Petróleo: Oriente Médio visa ampliar estoques no exterior – 19/08/2026 – Economia


Gigantes do setor energético do Oriente Médio estão correndo para transferir mais petróleo para estoques em locais seguros fora da turbulenta região do golfo Pérsico. A mudança é causada pelo prolongamento do conflito na região, que está forçando exportadores e seus maiores clientes a repensar a proteção de suprimentos.

A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos pediram ao Japão um aumento de reservas em tanques japoneses em até dez vezes os 8 milhões de barris que cada país mantém atualmente, segundo três pessoas a par das discussões ouvidas pelo NYT, que pediram anonimato porque as negociações são privadas.

Autoridades da Arábia Saudita e dos Emirados também mantêm conversas semelhantes sobre a ampliação de estoques na Coreia do Sul, disseram duas dessas pessoas.

Para os exportadores do golfo, que armazenam grande parte de seu petróleo na região, manter mais petróleo bruto no exterior as protege contra gargalos marítimos cada vez mais arriscados, desde os ataques houthis no mar Vermelho até o estreito de Hormuz, que dá poucos sinais de reabertura.

Tanto a Arábia Saudita quanto os Emirados dispõem de oleodutos terrestres que contornam o estreito e lhes permitem continuar exportando volumes limitados de petróleo.

Para os países asiáticos, os maiores consumidores mundiais de petróleo bruto do Oriente Médio, estoques maiores ofereceriam mais proteção contra interrupções prolongadas no fornecimento. Ao mesmo tempo, destinar uma parcela significativamente maior de capacidade a petroleiras estrangeiras reduz o espaço disponível para estoques comerciais de refinarias locais e para as reservas estratégicas do Japão.

Os volumes pretendidos pelos produtores do Oriente Médio provavelmente excederiam a capacidade disponível dos tanques japoneses e enfrentariam outras limitações logísticas, disseram as fontes.

As conversas para definir quanto petróleo poderá ser armazenado e como os custos serão divididos continuam, mas a expectativa é de que os estoques conjuntos aumentem substancialmente, acrescentaram.

Um porta-voz do Ministério da Economia do Japão não quis comentar os detalhes das conversas com a Arábia Saudita e os Emirados, mas afirmou que o Japão está trabalhando com países do Oriente Médio para reforçar a resiliência energética.

Um porta-voz da Abu Dhabi National Oil, gigante estatal de energia dos Emirados, disse em comunicado: “Esperamos ampliar nosso papel como fornecedor confiável para os mercados asiáticos, garantindo fluxos estáveis de energia para apoiar a estabilidade do mercado e manter os preços sob controle”.

Autoridades da Coreia do Sul e da Arábia Saudita não responderam de imediato aos pedidos de comentário.

A iniciativa de transferir reservas de petróleo é uma das várias mudanças fundamentais que estão remodelando os mercados globais de energia quase seis meses após o início da guerra dos Estados Unidos com o Irã.

Assim como os choques do petróleo da década de 1970 levaram governos a criar reservas estratégicas e aceleraram a busca por carros e fábricas com maior eficiência energética, a crise atual está obrigando países e empresas a reconfigurar as redes de abastecimento.

Em todo o Oriente Médio, produtores estão construindo ou ampliando oleodutos projetados para contornar o estreito de Hormuz. Enquanto isso, grandes importadores correm para garantir mais petróleo e gás de fora da região, ao mesmo tempo que aceleram os investimentos em fontes domésticas de energia, incluindo as renováveis.

Nos primeiros meses da guerra, surgiram repetidamente esperanças de que o estreito de Hormuz reabriria em breve, observou Tatsuya Terazawa, diretor do centro de estudos japonês Institute of Energy Economics.

“Mas, neste momento, não podemos confiar na esperança de que o presidente Trump resolverá isso”, disse Terazawa. A Ásia e o Oriente Médio, as duas regiões com maior exposição econômica à crise, “precisam encontrar, por conta própria, maneiras de lidar com suas vulnerabilidades”.

O Japão já tem uma longa tradição de armazenar petróleo bruto estrangeiro proveniente da Arábia Saudita, dos Emirados e do Kuwait. Como o consumo doméstico de petróleo caiu em relação ao pico dos anos 2000, as instalações japonesas passaram a dispor de mais capacidade ociosa para alugar a produtores de fora.

Esses acordos proporcionam às empresas estatais de energia do Oriente Médio um centro comercial de exportação próximo aos principais clientes do Leste Asiático. Para o Japão, uma nação insular que importa praticamente todos os combustíveis fósseis que consome e obtém mais de 90% de seu petróleo bruto do Oriente Médio, o modelo oferece acesso preferencial ao petróleo armazenado durante graves emergências de abastecimento.

Os Emirados começaram a armazenar petróleo bruto no Japão em 2009, seguidos pela Saudi Aramco, em Okinawa, em 2010, e pelo Kuwait, em 2020. Os acordos proporcionaram ao Japão reservas emergenciais de cerca de 8 milhões de barris provenientes de cada um dos dois países —Arábia Saudita e Emirados—, além de 3 milhões de barris do Kuwait.

O Japão recorreu a essas reservas, equivalentes a cerca de seis dias de demanda, nos primeiros meses do conflito atual.

A iniciativa para ampliar os estoques ganhou força depois que Ryosei Akazawa, ministro da Economia do Japão, visitou os Emirados e a Arábia Saudita no início de maio. Mais tarde naquele mês, os Emirados enviaram um navio-tanque para recompor os estoques reduzidos.

O modelo agora pode se disseminar de forma mais ampla pela Ásia.

As economias do Sudeste Asiático fortemente dependentes do petróleo do Oriente Médio foram particularmente afetadas pelas interrupções no fornecimento, e países como as Filipinas estão buscando criar reservas nacionais de petróleo.

A formação de estoques estratégicos, porém, pode custar centenas de milhões de dólares, tornando-os inacessíveis para muitas economias em desenvolvimento.

Acordos nos quais governos e produtores dividem os custos de armazenamento poderiam ser uma saída, afirmou Terazawa. Segundo ele, a forte percepção de vulnerabilidade tanto na Ásia quanto no Oriente Médio torna este um momento oportuno para ampliar esses acordos.

Do ponto de vista da segurança energética, “seria uma solução vantajosa para os dois lados” e “uma possível boa notícia em meio a esta crise”, acrescentou Terazawa.



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