HÁ precisamente uma semana, escrevi, neste espaço, sobre Rui Costa: «Bastou um jogo negativo do Benfica para se ver sob uma chuva de ataques e críticas, que prenunciam ventos e tempestades se a temporada não correr de acordo com as aspirações dos encarnados. Com a imagem desgastada, Rui Costa só pode responder de uma forma: ganhando.»
A ‘manita’ com que o Benfica despachou o St. Gallen, e, acima de tudo, o apoio de 60 mil adeptos na Luz – mais uma vez chamo a atenção para a divergência profunda entre o clube real e a ‘bolha’ que frequenta as AG’s – deram oxigénio aos encarnados e ao seu presidente para encararem com maior otimismo o que se segue. Porque o St. Gallen, com todas as limitações que revelou – atenção, é vice-campeão da Suíça, onde o Benfica, em Basileia, há nove anos, perdeu por 5-0 na fase de grupos da Champions, apresentando uma equipa com Júlio César; André Almeida, Luisão, Jardel e Grimaldo; Fejsa, Pizzi; Zivkovic (Samaris), Raul Jiménez, Jonas (Seferovic) e Cervi (Sálvio) -, pela conjuntura de estar mais adiantado na preparação e ter todo o plantel à disposição, face a um Benfica cheio de carências, de meios e de tempo, foi, muito provavelmente, o adversário mais ingrato da carreira de Marco Silva. O que virá a seguir será encarado com maior normalidade, decorrente do trabalho, individual e coletivo, que o ex-técnico do Fulham poderá desenvolver, a que deverão associar-se (partindo do princípio de que não sai, além de António Silva, mais ninguém), com urgência, um médio que jogue pelo meio e um defesa central. Mas há que dizer, em jeito de conclusão, que o Benfica superou, em condição de forma altamente periclitante, o primeiro obstáculo. E fê-lo, na Luz, com autoridade. O futuro? A Deus pertence…
PS – A propósito de António Silva – ia entrar no último ano de contrato na Luz – destratado sem dó nem piedade ao longo dos últimos dois anos, que perdeu o lugar no Benfica e na Seleção Nacional para Tomás Araújo, não sendo previsível que fosse titular na época que agora está a começar, rumou ao Bournemouth, por 25 milhões de euros, onde prosseguirá a carreira, depois de recusar uma proposta de renovação dos encarnados, que julgou insuficiente. Ora, foram precisamente os mesmos que mais minaram a confiança de António Silva que agora, perante a sua saída, lhe teceram loas e se rebelaram contra a venda de um talento da casa, de apenas 22 anos. É o que se chama, pensando em Rui Costa, ser preso por ter cão e ser preso não ter…
GIANNI INFANTINO colocou sobre a mesa um plano que visava potenciar as receitas das grandes competições da FIFA, entregando 20 por cento de uma nova sociedade a criar para esse efeito a privados. Disse Infantino que esse projeto só avançaria se fosse aprovado por pelo menos metade mais um dos votos das 211 Federações nacionais com assento na Assembleia Geral do organismo de cúpula do futebol mundial. UEFA, AFC e CONCACAF, que representam 143 votos, mostraram-se liminarmente contra a ideia, declarando a UEFA, que liderou o processo, que boicotaria um Mundial realizado sob o modelo pretendido por Infantino.
Ao mesmo tempo, dentro da FIFA, a demissão do luso-descendente Carlos Cordeiro, principal conselheiro de Infantino e antigo ‘chairman’ da Goldman Sachs, e a rebelião de vários quadros superiores criaram a tempestade perfeita, que obrigou Gianni Infantino a desistir de um projeto que contaria com o apoio do clã-Trump. Infantino é um sobrevivente e sentiu os alarmes políticos a tinir: não era só a ‘privatização’ do Mundial que estava em causa, mas, sobretudo, a sua continuidade à frente da FIFA deixara de ser ‘favas contadas’.
