Bitcoin cai para US$ 62.800 e ignora macro positivo enquanto exploit na Coldcard drena US$ 89 milhões


Na segunda-feira, o cenário macro fez tudo que normalmente empurra o bitcoin para cima. Petróleo em queda livre, yields dos treasuries recuando, futuros de ações subindo. O roteiro clássico de apetite por risco estava montado. Mas o bitcoin desceu de US$ 63.600 para US$ 62.800, acumulando perda de 4% na semana.

A explicação não está nos gráficos macroeconômicos. Está numa carteira de hardware chamada Coldcard e num exploit que já drenou quase US$ 89 milhões em bitcoin sem dar sinais de contenção.

O que aconteceu com a Coldcard e por que isso afeta o mercado

Ao longo do último fim de semana, uma terceira onda de varreduras atingiu endereços gerados pela Coldcard. No total, 1.367 bitcoins foram drenados de 4.585 endereços. Traduzindo: quase US$ 89 milhões evaporaram de carteiras que, pela própria natureza do hardware wallet, deveriam ser as mais seguras do ecossistema.

A primeira onda, no dia 30 de julho, foi a mais lucrativa para o atacante: 1.083 BTC roubados de 1.196 endereços. A terceira onda levou 208 BTC, porém de 1.912 carteiras. O padrão é revelador. Os saldos maiores foram varridos primeiro. Agora, o atacante está raspando carteiras menores, de poucos milhares de dólares, o que sugere que o exploit continua ativo e que ninguém encontrou uma forma de contê-lo.

Para quem acompanha a evolução do mercado cripto, a falha é particularmente simbólica. Hardware wallets são vendidas como a última linha de defesa da autocustódia. Quando essa linha cai, o impacto psicológico vai além do financeiro.

O macro que o bitcoin ignorou

O contraste entre o ambiente macro e o comportamento do bitcoin na segunda-feira foi gritante. O presidente Donald Trump anunciou que cancelou um ataque ao Irã e abriria novas negociações, com a Arábia Saudita entre os aliados pressionando por um acordo para reabrir o Estreito de Ormuz.

A reação nos mercados tradicionais foi imediata. Os futuros do Brent recuaram até 7,3%, caindo para US$ 81,55 o barril. Os treasuries subiram em toda a curva, derrubando o yield de 10 anos em quatro pontos-base para 4,69%, depois de ter atingido a máxima desde janeiro de 2025 na semana anterior. Os futuros do Nasdaq 100 e das bolsas europeias avançaram 0,8%. Ouro subiu 0,3%, cotado em torno de US$ 4.060 a onça.

Petróleo caindo reduz expectativa de inflação. Yields recuando sinalizam que o mercado de renda fixa está menos restritivo. Ações subindo mostram apetite por risco. É o tipo de configuração que historicamente empurra ativos de risco para cima, e o bitcoin costuma ser um dos primeiros beneficiários.

Desta vez, não funcionou. E quando o bitcoin ignora um vento favorável desse calibre, a mensagem é clara: o problema está dentro de casa, como já discutimos em análises anteriores sobre autocustódia.

Ether descolado, BNB na contramão

O ether caiu mais de 1%, negociado a US$ 1.858, sem conseguir reconquistar os US$ 1.900 desde a semana passada. No acumulado de sete dias, a perda é de 5%. XRP recuou quase 1% para US$ 1,07. Solana cedeu meio ponto percentual, cotada perto de US$ 73. Dogecoin, idem, pouco abaixo dos 7 centavos.

O BNB foi o único grande ativo no verde, estável no dia e com alta de 1,6% na semana. Na outra ponta, o HYPE da Hyperliquid caiu 1% para US$ 52,52 e acumula queda de 12,8% em sete dias, o pior desempenho entre os dez maiores.

Um dado curioso apareceu nos fluxos de fundos: na sexta-feira, fundos de ether registraram pequenas entradas líquidas enquanto fundos de bitcoin tiveram saída. Essa inversão é incomum. Normalmente, o bitcoin dita a direção e o ether segue. Quando o padrão se inverte, pode indicar que investidores institucionais estão realocando entre as duas teses, algo que já analisamos no contexto dos ETFs.

O que observar nas próximas horas

O nível de US$ 62.000 virou o piso técnico a ser monitorado. Se o bitcoin não conseguir segurar esse patamar durante as negociações entre Estados Unidos e Irã, o sinal será preocupante. Um acordo que reabra o Estreito de Ormuz derrubaria o petróleo ainda mais e daria ao mercado cripto uma segunda chance com o mesmo cenário macro que ele acabou de desperdiçar.

Se mesmo com esse catalisador o bitcoin não reagir, a conclusão se torna inevitável: a pressão vendedora é endógena. Não é sobre juros, não é sobre geopolítica. É sobre confiança na infraestrutura do próprio ecossistema.

O exploit da Coldcard levanta uma questão que o mercado prefere evitar: se a autocustódia via hardware wallet não é à prova de falhas, qual é o custo real de ser seu próprio banco? Enquanto essa pergunta não tiver resposta, o bitcoin pode continuar ignorando até o macro mais favorável que apareça pela frente.

O número de carteiras atingidas, 4.585, pode parecer pequeno diante da base global de usuários. Mas o impacto reputacional não se mede em porcentagem. Mede-se na disposição do próximo investidor de tirar suas moedas de uma exchange e armazená-las por conta própria. E, por enquanto, essa disposição está sendo testada.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.



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