O mundo da bola foi sacudido por uma notícia que pode marcar uma ruptura histórica entre Uefa e Fifa. A Uefa alega que pode abandonar toda e qualquer competição organizada pela Fifa daqui para frente, e o motivo é bastante peculiar.
A Fifa está prestes a fazer algo que nenhuma entidade responsável por uma competição esportiva global jamais fez: vender uma fatia de equity da Copa do Mundo para investidores privados. A iniciativa envolve uma operação de M&A e de captação de recursos por meio de investidores privados dentro de sua principal competição. Isso foi a gota d’água para a Uefa e para as seleções europeias como um todo.
O desenho “Networking” do negócio
Segundo reportagens do Financial Times e do The Times, a Fifa pretende vender uma participação minoritária, estimada em cerca de 20%, da FFE, a uma avaliação de equity de US$ 20 bilhões, levantando aproximadamente US$ 4,2 bilhões em novos recursos. O investidor âncora seria a Thrive Capital, do empresário Josh Kushner (irmão de Jared Kushner, genro de Donald Trump), por meio de um veículo de capital permanente chamado Thrive Eternal.
O JPMorgan atua como assessor financeiro da Fifa na estruturação da operação, enquanto a consultoria OpenEconomics está mapeando outros investidores institucionais em diferentes regiões do mundo. Europa, Américas, Ásia e África foram citadas explicitamente no comunicado oficial da entidade.
A Fifa quer seguir o modelo da Fórmula 1?
O principal conselheiro comercial do projeto é Greg Maffei, ex-CEO da Liberty Media durante a aquisição e a gestão da Fórmula 1. E isso não é coincidência. O manual parece ser praticamente o mesmo adotado na F1 entre 2016 e 2017: pegar um ativo esportivo global, monetizar seus direitos comerciais de forma mais agressiva e profissionalizar sua gestão, atraindo capital privado de longo prazo para financiar essa transformação.
A diferença crucial é que a Fórmula 1 já era, à época, um ativo de propriedade privada, controlado pela CVC Capital Partners antes de ser adquirida pela Liberty Media. A Fifa, por outro lado, é uma associação sem fins lucrativos sediada na Suíça, cujo mandato é representar e servir 211 federações nacionais. É justamente essa diferença que alimenta o debate: estariam tentando aplicar à Fifa uma lógica de privatização semelhante à utilizada na Fórmula 1?
Os números por trás do valuation
Uma avaliação de US$ 20 bilhões para uma subsidiária comercial da Fifa precisa ser lida em contexto. A Copa do Mundo de 2026 já é descrita pela própria entidade como “a mais lucrativa da história”, com a Fifa planejando distribuir uma cifra recorde de 620 milhões de euros a clubes e federações em função do torneio, além de US$ 355 milhões em benefícios a clubes com jogadores convocados. Some-se a isso as receitas de transmissão, patrocínio master e ticketing de um evento sediado nos Estados Unidos, México e Canadá, mercado publicitário mais rico do planeta, e não é implausível chegar a um múltiplo relevante sobre o resultado operacional do ciclo comercial de quatro anos da Fifa, historicamente na casa dos US$ 11-12 bilhões por ciclo.
O ponto central para quem pensa em ROI é outro: US$ 4,2 bilhões de capital novo, para uma entidade que reportou lucro recorde no último ciclo, não é primariamente uma necessidade de caixa, é uma operação de liquidez para os atuais controladores (as federações) e um mecanismo de retenção política. Cada uma das 211 federações-membro receberia US$ 20 milhões via “Fifa Forward Development” nos próximos quatro anos, independentemente do voto, mais outros US$ 20 milhões condicionados à adesão ao plano, até US$ 40 milhões por federação. Na linguagem de fusões e aquisições, é um pacote de retenção disfarçado de programa de desenvolvimento: dinheiro para comprar votos favoráveis em uma assembleia que decide o destino do maior ativo do esporte mundial.
O divórcio
Após anos andando lado a lado, a Uefa se voltou contra a Fifa e ameaça deixar suas seleções fora de suas competições, em um movimento que, para os padrões do futebol mundial, é notavelmente coordenado. A Uefa foi a primeira a se posicionar, classificando o plano como uma “linha que as instituições de governança do futebol jamais deveriam cruzar” e afirmando que nenhuma de suas 55 federações-membro participará de qualquer torneio da Fifa enquanto a proposta “permanecer viva”, um boicote que incluiria a própria Copa do Mundo.
A Concacaf, que reúne 41 federações, incluindo a dos Estados Unidos, publicou uma nota dizendo ter “profunda preocupação” com o plano e questionando por que seria necessário recorrer a capital privado logo após “a Copa do Mundo mais lucrativa da história”. A Confederação Asiática de Futebol (AFC) também se somou, em solidariedade à Uefa e à Concacaf, afirmando que o plano não reúne as condições necessárias para alcançar consenso.
O fato é que existe um potencial conflito de interesses. Ao abrir espaço para a entrada de investidores privados, a tendência é que esses investidores queiram ver seus interesses, seus países ou suas marcas associados ao maior evento esportivo do mundo. Em uma Copa do Mundo marcada por interferências políticas, como a de 2026, com episódios como a retirada de um cartão vermelho após articulações nos bastidores e as dificuldades enfrentadas pelo Irã, que precisou deixar e retornar para disputar suas partidas, o debate ganha ainda mais força. Enquanto uma seleção permanecia treinando, outra passava horas em deslocamentos, o que inevitavelmente afeta o desempenho esportivo.
Para a Uefa, a preocupação é clara: não há interesse em ver uma de suas seleções prejudicada porque um investidor deseja que determinada equipe chegue à final. A Copa do Mundo deve premiar quem é melhor dentro de campo, e não quem tem mais força nos bastidores financeiros.
O que vem a seguir?
O prazo para que as 211 federações se manifestem é 19 de setembro de 2026. Até lá, o desfecho mais provável não é um “sim” ou “não” unânime, mas uma intensa negociação de bastidores, na qual a Fifa precisará costurar uma maioria simples mesmo sem o bloco europeu. Isso é matematicamente possível, já que a Uefa reúne 55 dos 211 votos, mas politicamente custoso, porque um torneio sem as seleções europeias esvaziaria boa parte do valor comercial que sustenta o próprio racional econômico da FFE.
Valuation não vale nada
Agora, pensa comigo: uma Copa do Mundo sem as seleções europeias perde boa parte do seu valor, assim como aconteceria se ficasse sem as seleções sul-americanas, asiáticas ou de qualquer outro grande bloco do futebol mundial.
No fim das contas, valuation é uma expectativa de valor. É o preço que o mercado atribui a um ativo com base no que acredita que ele pode gerar no futuro. Mas, se você corta o interesse do público, por mais que exista um bilionário disposto a dizer que esse ativo vale bilhões, seu valor real dificilmente se sustenta.
E aí, o que você acha? A Fifa deveria seguir em frente com esse plano?
Felipe Araújo, executivo de Estratégia e Finanças











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