Ao dia de hoje, é impossível dizer se o suíço que lidera a organização de Zurique há dez anos vai a tempo de conter danos e ser reeleito no próximo Congresso da FIFA, algo que, logo depois do Mundial, era dado como absolutamente certo. A este propósito, no ‘The Athletic’, Sebastian Stafford-Bloor teve uma imagem bastante conseguida quando comparou Infantino a Ícaro, que quis voar demasiado perto do Sol e despenhou-se quando as asas de cera que o mantinham no ar se derreteram. Ao conduzir o projeto agora abortado, não só de forma quase autista, mas revelando, sobretudo, uma falta de sensibilidade face ao futebol, incompreensível em quem vive no meio há mais de duas décadas, Infantino arrisca-se a ser visto como um ativo tóxico. Penso que, se quiser continuar à frente da FIFA, vai ter de aprofundar a ideia do Mundial de 2030 com 64 seleções (e as mesmas oito rondas de 2026 para os finalistas) para captar votos, e recuar no desejo de ter um Mundial de Clubes alargado e a realizar-se de dois em dois anos. Mas a verdade é que apesar de ter tido sucesso no Mundial/25 de Clubes e ter transformado o Mundial/26 de seleções numa máquina de fazer dinheiro, nunca, como agora, a imagem de Gianni Infantino esteve tão por baixo. Se calhar, para obter uma explicação, valerá a pena recuperar o que Jurgen Klopp disse de Trump e Infantino, na sequência da despenalização do norte-americano Folarin Balogun: «Este jogo é nosso, não é deles.»
PS – Numa altura em que se pede mais assertividade e firmeza à União Europeia no contexto internacional, a UEFA apontou o caminho. E com isto não estou a dizer que Aleksander Ceferin deve ocupar a cadeira de Ursula von der Leyen…
CIRCULARAM áudios de Pedro Proença, obtidos ilegalmente, que o presidente da FPF diz terem sido «truncados e descontextualizados», onde criticava a qualidade média dos árbitros portugueses, algo que, para a generalidade dos observadores, é uma evidência. Para se perceber como esse assunto foi pouco mais que um ‘fait divers’, basta ver como uma ida de Pedro Proença, de madrugada, a Tomar, serenou os ânimos, e deixou os árbitros em estado de prontidão. Porém, este caso, obviamente mediático porque envolveu o presidente da FPF (à altura dos factos, candidato ao cargo), tirou o foco de uma matéria que pode vir a revelar-se, ainda no âmbito da arbitragem, mais relevante.
O CONSELHO DE JUSTIÇA (CJ) da FPF arquivou, por falta de provas, um inquérito instaurado a Luciano Gonçalves, presidente do Conselho de Arbitragem, na sequência de uma denúncia do ex-diretor técnico nacional de arbitragem, Duarte Gomes. Porém, o Ministério Público tem o caso em mãos e, através do DCIAP, com o apoio da Unidade Nacional de Combate à Corrupção da Polícia Judiciária, que possui meios de investigação que vão muito para lá do que o CJ da FPF pode fazer, está em campo. Significa isto que, nunca esquecendo a presunção de inocência a que todos temos direito, vivemos uma situação atípica, relativamente ao titular de um órgão que deve estar acima de toda e qualquer suspeita.
Estou a sugerir que Luciano Gonçalves devia, desde já e perante a situação, demitir-se? Não, nada disso. E não tem a ver, sequer, com a precariedade em que vive, atendendo ao limite temporal do seu mandato, algo que poderia ser corrigido se houvesse um formato diferente para a gestão da arbitragem. Seguramente que, quando aceitou ser candidato a presidente do Conselho de Arbitragem, Luciano Gonçalves sabia que, se vencesse as eleições, não estaria a assumir um cargo de quadro numa organização, mas sim de líder, com horizonte temporal limitado – daí a precariedade – de um órgão de uma entidade que goza do estatuto de utilidade pública desportiva.
É neste contexto que a proposta do presidente do FC Porto, André Villas Boas, de haver uma suspensão do mandato por parte de Luciano Gonçalves até tudo estar em pratos limpos, me parece razoável, benéfica para a competição, ao mesmo tempo que, a concretizar-se, salvaguardaria Luciano Gonçalves nesta fase de investigação judicial. Sei que em Portugal não existe esta forma de estar na vida pública – António Vitorino, Murteira Nabo, Miguel Macedo ou Jorge Coelho são algumas das exceções – mas nunca é tarde demais para adotar boas práticas.










Leave a Reply