do mundo, por onde passam milhares de navios em trânsito entre o Oceano Atlântico e o Mar Mediterrâneo.
Sob domínio europeu há séculos — Ceuta, conquistada por Portugal em 1415 e incorporada definitivamente à Espanha em 1668; e Melilla, espanhola desde 1497 —, as duas cidades autônomas são, até hoje, reivindicadas pelo Marrocos.
O governo marroquino é acusado por analistas de fomentar crises migratórias para enfraquecer a posição espanhola em Ceuta e Melilla
Nesse sentido, o governo marroquino é acusado por analistas e por parte da imprensa espanhola de fomentar crises como esta atual, com o objetivo de enfraquecer a posição espanhola nas duas cidades.
Um exemplo anterior seria a crise migratória de 2021, muito semelhante à atual, em que o fluxo maciço de imigrantes teria sido utilizado para causar uma crise e, consequentemente, desgastar politicamente o governo espanhol junto à sua população e à própria União Europeia.
Há, também, uma dimensão de política internacional, na qual se destacam as relações que envolvem a Espanha, o Marrocos, a Argélia e a disputa pelo controle do Saara Ocidental, território controlado como colônia por Madri até 1975. Com a retirada dos espanhóis, o Marrocos passou a considerar toda a área parte do seu território, conseguindo efetivamente controlar parte dela, especialmente o litoral. Entretanto, a Frente Polisário, movimento político-militar criado em 1973 para combater a presença espanhola e defender a independência e a autodeterminação do povo saarauí, proclamou, em 1976, a chamada República Árabe Saaraui Democrática. Reconhecida por diversos países e integrante da União Africana, a República Saaraui é apoiada principalmente pela Argélia, que fornece suporte político, diplomático e material à Frente Polisário.
Durante décadas, Madri procurou manter uma posição relativamente equilibrada entre Argel e Rabat. Em 2022, um ano após a crise migratória de Ceuta, o governo espanhol passou a considerar a proposta marroquina de autonomia como a base “mais séria, realista e crível” para uma solução. A mudança aproximou Espanha e Marrocos, cuja cooperação é fundamental para o controle migratório nas fronteiras de Ceuta e Melilla.
Recentemente, entretanto, o governo espanhol se aproximou da Argélia, maior fornecedora de gás natural da Espanha, o que desagradou Rabat, fato que, segundo analistas, justificaria a passividade — se não o próprio estímulo — das autoridades marroquinas, com o objetivo de criar uma crise que pressione o governo de Madri.
Há, ainda, a posição dos Estados Unidos, que, desde o primeiro mandato do presidente Trump, em 2020, reconhecem o Saara Ocidental como território marroquino. Trump manteve, durante toda a semana passada, fixada no topo de sua linha do tempo na rede Truth Social, uma postagem na qual agradece ao rei Mohammed VI, do Marrocos, pela inauguração de uma moderna autoestrada que cruza o Saara Ocidental, a qual Trump afirma ter sido batizada em sua homenagem: “Highway Presidente Donald J. Trump”.
Ao mesmo tempo em que celebra a proximidade com o rei marroquino, Trump tem péssimo relacionamento com o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez. Ao estalar da crise, o Departamento de Estado dos EUA publicou uma mensagem na qual afirmava que a crise era resultado “dos esforços deliberados do governo espanhol para permitir e facilitar a imigração ilegal em massa para a Europa”.
Isso nos traz a um último aspecto importante dessa crise: a questão, muito sensível na Europa, da imigração ilegal, objeto de disputa ideológica que está sendo claramente utilizado pelos diversos campos políticos neste momento. De um lado, partidos e movimentos mais conservadores apresentam o episódio como demonstração da fragilidade das fronteiras europeias, defendendo controles mais rigorosos e políticas migratórias mais restritivas. De outro, setores progressistas ressaltam a dimensão humanitária da crise, as condições econômicas e sociais que impulsionam os deslocamentos e a obrigação dos Estados europeus de respeitar o direito internacional e oferecer proteção àqueles que façam jus ao asilo ou a outras formas de proteção internacional.
Como se vê, a crise em curso em Ceuta possui múltiplas dimensões, que se interligam e demonstram com clareza a complexidade dos desafios contemporâneos. Questões geopolíticas, estratégicas, ideológicas e humanitárias se sobrepõem, criando problemas que muitos governos se mostram incapazes de enfrentar. As tensões, entretanto, continuam a se acumular, e basta uma centelha para que surjam novas crises, ainda mais graves.











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