Acordo entre sauditas, paquistaneses e turcos sem ambições nucleares


“O Acordo de Meca, que não visa nenhum país em particular, reforçará a segurança comum e a dissuasão coletiva dos três países […], contribuindo assim de forma importante para a preservação da paz e da estabilidade na nossa região”, declarou, em comunicado publicado no X, o diretor de comunicação da presidência turca, Burhanettin Duran.

A Arábia Saudita, onde o acordo foi assinado, pretende reforçar as suas alianças de segurança, depois de ter sido alvo do Irão, tal como outros aliados de Washington na região, e de enfrentar um recrudescimento das hostilidades com os rebeldes iemenitas huthis.

O anúncio envia uma mensagem a Teerão, mas também a Washington, vista como um parceiro cada vez menos fiável, segundo especialistas.

“O acordo visa reforçar a dissuasão coletiva contra qualquer ato de agressão e estipula que qualquer ataque armado contra um dos três Estados será considerado um ataque contra todos”, precisou o Ministério dos Negócios Estrangeiros paquistanês.

O acordo foi assinado em Meca pelo príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman, pelo Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, e pelo primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif.

“A questão estava em discussão há muito tempo, mas os recentes desenvolvimentos na região aceleraram o processo”, indicou à AFP uma fonte próxima do Exército saudita, sob anonimato, quando, no início do ano, a participação da Turquia ainda parecia excluída, segundo Riade.

Os três países muçulmanos sunitas têm em comum a participação nos esforços para resolver o conflito entre o Irão e os Estados Unidos, desencadeado no final de fevereiro por bombardeamentos israelo-norte-americanos contra Teerão e que abalou a economia mundial.

A Arábia Saudita e o Paquistão estão, além disso, já ligados por um acordo de defesa mútua concluído em setembro de 2025, fruto de uma longa tradição de cooperação militar. O anúncio suscitou então muitas interrogações, uma vez que Islamabade possui armas nucleares.

“Este acordo é um dos sinais mais claros até à data de que o Médio Oriente se está a afastar de uma ordem de segurança organizada exclusivamente pelos Estados Unidos. As potências regionais consideram cada vez mais que a segurança deve ser assegurada localmente, em vez de depender simplesmente de Washington”, comentou à AFP Andreas Krieg, especialista em segurança do King’s College de Londres.

Segundo o analista, este anúncio apoia as ambições sauditas de se tornarem o garante da segurança regional e de diversificarem a sua defesa. Para a Turquia, que é também membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), e para o Paquistão, trata-se de ganhar influência e atrair investimentos sauditas.

Esta aproximação “é claramente orientada contra o Irão”, salienta Oumar Karim, especialista em Arábia Saudita na Universidade de Birmingham, para quem a aliança “visa responder à nova abordagem estratégica” de Teerão, “que pretende dominar toda a região do Golfo e controlar o tráfego marítimo nas vias navegáveis estratégicas, quer se trate do estreito de Ormuz ou do estreito de Bab el-Mandeb”.

Para a Arábia Saudita, o maior exportador mundial de petróleo bruto, a abertura das passagens marítimas é essencial. O mar Vermelho e o estreito de Bab el-Mandeb tinham-se tornado vias alternativas, enquanto o Irão volta a bloquear o estreito de Ormuz desde o reinício dos confrontos com os Estados Unidos em julho.

Mas os huthis iemenitas, apoiados pelo Irão, impuseram recentemente um bloqueio aos navios sauditas e ameaçam também a navegação em Bab el-Mandeb, do outro lado da península.

O entendimento entre Riade, Islamabade e Ancara surge num momento em que parecem registar-se progressos relativamente a Ormuz: Teerão garantiu ter chegado a acordo com o sultanato de Omã, outro país ribeirinho, sobre uma nova rota de trânsito para os navios.

Mas qualquer reabertura dependerá de Washington, que, por seu lado, impôs um bloqueio aos portos iranianos, advertiram as autoridades iranianas.

Além da frente marítima, a Arábia Saudita foi alvo de ataques no seu território por parte dos huthis, que, nas últimas semanas, visaram infraestruturas petrolíferas.

A coligação liderada por Riade, aliada do Governo internacionalmente reconhecido do Iémen desde 2015, acusou hoje os rebeldes de terem efetuado “bombardeamentos contra alvos civis” na região fronteiriça de Najran, que fizeram 11 feridos, num ataque sem precedentes no reino desde a trégua de 2022 entre os dois campos.

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