Incêndios florestais e ondas de calor que assolam a Europa já custaram mais de € 3 bilhões apenas nos cinco países mais afetados este ano, segundo análise do Financial Times. Esse valor supera as estimativas da Comissão Europeia, que previa um impacto médio anual de € 2,5 bilhões para toda a União Europeia.
O mês de junho foi o mais quente já registrado no continente.
A gravidade dos incêndios foi maior este ano devido a um inverno chuvoso, o que levou ao crescimento de arbustos e outras vegetações. Eles secaram durante as ondas de calor em junho e julho, o que forneceu combustível para os incêndios, que se mostraram mais difíceis de conter, segundo estudo do grupo World Weather Attribution.
Quase meio milhão de hectares foram queimados nos dois primeiros meses da temporada de incêndios, com um custo econômico de € 3,1 bilhões nos cinco países da zona do euro mais afetados: França, Espanha, Portugal, Grécia e Romênia.
As estimativas do Financial Times se baseiam na “Modelagem dos impactos das mudanças climáticas no risco de incêndios florestais na Europa“, metodologia da Comissão Europeia, e em cálculos do governo francês, que representam o chamado custo de restauração, ou seja, o custo de devolver as áreas queimadas ao seu estado anterior.
O custo médio de reflorestamento e manutenção por hectare varia de país para país, refletindo os tipos de cobertura vegetal e a idade da floresta.
O impacto econômico dos incêndios, porém, será muito maior. Ele pode chegar ao triplo da média anual, de até € 2,1 bilhões em perdas do PIB, valor que Sarah Meier, especialista em economia climática da ETH Zurich, calculou como custo dos incêndios florestais para as economias regionais de Portugal, Espanha, Itália e Grécia entre 2011 e 2018.
“Se os incêndios chegarem às cidades, os danos serão muito, muito maiores”, disse Meier ao Financial Times.
Nova era de catástrofes
Seguradoras, empresas e famílias ainda estão contabilizando os custos dos danos a propriedades e plantações, além dos transtornos para o turismo no auge do verão. A previsão é de aumento nos preços das coberturas de seguro, perda de bens, diminuição do número de visitantes e a necessidade de investir pesadamente em equipamentos de combate a incêndios.
As seguradoras estão se preparando para uma nova era de risco de catástrofes na Europa, impulsionada pelo aumento das temperaturas no continente que aquece mais rapidamente no mundo. Elas já não consideram as recentes ondas de calor extremo como um choque temporário, mas sim como uma tendência de longo prazo, de acordo com a Bloomberg.
A Munich Re afirma que está claro que a combinação dos fenômenos El Niño e do aquecimento global produziu uma ” mistura perigosa” que aumentará as perdas no segundo semestre deste ano.
Por isso, estão em curso esforços para expandir a “gama de capital disponível para apoiar a resiliência e a recuperação”, afirmou Will Bruce, chefe global de consultoria de risco climático da Aon, a segunda maior corretora de seguros do mundo, à Bloomberg. Isso pode exigir a transferência de mais riscos para os mercados de capitais, “incluindo títulos de catástrofe e outros títulos vinculados a seguros”.
Conhecidos como cat bonds, os títulos de catástrofe são desenhados para que as seguradoras transfiram parte dos riscos para os mercados de capitais. Se uma catástrofe pré-definida na emissão do título ocorrer, a seguradora recebe. Se não ocorrer, o investidor lucra. Mas eles só investem se tiverem dados fiáveis para basear as suas apostas.
Os dados históricos já não fornecem uma base adequada para calcular as probabilidades de perdas, razão pela qual o setor de seguros agora depende “fortemente” de análises de cenários prospectivos, afirmou o chefe da Aon. A capacidade da Europa de gerar modelos confiáveis de risco de catástrofes será fundamental em seus esforços para atrair investidores para produtos como os títulos de catástrofe, acrescentou.
A temporada de incêndios florestais de 2025 na Espanha resultou em perdas econômicas de quase € 5 bilhões, dos quais apenas € 1 bilhão estava segurado.
Impacto nas empresas
A queda nos níveis de água dos rios Reno e Danúbio causa interrupções no fluxo de mercadorias e cortes na produção.
Os níveis no rio Reno, que atravessa a Europa de norte a sul, caíram para perto dos mais baixos em oito anos, devido ao calor extremo e à seca. Com limitação de transporte por navios, a saída são mais embarcações menores para transportar o mesmo volume, o que encarece o transporte.
Economistas calculam que os baixos níveis de água do Reno podem reduzir o crescimento alemão em até 0,2 pontos percentuais. Empresas químicas do país, como a Basf, a Covestro e a Evonik, têm fábricas concentradas ao longo das margens do rio.
No leste da Sérvia, o nível do Danúbio baixou tanto que foi possível ver navios alemães afundados da Segunda Guerra Mundial.
Essa queda deve causar o desligamento da usina nuclear da Hungria, responsável por quase metade da eletricidade do país. A Romênia também foi obrigada a desligar um dos dois reatores da usina nuclear de Cernavodă. Ambos utilizam água do rio para resfriamento.
A Câmara de Comércio e Indústria da Gironda, região da França, afirmou que pelo menos 40 mil empresas foram diretamente afetadas pelos incêndios, com 19.500 completamente fechadas em 30 de julho, enquanto cerca de 150 mil funcionários estavam em regime de trabalho reduzido subsidiado pelo Estado em 27 de julho.
Gironda é um polo das indústrias de defesa e aeroespacial. Os incêndios obrigaram empresas como a fabricante de motores a jato Safran, a fabricante de caças Dassault Aviation e a fabricante de foguetes ArianeGroup a interromper a produção e evacuar seus funcionários.
A região também é conhecida pela produção de vinhos. Os famosos vinhedos de Bordeaux escaparam até o momento, mas não se sabe ao certo o impacto que a contaminação por fumaça terá na colheita.










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